O futebol sempre foi apaixonado por comparações. Pelé ou Maradona? Cruyff ou Beckenbauer? Ronaldo ou Zidane? Messi ou Cristiano Ronaldo? São debates que atravessam gerações e dificilmente encontram consenso. Mas, de tempos em tempos, surge um feito tão extraordinário que obriga até os mais resistentes a reverem suas convicções.

O hat-trick de Lionel Messi na estreia da Argentina na Copa do Mundo de 2026 é um desses momentos. Aos 39 anos, completa na próxima semana, quando a maioria dos grandes jogadores já se aposentou ou vive os últimos capítulos da carreira em ligas periféricas, Messi continua decidindo partidas de Copa do Mundo.

E não qualquer partida. Com três gols diante da Argélia, ele igualou o recorde histórico de gols em Mundiais, antes pertencente exclusivamente a Miroslav Klose, ampliou sua vantagem como jogador com mais partidas disputadas em Copas e ultrapassou Pelé em participações diretas em gols na principal competição do planeta.

São números impressionantes. Mas o que mais chama a atenção não é a estatística. É a longevidade da excelência. Durante décadas, o futebol produziu gênios. Poucos, porém, conseguiram permanecer no topo por tanto tempo. Messi estreou profissionalmente em 2004.

Desde então, atravessou gerações inteiras de atletas, técnicos e estilos de jogo sem perder relevância. Foi protagonista quando o futebol ainda era dominado por Ronaldinho Gaúcho, continuou brilhando na era de Cristiano Ronaldo e segue decisivo em um cenário ocupado por estrelas que sequer haviam iniciado suas carreiras quando ele já encantava o mundo.

O argumento contra Messi sempre encontrou abrigo na Copa do Mundo. Diziam que lhe faltava o troféu máximo. A conquista de 2022 desmontou essa tese. Agora, em 2026, ele parece determinado a ampliar uma obra que já parecia completa. Isso nos leva a uma reflexão inevitável: existe algum jogador do século XXI que tenha alcançado um patamar semelhante?

Cristiano Ronaldo construiu uma carreira monumental e talvez seja o maior artilheiro da história do futebol. Ronaldinho foi o talento mais encantador de sua geração. Zidane dominou os maiores palcos. Ronaldo Fenômeno revolucionou a posição de atacante.

Nenhum deles, entretanto, reuniu simultaneamente a quantidade de títulos, prêmios individuais, regularidade, números, longevidade e protagonismo em grandes competições que Messi acumulou. Talvez a discussão mais interessante já não seja se Messi é o maior jogador do século XXI. Essa condição parece cada vez mais consolidada.

A questão passa a ser outra: onde ele se posiciona na história completa do futebol? Pelé continua ocupando um lugar singular. Três Copas do Mundo, uma influência global sem precedentes e uma revolução técnica em uma época muito diferente. Comparações entre eras sempre serão imperfeitas. O futebol dos anos 1960 não é o mesmo dos anos 2020.

Mas há algo que une os verdadeiramente gigantes: eles transformam o impossível em rotina. Pelé fez isso. Messi também. Talvez nunca exista uma resposta definitiva para a pergunta sobre quem foi o maior de todos os tempos. O futebol é emoção, memória e contexto.

Cada geração guarda seus heróis. Mas o que os feitos recentes de Messi demonstram é que já não estamos apenas diante de um craque extraordinário. Estamos assistindo a um jogador cuja candidatura ao posto de maior futebolista desde Pelé deixa de ser uma opinião apaixonada para se tornar uma tese cada vez mais difícil de contestar. E isso, por si só, já é histórico.

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