Jornal Opção entrevistou, nesta quinta-feira, 23, os presidentes Rubens Fileti, da Acieg, Luís Alberto Pereira, do OCB-GO, e André Rocha, da Fieg. Os dirigentes detalharam o posicionamento do setor produtivo goiano contrário à discussão sobre o fim da jornada 6×1 em pleno período eleitoral de 2026.

Representando o fórum empresarial, eles explicaram as motivações que levaram à publicação de carta aberta conjunta assinada por entidades como Acieg, Adial, Facieg, Faeg, FCDL-GO, Fecomércio-GO, Fieg e OCB-GO.

No documento, as entidades defendem que o tema seja tratado com rigor técnico e amplo diálogo após as eleições, e alertam para riscos como aumento de custos ao consumidor, perda de competitividade e possibilidade de demissões em massa em Goiás. (A carta está no fim da matéria.)

Em entrevista ao Jornal Opção, o presidente da Acieg, Rubens Fileti, afirmou que a principal preocupação das entidades não é a pauta em si, mas o momento em que ela está sendo debatida.

“O principal motivo é tirar essa pauta do campo eleitoral. Ela vira uma moeda de votação, e isso precisa ser tratado com bastante responsabilidade”, declarou.

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Rubens Fileti | Foto: Reprodução

Ele destacou que não há oposição a eventuais benefícios aos trabalhadores, mas à forma como o tema vem sendo conduzido, sem diálogo prévio com o setor produtivo.

O presidente da Acieg afirmou ainda que estudos técnicos elaborados pela CNC, CNI e CNA, entre outras entidades, embasaram estimativas sobre perda de empregos e impacto no Produto Interno Bruto (PIB) caso a jornada 6×1 seja extinta.

“Esses estudos já estão publicados e mostram o tamanho da perda que o setor produtivo pode ter com uma pauta colocada sem estudo nenhum”, disse.

Como exemplo, Fileti citou supermercados em cidades do interior, onde o maior movimento costuma ocorrer aos fins de semana. Segundo ele, nesses casos, haveria dificuldade para manter o funcionamento sem aumento de custos ou repasse ao consumidor.

Sobre alternativas ao modelo atual, defendeu a construção de uma proposta conjunta, fora do ambiente eleitoral.

“A alternativa é construir uma proposta em conjunto, conversar e tirar essa pauta da eleição. Fazer uma construção gradual para que isso seja tratado tecnicamente, e não apenas como possibilidade de ganho de votos”, afirmou.

Questionado sobre os impactos de eventual aumento nos custos da folha salarial, o dirigente afirmou que alguns segmentos, como parte da indústria e do setor de tecnologia, já operam em modelos diferentes, como o 5×2. Outros setores, porém, enfrentariam maior dificuldade de adaptação.

“Trazer isso gera um custo muito alto de recontratações, às vezes de uma demissão para uma recontratação em modelo adequado para a empresa. Isso impacta muito o dia a dia das empresas e principalmente o valor de mercado”, declarou.

Fileti alertou que, em caso de extinção imediata da jornada 6×1, Goiás poderia enfrentar demissões em diferentes setores. “Esse é o nosso grande medo, porque isso acaba exigindo mudanças no modelo de negócio da grande maioria das empresas”, afirmou.

Para o presidente da Acieg, o debate deveria ser retomado em cenário pós-eleitoral, com participação de grupos de trabalho e estudos técnicos. “O melhor momento é tirar isso da pauta eleitoral e começar a construir por meio de grupos de trabalho, com estudos sérios, que mostrem que queremos efetivamente o bem-estar e o crescimento dos colaboradores, sem deixar de lado a sustentabilidade das empresas”, disse.

Ao ser questionado sobre quais segmentos seriam mais resilientes às mudanças, Fileti evitou citar setores específicos. Segundo ele, o problema central não está na mudança em si, mas no contexto político em que o tema é discutido. “Não existe resistência à mudança. A resistência é ao momento que estamos vivendo, em pleno período eleitoral”, afirmou.

Por fim, o dirigente avaliou que experiências internacionais não demonstraram resultados uniformes com a redução da jornada de trabalho. “Se a gente olhar para o mundo, onde essas mudanças foram feitas, não vemos benefícios claros nem para a economia nem para o dia a dia dos colaboradores. Onde existe livre negociação entre empregado e empregador é onde surgiram os melhores resultados”, concluiu.

OCB-GO também alerta

Em entrevista ao Jornal Opção, o presidente da OCB-GO, Luís Alberto Pereira, reforçou as críticas à discussão sobre o fim da jornada 6×1 em meio ao processo eleitoral. Para ele, a mudança pode afetar diretamente a renda das famílias goianas.

Luis Alberto Pereira, presidente da OCB/GO | Foto: Bárbara Noleto/Jornal Opção

“Olha, a gente imagina que a redução da jornada vai fazer com que o empregador tenha que contratar mais gente. E isso vai gerar mais custo. Naturalmente, esse custo será repassado ao produto. No final, esse trabalhador que vai trabalhar um dia a menos vai pagar mais caro pelos produtos. Então, aquilo que ele ganhar pode não ser suficiente para manter o nível de vida dele, e ele terá que buscar outra forma de complementar a renda”, explicou.

Segundo Luís Alberto Pereira, sem discutir produtividade, o cenário se transforma em um “jogo de soma zero”, no qual não ganham nem trabalhadores nem empregadores.

Ele destacou que setores como comércio, serviços, turismo e, principalmente, micro e pequenas empresas seriam os mais impactados.

“Uma microempresa não tem funcionário para substituir aquele que está no período de folga. Vai precisar contratar mais gente, e isso representa custo. Uma grande empresa pode conseguir equilibrar, mas uma pequena, que tem um ou dois funcionários, se der folga para um, para continuar aberta, terá que contratar outro. Ou deixa de abrir e vende menos, ou abre e opera com custo maior”, afirmou.

Como alternativa, Luís Alberto defendeu a negociação direta entre patrões e empregados. “O que a gente propõe é a negociação. Patrão e empregado precisam sentar e buscar formas de melhorar a qualidade de vida do trabalhador sem afetar os custos. Defendemos que o acordado deve prevalecer sobre o legislado”, disse.

Ele acrescentou que não há interesse dos empregadores em manter trabalhadores em condições inadequadas, mas que é necessário encontrar soluções que não pressionem os preços ao consumidor.

Sobre o cenário político, o presidente da OCB-GO avaliou que o momento não é adequado para a discussão. “Esse momento não está isento para votar de acordo com convicções ou com base em estudos mais sérios. O debate acontece sob julgamento popular e próximo de uma eleição. Entendemos que haveria melhores condições em um ambiente sem contaminação eleitoral”, afirmou.

Para ele, o ideal seria retomar a discussão em 2027, com novo Congresso Nacional e novo presidente da República, em contexto mais técnico.

Luís Alberto revelou ainda que o fórum empresarial já iniciou diálogo com deputados e prefeitos e pretende ampliar as conversas com sindicatos e representantes dos trabalhadores. “Não temos problema nenhum em discutir o tema. Queremos mostrar que não adianta ter mais folga e enfrentar aumento no custo de vida, porque o trabalhador vai precisar compensar isso depois. Precisamos encontrar pontos de convergência e soluções que atendam os dois lados e também o Brasil”, afirmou.

Ele também disse estar aberto a discutir modelos intermediários, como flexibilizações parciais da jornada. “Estamos abertos a discutir quaisquer soluções que sejam boas para o trabalhador e não sejam ruins para o empregador. Por isso defendemos acordos específicos, sem uma norma rígida”, declarou.

Ao final, reforçou a defesa de um debate técnico e aprofundado. “O importante é entender que, se isso não for bem discutido, vira um jogo de soma zero. Perde o trabalhador e perde o empregador. Por isso, o tema precisa ser debatido com profundidade e livre da questão eleitoral, para que se encontrem saídas positivas para ambos os lados”, concluiu.

Fieg critica proposta

O presidente da Fieg, André Rocha, classificou ao Jornal Opção o tema como “sensível e delicada” a proposta de alteração da jornada de trabalho na escala 6×1. Segundo ele, o tema exige amplo debate e não pode ser conduzido de forma apressada em meio ao calendário eleitoral.

André Rocha, presidente da Fieg | Foto: Guilherme Alves/ jornal Opção

André Rocha destacou que o Brasil já convive com elevado custo de produção, baixa produtividade, carga tributária elevada e encargos sociais altos. Para ele, a proposta não representa aumento salarial, mas redução da jornada, sem clareza sobre como os custos adicionais seriam absorvidos pelas empresas.

“Não podemos atropelar os fatos e deixar que os parlamentares se contaminem pelos aplausos de um falso aumento de salário. Na prática, é trabalhar menos, não receber mais”, afirmou.

O dirigente acrescentou que o país vive um cenário de dificuldade para contratação de mão de obra qualificada, mesmo diante de programas de capacitação mantidos pelo Sistema S. Na avaliação dele, a redução da jornada poderia ampliar esse problema.

“Todos os setores da economia carecem de mão de obra em uma realidade de jornada de 48 horas. Com a redução, isso vai se agravar”, disse.

Para o presidente da Fieg, acordos e convenções coletivas são os instrumentos mais adequados para tratar de jornada e escala, já que sindicatos patronais e laborais conhecem a realidade de cada segmento econômico.

Ele citou que diferentes áreas já operam com modelos específicos, como escala 5×2 na indústria e na construção civil, 12×36 na enfermagem e jornadas inferiores a 44 horas em categorias como bancários, jornalistas e professores.

Rocha também mencionou a competitividade internacional como fator de preocupação. “A Argentina aumentou a jornada para 48 horas, a China tem 54. Estamos concorrendo com países que têm produtividade maior, jornada maior e encargos menores. Isso vai criar dificuldades para as empresas e para a população, porque o encarecimento dos produtos será repassado ao consumidor”, afirmou.

Na avaliação da entidade, o momento político não é adequado para discutir o tema. O dirigente criticou o regime de urgência do projeto e defendeu que o debate ocorra apenas no próximo ano, fora do calendário eleitoral.

“Qual é a urgência? Por que discutir em 45 dias, na véspera de uma Copa e de uma eleição? É preciso fazer uma coisa bem feita, com audiências públicas e transparência”, declarou.

Ele citou ainda exemplos como a meia-entrada e o piso da enfermagem para argumentar que medidas aprovadas sem planejamento podem gerar distorções econômicas e trabalhistas.

“O enfermeiro que deveria descansar 36 horas após 12 de trabalho hoje trabalha mais para complementar a renda. O mesmo ocorre com domésticas, que preferem atuar como diaristas porque os encargos diminuíram e a remuneração aumentou”, disse.

Segundo André Rocha, o fórum empresarial que reúne entidades goianas pretende ampliar o diálogo com parlamentares de diferentes partidos, prefeitos e representantes de micro e pequenas empresas.

“A carta é aberta. Vamos dialogar com todos, porque o custo para governos e empresários é altíssimo. Queremos um debate claro, transparente e sem contaminação eleitoral”, concluiu.

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