Estudos com aspirina para tratamento de câncer avançam, mas especialista alerta para uso restrito e dificuldade de testes
25 abril 2026 às 13h03

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Estudos recentes têm reforçado a possibilidade de a aspirina atuar na prevenção e no controle do câncer colorretal, ampliando o debate entre especialistas. Pesquisas indicam que o medicamento pode reduzir o risco de surgimento e de disseminação da doença, especialmente em pessoas com maior predisposição, como pacientes com síndrome de Lynch, nos quais foi observada redução de até 50% no risco.
Além disso, análises mostram que doses menores, entre 75 mg e 100 mg, podem trazer benefícios semelhantes com menos efeitos colaterais. Também há indícios de que o uso da aspirina após cirurgias pode diminuir as chances de recorrência do câncer. Apesar dos resultados promissores, especialistas alertam que o uso deve ser individualizado e sempre acompanhado por profissionais de saúde.
Segundo o oncologista clínico Gabriel Felipe Santiago, do Centro de Oncologia do IHG, o estudo ALASCCA avaliou pacientes com câncer de intestino — incluindo câncer de cólon e de reto — em estágios iniciais, quando a doença ainda era localizada. “O estudo avaliou pacientes com câncer de intestino, câncer de reto, de cólon, em estágio um a três, ou seja, doença localizada, que tinham sido tratados com cirurgia, muitos com radioterapia e quimioterapia pós-operatória”, explica em entrevista ao Jornal Opção.
Pesquisas em andamento também investigam se o efeito protetor da aspirina pode se estender a outros tipos de câncer, como mama, próstata e gastroesofágico. Ensaios clínicos com grande número de pacientes ainda estão em curso e devem trazer respostas mais conclusivas nos próximos anos. Segundo o especialista, ainda não há testes em curso no Brasil, somente nos Estados Unidos.
O estudo investigou a adição da aspirina após essa fase inicial do tratamento. De acordo com Gabriel, o ponto central da pesquisa foi a presença da mutação PIK3CA, também relacionada à via PI3K, identificada em parte relevante dos pacientes com câncer colorretal. “Em torno de 37% dos pacientes com câncer de intestino têm uma mutação chamada PIK3CA, ou seja, PI3K. É uma alteração genética presente em torno de 37% dos pacientes”, afirma.
Nos pacientes com essa alteração, o uso diário de aspirina reduziu o risco de a doença voltar. “Quando eles utilizaram a aspirina na sequência, tiveram uma redução no risco da recidiva, ou seja, no risco de a doença se manifestar novamente no futuro, de 50%”, diz o oncologista.
Os dados do ALASCCA indicam que a aspirina em baixa dose, usada como tratamento adjuvante por três anos, reduziu a recorrência do câncer colorretal em pacientes com alterações somáticas na via PI3K. O estudo foi randomizado, duplo-cego, controlado por placebo e envolveu centros de países nórdicos.
No estudo, a dose utilizada foi de 160 mg por dia. Gabriel compara esse volume à formulação de baixa dose disponível comercialmente. “Esses pacientes usaram aspirina na dose de 160 mg no estudo, o que seria equivalente a dois comprimidos de em torno de 81 mg, que a gente tem disponível até na farmácia”, explica.
Para o especialista, o achado é relevante porque associa medicina de precisão a uma intervenção de baixo custo. “Esses pacientes tiveram uma redução no risco de recidiva de doença de 50%, usando uma droga super barata, amplamente disponível no mercado e de fácil acesso”, afirma.
Para o especialista, o achado é relevante porque associa medicina de precisão a uma intervenção de baixo custo. “Esses pacientes tiveram uma redução no risco de recidiva de doença de 50%, usando uma droga super barata, amplamente disponível no mercado e de fácil acesso”, afirma.
Apesar do resultado, Gabriel ressalta que a indicação não se aplica a qualquer tipo de câncer nem a qualquer paciente. O benefício observado está relacionado ao câncer colorretal localizado e à presença da alteração genética no tumor. “Ele precisa ser necessariamente um câncer de intestino e ter essa variação genética, essa mutação”, diz.
O principal obstáculo, segundo o oncologista, está no acesso ao teste molecular. A análise da mutação PIK3CA é feita a partir do material da biópsia ou do tumor retirado na cirurgia. “O que a gente tem de obstáculo seria fazer o teste, que é uma análise genética da biópsia. Esse exame tem custo. O acesso fica mais difícil”, afirma.
O doutor em Ciências da Saúde Nelson Rassi avalia que, apesar dos resultados promissores, o uso da aspirina ainda exige cautela. Segundo ele, não há consenso para indicação ampla do medicamento como estratégia preventiva na população geral. De acordo com o especialista, o principal ponto de atenção está no equilíbrio entre riscos e benefícios. “A aspirina não é isenta de efeitos colaterais, especialmente sangramentos e complicações gastrointestinais. Por isso, a indicação precisa ser bem definida, principalmente em pacientes com histórico ou predisposição à doença”, afirma em entrevista ao Jornal Opção.

Saiba mais sobre o estudo
O estudo mais abrangente sobre o assunto foi conduzido pela Universidade de Newcastle, no Reino Unido.
Os pesquisadores destacam que, embora os resultados sejam considerados animadores, a aspirina não substitui exames preventivos já consolidados, como a colonoscopia e o acompanhamento clínico regular. No caso do câncer colorretal, a detecção precoce continua sendo uma das estratégias mais eficazes para aumentar as chances de cura e reduzir complicações.
Outro ponto observado nos estudos é que os benefícios costumam aparecer após uso contínuo por um período prolongado. Em algumas análises, a redução do risco foi percebida apenas anos depois do início do tratamento, o que indica que a ação preventiva do medicamento depende de acompanhamento e constância, sempre com supervisão médica.
Especialistas também ressaltam que nem todos os pacientes respondem da mesma forma ao uso da aspirina. Fatores como idade, histórico de sangramentos, presença de gastrite, uso de anticoagulantes e predisposição genética influenciam diretamente na decisão de prescrever ou não o medicamento como estratégia complementar.
Enquanto novas pesquisas avançam em diversos países, a expectativa da comunidade científica é identificar quais grupos podem se beneficiar mais da substância e quais doses oferecem maior segurança. Até lá, a recomendação segue sendo individualizar cada caso e evitar a automedicação, principalmente em tratamentos de longo prazo.
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