Matéria atualizada às 12h04

Policiais civis cumpriram nove mandados de busca e apreensão em Caiapônia e Goiânia contra pacientes, profissionais de saúde e servidores municipais durante uma operação que apura um suposto esquema de “fura-fila” de pessoas que aguardavam cirurgias eletivas, mas que foram atendidas como se fossem procedimentos de emergência. A ação, denominada de “Paciente VIP”, foi deflagrada nesta sexta-feira, 17.

De acordo com o delegado Ramon Queiroz, cinco mandados foram cumpridos em Caiapônia e quatro em Goiânia. Na primeira cidade, os mandados foram executados nas casas de pacientes beneficiados pelo esquema. Já na capital, as buscas e apreensões tiveram como alvo pessoas ligadas à Secretaria Municipal de Saúde e também uma assessora parlamentar. Foram apreendidos diversos documentos e celulares de pacientes e servidores municipais.

Por meio de nota, a Secretaria Municipal de Saúde de Goiânia informou “que acompanha a realização da Operação Paciente Vip e que a pasta ressalta que está à disposição das autoridades para prestar todos os esclarecimentos necessários, colaborando integralmente com as investigações e fornecendo as informações que forem solicitadas. A SMS ressalta ainda que adotará todas as medidas cabíveis, no âmbito de sua competência, caso seja constatada qualquer irregularidade envolvendo a conduta de servidores da pasta”

A investigação identificou que o acesso ao sistema era feito com credenciais utilizadas de forma irregular. Entre elas, uma senha pertencente a uma servidora municipal de Goiânia que morreu há cerca de três anos. “Uma das senhas utilizadas é de uma servidora que faleceu há aproximadamente três anos. Isso demonstra que havia um esquema estruturado para burlar a fila do Sistema Único de Saúde.” O delegado acrescenta que, em pelo menos um caso, a pessoa afirmou não trabalhar mais no órgão, o que levanta a hipótese de que sua senha estivesse sendo utilizada por terceiros.

Ainda segundo o delegado, os pacientes de Caiapônia tiveram inicialmente os procedimentos negados por serem classificados como eletivos. Em seguida, buscaram auxílio político, que teria resultado na alteração da regulação para caráter emergencial. “O paciente era de Caiapônia, teve a cirurgia negada e, meses depois, conseguiu autorização sendo lançado como morador de outro município. Isso não pode acontecer e foi justamente o que chamou a atenção. Os pacientes passaram a ser regulados por municípios como Nazário e Brazabrantes, embora residissem em Caiapônia”, completou.

De acordo com o delegado, além de todos os pacientes serem de Caiapônia, outro fator chamou a atenção: todos precisavam de procedimentos na área de ortopedia, e dois deles foram operados no mesmo hospital. Ramon Queiroz afirma que não há indícios de comercialização das vagas. “Preliminarmente, tudo indica que isso acontecia em troca de apoio político. Não houve pagamento pela vaga; quando muito, algum valor simbólico relacionado à consulta”, reforçou.

As cirurgias foram realizadas no ano passado, período em que os fatos passaram a ser investigados. O delegado explicou por que ninguém foi preso nesta fase da operação. “Ainda precisamos identificar quem utilizava essas credenciais. O cumprimento dos mandados serve justamente para reunir elementos que permitam avançar na investigação.”

Além disso, o delegado busca agora descobrir como essas pessoas tiveram acesso às senhas para verificar se houve participação de outras pessoas, inclusive em municípios onde os pacientes foram cadastrados. “Vamos concluir a oitiva dos pacientes de Caiapônia para identificar qual ajuda política eles procuraram. A partir daí, pretendemos delinear toda a rede de pessoas e os mecanismos utilizados para viabilizar essas cirurgias.”

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