Goiânia não está apenas no traçado de suas avenidas, no desenho geométrico de suas praças ou na imponência de seus prédios históricos. Está, sobretudo, nas pessoas que a construíram — e nas memórias que resistem ao tempo. Foi com esse eixo que a arquiteta e urbanista Narcisa Abreu Cordeiro sintetizou, durante o lançamento de três obras na Academia Goiana de Letras, na terça-feira, 28, o sentido mais profundo da coleção: “O urbanismo não é somente ruas e praças. Temos que ver o conteúdo humano”.

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Fachada da sede da Academia Goiana de Letras, na Rua 20, no Centro de Goiânia | Foto: Samuel Oliveira

A fala de Narcisa não é apenas uma definição técnica — é, sobretudo, um ponto de partida para compreender Goiânia como um organismo vivo, moldado por trajetórias humanas que, pouco a pouco, correm o risco de desaparecer.

“Essa ideia surge com a Alameda dos Buritis, no Centro de Goiânia. Eu sempre achei aquela avenida icônica e com personagens importantes. Tive essa ideia e, conversando com o desembargador Rogério Arédio, lançamos em 2017 o primeiro livro sobre a Alameda, que é onde eu nasci” .

Narcisa Abreu Cordeiro durante entrevista ao jornalista Raphael bezerra sobre os livros com as memórias das ruas de Goiânia | Foto: Samuel Oliveira

O que começou como um projeto localizado ganhou dimensão maior com o tempo. A obra deixou de ser apenas sobre uma rua para se tornar uma espécie de cartografia afetiva da cidade.

“O Ubirajara Gali integrou perfeitamente no espírito da obra e fomos montando uma verdadeira coleção. Não foi só um projeto que era para uma rua. Fomos expandindo e ficamos na área central do projeto original de Goiânia” .

Nesse movimento, o urbanismo — tradicionalmente entendido como organização do espaço — passa a ser reinterpretado como memória, convivência e identidade.

“Goiânia foi uma cidade bem nascida na década de 30, com um plano original muito avançado para a época. Mas o urbanismo não é somente as ruas e praças. Temos que ver o conteúdo humano” .

A construção de uma identidade

A capital goiana, planejada desde sua origem, não se consolidou apenas por suas linhas arquitetônicas. Segundo Narcisa, sua singularidade está também na diversidade de influências que moldaram sua formação.

“Goiânia diferencia muito de outras cidades. Para cá convergiram pessoas muito bem qualificadas. Vieram técnicos do Rio de Janeiro, engenheiros com capacidade de projetos complexos e artistas que já conheciam processos de vitrais, como os do Palácio das Esmeraldas” .

Esse encontro de experiências produziu uma cidade híbrida, marcada por diferentes referências culturais e técnicas.

“Tivemos influência do Art Déco do Rio de Janeiro, de Minas Gerais na parte de técnicas construtivas e um fluxo importantíssimo vindo da cidade de Goiás. Herdamos tudo isso e somos uma cidade com essa coleção que nos diferencia de outras capitais” .

O tempo como limite

Se a cidade é feita de memória, o tempo se torna seu principal adversário. A própria autora reconhece que o trabalho de resgate chega em um momento-limite.

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Leitora mostra o livro lançado por Narcisa | Foto: Samuel Oliveira

“Hoje nós não faríamos mais a Alameda dos Buritis como foi feito. Várias pessoas já faleceram. Eu falo que estou na esquina do tempo. Estou com 79 anos. Meus pais já faleceram e meus filhos não poderão fazer esse resgate porque não lembram mais” .

A expressão “esquina do tempo” sintetiza o caráter urgente da obra: registrar antes que desapareça.

Um trabalho artesanal de memória

A construção dos livros não seguiu caminhos institucionais tradicionais. Foi, segundo Narcisa, um trabalho minucioso, quase manual, baseado em escuta, investigação e aproximação com famílias.

“Essa coleção não teria saído se fosse por um órgão do governo, porque é um verdadeiro crochê. Fomos atrás dessas famílias, foi uma pesquisa muito grande. Foi um verdadeiro artesanato” .

Esse método permitiu identificar personagens e histórias que dificilmente estariam nos registros oficiais.

“Pegamos a Avenida Tocantins, a Rua 25, onde tem a casa de Pedro Ludovico. Tem a Rua 16, onde habitou Câmara Filho. Tem toda essa engrenagem que resultou nessa coleção que será base para estudantes e filmes” .

“Esses depoimentos me fazem reviver todos os personagens que conheci desde a infância. Essa retomada é muito emocionante. Passei a entender melhor essas pessoas e a conhecer também pessoas invisíveis de tanta qualificação que tinham” .

O alerta do “Alzheimer memorial”

Se Narcisa fala de resgate, Ubirajara Gali fala de perda. Em tom mais crítico, o autor aponta que Goiânia vive um processo acelerado de apagamento histórico.

“Embora Goiânia seja uma cidade nova, é uma capital que está seriamente ameaçada. Eu costumo dizer que é um Alzheimer memorial, tanto da sua parte física quanto humana” .

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Ubirajara Gali é coautor dos livros sobre a memória das ruas de Goiânia | Foto: Samuel Oliveira

A metáfora se sustenta em exemplos concretos. Segundo ele, restam poucos vestígios materiais das origens da cidade.

“Das primeiras casas de alvenaria construídas, só existe hoje essa onde estamos, na Rua 20, que é a sede da Academia Goiana de Letras. É a derradeira das primeiras construções” .

Mas o problema não é apenas físico. É também geracional.

“Já estamos na quarta ou quinta geração dos pioneiros de Goiânia, e fica cada vez mais difícil acessar essa memória. Hoje não temos mais entre nós esses primeiros que acreditaram no sonho de Pedro Ludovico” .

Nesse cenário, a obra assume um caráter de preservação.

“É um trabalho de prospecção memorial, que conta esse lado humano dessas pessoas que vieram para construir a nova capital” .

As ruas como arquivos vivos

Ao percorrer diferentes logradouros, os livros revelam que cada rua guarda uma camada de história — muitas vezes desconhecida.

“Na Avenida Paranaíba, encontramos o Estádio Olímpico, que foi a primeira praça oficial da prática de futebol em Goiânia. É um logradouro onde moraram fundadores de clubes como o Goiânia, o Atlético e o Goiás” .

Outro exemplo é a Rua 16, que concentrou figuras relevantes do Judiciário.

“Encontramos na Rua 16 a presença de três desembargadores que foram cassados pela ditadura militar” .

E há ainda o núcleo político da cidade, representado pela residência de seu fundador.

“Na Rua 25, no encontro com a Dona Gercina Borges Teixeira, está a casa de Pedro Ludovico Teixeira” .

Para a presidente da Academia Goiana de Letras, Lêda Selma, o lançamento das obras reforça o papel da instituição na preservação da memória cultural.

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Lêda Selma é presidente da Academia Goiana de Letras | Foto: Samuel Oliveira

“A Academia tem por objetivo abarcar não só as letras, mas a cultura em geral e também tem esse compromisso de resgate. Nossos patronos são sempre trazidos à tona, assim como pessoas importantes que ajudaram a construir Goiânia” .

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