Goiânia já registra mais que o dobro de atendimentos por vício em apostas em 2026; especialista explica tratamento e desafios
18 julho 2026 às 10h07

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Desde a regulamentação das apostas de quota fixa, em 2018, as casas de apostas ganharam espaço no cotidiano dos brasileiros e passaram a representar um desafio crescente para a saúde pública. Em meio à Copa do Mundo de 2026, período em que as apostas esportivas costumam atingir picos de movimentação, os atendimentos relacionados à ludopatia — nome técnico do transtorno por jogos de azar — avançaram na rede pública de saúde.
Dados do Ministério da Saúde apontam que quase 20 mil pacientes já foram cadastrados nacionalmente em serviços públicos de saúde mental para tratamento da dependência em apostas. Os atendimentos ocorrem, principalmente, nos Centros de Atenção Psicossocial (Caps), embora Unidades Básicas de Saúde (UBSs) e outros serviços da Rede de Atenção Psicossocial também realizem o acolhimento e o encaminhamento desses pacientes.
Em Goiânia, o atendimento é realizado nas três unidades do Caps AD, localizadas nos setores Vila Mutirão I, Negrão de Lima e Central, por demanda espontânea. Em 2026, a capital contabilizou 120 pacientes atendidos por ludopatia, mais que o dobro do registrado em 2025, com 50 pacientes cadastrados. Além disso, a pasta criou um grupo terapêutico com cerca de 30 participantes para auxiliar no tratamento.
Segundo a Secretaria Municipal de Saúde (SMS), o atendimento começa com acolhimento e avaliação multiprofissional. Quando necessário, o paciente também passa por consulta médica para avaliação da necessidade de tratamento medicamentoso. O Pronto-Socorro Psiquiátrico Wassily Chuc também atende pessoas com transtorno relacionado às apostas, embora a unidade não tenha informado o número de pacientes assistidos.
Problema de saúde pública
O psicólogo e especialista no tratamento da ludopatia, Vinícius Xavier, explica que as apostas possuem um alto potencial de causar dependência porque alteram o funcionamento do sistema de recompensa do cérebro, mecanismo semelhante ao observado em usuários de substâncias psicoativas.
O mecanismo de ação e manutenção do vício em aposta é exatamente o mecanismo de prazer do nosso cérebro, semelhante ao de outras drogas, afirma.

Segundo ele, embora seja classificada como uma dependência comportamental, a ludopatia integra o mesmo grupo diagnóstico das dependências químicas.
O especialista explica que o vício é alimentado pela expectativa do resultado da aposta. A liberação de dopamina ocorre antes mesmo do desfecho da partida ou do jogo, independentemente de vitória ou derrota.
Além disso, assim como ocorre em outras dependências, desenvolve-se um processo de tolerância. Com o tempo, o jogador precisa apostar valores maiores ou jogar com mais frequência para obter a mesma sensação de prazer, o que aprofunda o quadro de dependência e agrava consequências como o endividamento.
O comportamento da pessoa viciada passa a girar em torno das bets. Ela quer falar sobre apostas, pesquisar apostas e conviver com pessoas que compartilham esse interesse, explica.
Esse processo leva ao que o psicólogo chama de “afunilamento de repertório”, quando o indivíduo abandona hobbies, relações sociais e outras atividades que antes faziam parte da rotina.
Outro fator de risco é a chamada falsa sensação de controle. Segundo Xavier, muitos apostadores passam a acreditar que dominam os resultados das partidas, o que mascara a gravidade do problema e atrasa a procura por ajuda.
As consequências extrapolam a saúde mental e atingem também a vida financeira e familiar. Em muitos casos, pessoas endividadas passam a depender de parentes para custear despesas básicas ou até mesmo para continuar apostando, recorrendo a mentiras para sustentar o vício.
As apostas estão provocando um impacto econômico importante no país, levando à perda do poder de compra, principalmente entre pessoas das classes C, D e E, afirma.
Tratamento exige mudanças na rotina
Para Vinícius Xavier, o tratamento da ludopatia pode ser até mais complexo do que o de usuários de cocaína devido à facilidade de acesso às plataformas de apostas. Segundo ele, diferentemente das drogas ilícitas, o objeto da dependência está permanentemente disponível no celular, além de ser impulsionado por campanhas publicitárias e algoritmos das plataformas digitais.
Como estratégia complementar ao tratamento, o psicólogo recomenda um processo de “desdigitalização”, com a substituição do smartphone por aparelhos mais simples, limitados a chamadas telefônicas e aplicativos essenciais, como o WhatsApp, reduzindo a exposição aos anúncios das casas de apostas.
Outra medida sugerida é bloquear o CPF nas plataformas de apostas, por meio do Gov.br, além de transferir temporariamente o controle das finanças para familiares ou pessoas de confiança, dificultando o acesso ao dinheiro durante o tratamento. “Tomando medidas para que o indivíduo fique longe desses assédios digitais que existem e buscando barreiras de controle, como o bloqueio CPF e o acesso a conta bancária vigiada, ou ainda terceirizado por alguém de confiância para um monitoramento honesto do chamo de rede de apoio, porque isso ajuda muito”, afirma.
O indivíduo primeiro tem que querer melhorar. E o que acontece muitas vezes em tratamentos é que as pessoas são levados por familiares. A busca nem sempre é espontânea.
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