Muito além da moda: 7 momentos em que uma calcinha mudou regras, escandalizou o mundo e entrou para a história
08 julho 2026 às 16h48

COMPARTILHAR
Uma peça de roupa que quase nunca deveria aparecer acabou, em diferentes momentos da história, ocupando manchetes de jornais, gerando debates públicos e até mudando regulamentos esportivos. A calcinha — ou sua ausência — já foi motivo de escândalo, censura, perseguição moral e até transformações culturais.
Ao longo do último século, episódios envolvendo roupas íntimas femininas revelaram muito mais do que escolhas de vestuário. Eles expuseram a maneira como diferentes sociedades enxergavam o corpo feminino, os limites da liberdade individual e os padrões de comportamento impostos às mulheres.
Um dos casos mais emblemáticos voltou a ganhar destaque recentemente, quando uma reportagem da BBC relembrou como a brasileira Maria Esther Bueno ajudou, involuntariamente, a transformar as rígidas regras de vestimenta de Wimbledon.
Mas ela está longe de ser a única. Da aristocracia britânica às quadras de tênis, passando pelo cinema, pela música pop e pela moda, diferentes episódios marcaram a cultura mundial.
A brasileira que mudou Wimbledon com uma calcinha rosa
Em 1962, a tenista brasileira Maria Esther Bueno já era uma das maiores estrelas do esporte mundial quando retornou a Wimbledon após um período afastada por lesão.

Na estreia, entrou na quadra central usando um elegante vestido branco criado pelo estilista britânico Ted Tinling. À primeira vista, tudo parecia seguir a tradição do All England Club, conhecido pelo rigor em relação ao uniforme dos atletas.
O espanto veio quando Maria Esther começou a sacar.
O movimento revelava um forro rosa e uma calcinha da mesma cor. A reação do público foi imediata. A própria atleta contou anos depois que ouviu um “suspiro coletivo” vindo das arquibancadas.
A direção do torneio considerou o uniforme inadequado para os padrões conservadores da época. Posteriormente, Maria Esther passou a usar roupas íntimas nas cores oficiais de Wimbledon — verde e roxo —, o que também desagradou os organizadores.
O episódio foi decisivo para que o torneio deixasse de tratar o uso do branco como uma tradição e transformasse a prática em regra oficial. Décadas depois, Wimbledon chegaria ao ponto de exigir que até mesmo roupas íntimas fossem quase inteiramente brancas.
A americana acusada de levar “pecado” ao tênis
Treze anos antes da brasileira, outra tenista já havia provocado enorme escândalo.
Em 1949, a americana Gussie Moran entrou em Wimbledon usando uma saia curta criada pelo mesmo estilista, Ted Tinling.
Durante as partidas, aparecia discretamente uma calcinha branca rendada.

Embora a peça respeitasse a exigência da cor branca, dirigentes do torneio classificaram o uniforme como uma afronta aos bons costumes. Alguns chegaram a afirmar que Moran havia levado “vulgaridade e pecado” para as quadras.
A repercussão foi tão intensa que Tinling acabou afastado de suas funções em Wimbledon por muitos anos.
Hoje, historiadores consideram que a reação dizia muito mais sobre o moralismo da época do que sobre o uniforme da atleta.
A revolução silenciosa de Suzanne Lenglen
Décadas antes das grandes polêmicas envolvendo roupas íntimas, outra mulher já desafiava convenções.
Em 1919, a francesa Suzanne Lenglen abandonou espartilhos, anáguas pesadas, chapéus e vestidos longos para competir usando um vestido leve, de mangas curtas e comprimento abaixo dos joelhos.
Embora sua roupa íntima nunca tenha sido exibida, a simples redução das camadas de tecido foi considerada escandalosa para uma mulher da época.

Lenglen ajudou a revolucionar a moda esportiva feminina e abriu caminho para que gerações seguintes pudessem competir com mais liberdade.
A saia-calça que confundiu Wimbledon
Em 1931, outra inovação gerou repercussão.
A espanhola Lili de Alvarez entrou em quadra usando uma saia-calça desenhada pela estilista Elsa Schiaparelli.
Muitos espectadores acreditavam tratar-se de uma saia tradicional até perceberem, durante os movimentos da atleta, que se tratava de uma peça muito diferente dos padrões da época.

A roupa virou assunto na imprensa internacional e passou a simbolizar o avanço da moda esportiva feminina.
Marilyn Monroe e a cena que atravessou gerações
Se houve uma imagem capaz de transformar uma peça íntima em símbolo da cultura pop, foi a famosa cena de Marilyn Monroe sobre uma saída de metrô no filme O Pecado Mora ao Lado (1955).
O vento levanta o vestido branco da atriz diante das câmeras.
Mesmo sem mostrar explicitamente sua roupa íntima, a sequência provocou enorme repercussão e tornou-se uma das imagens mais famosas da história do cinema.

A cena consolidou Marilyn como um dos maiores símbolos sexuais do século XX e mudou para sempre a relação entre sensualidade e cultura de massa.
Sharon Stone redefiniu os limites do cinema
Quase quatro décadas depois, outra cena marcaria a história.
Em 1992, no filme Instinto Selvagem, Sharon Stone protagonizou uma sequência de interrogatório que sugeria que sua personagem não usava calcinha.
A breve cena tornou-se uma das mais discutidas do cinema contemporâneo, provocando debates sobre erotização, censura e representação feminina.

Até hoje ela é considerada um dos momentos mais icônicos da indústria cinematográfica.
Britney Spears e a era dos paparazzi
Nos anos 2000, o foco deixou de ser apenas a moda.
A cantora Britney Spears tornou-se alvo constante de fotógrafos que registravam momentos em que sua roupa íntima aparecia ao sair de veículos ou durante eventos públicos.
As imagens circularam pelo mundo inteiro.

Na época, muitos veículos trataram o assunto como entretenimento. Anos depois, entretanto, o episódio passou a ser visto como exemplo dos abusos cometidos pela indústria dos paparazzi e da forma desigual como mulheres famosas eram expostas pela imprensa.
O caso virou símbolo das discussões sobre privacidade, misoginia e exploração da imagem feminina.
Serena Williams reacende uma velha discussão
Em 2014, Wimbledon voltou ao centro da controvérsia.
O torneio formalizou uma regra determinando que até mesmo sutiãs, alças, shorts, rendas e calcinhas deveriam ser quase totalmente brancos.
A primeira grande advertência foi direcionada à americana Serena Williams, que utilizava um short rosa e roxo sob a saia.

A decisão reacendeu críticas ao rigor do torneio e levantou questionamentos sobre até que ponto uma instituição esportiva poderia controlar aspectos invisíveis do uniforme dos atletas.
Curiosamente, mais de cinquenta anos depois de Maria Esther Bueno, Wimbledon ainda discutia exatamente o mesmo tema.
Muito além de uma peça íntima
Embora pareçam episódios curiosos, essas histórias revelam profundas transformações sociais.
Em praticamente todos os casos, o centro da polêmica não era a roupa em si, mas a reação provocada pela autonomia feminina.
Ao longo do século XX, peças íntimas tornaram-se símbolos involuntários de disputas entre tradição e modernidade, conservadorismo e liberdade, controle institucional e expressão individual.
O que em determinado momento foi tratado como escândalo hoje é frequentemente visto como parte da evolução dos costumes.
Da calcinha rosa de Maria Esther Bueno às fotografias de Britney Spears, passando pelas rendas de Gussie Moran e pelas cenas inesquecíveis de Marilyn Monroe e Sharon Stone, esses episódios demonstram que, muitas vezes, uma simples peça de roupa foi suficiente para revelar muito sobre cada época — e sobre como a sociedade escolheu olhar para o corpo das mulheres.
Leia também: Quem é a esposa de Dembélé? Entenda por que ela nunca mostra o rosto



