“Por muito tempo não tive resultado sustentável”, diz Carol Basílio sobre os desafios de gestão no empreendedorismo feminino
02 outubro 2026 às 16h23

COMPARTILHAR
Para mulheres que decidem empreender, prestar um serviço impecável costuma ser a parte mais simples, enquanto os grandes gargalos surgem no domínio do planejamento estratégico, na gestão financeira, no posicionamento de mercado e no gerenciamento de equipes. A transição de especialista para gestora exige novas habilidades para que o conhecimento técnico finalmente se traduza em crescimento sustentável.
Ao Jornal Opção, Carol Basílio, neurocientista do comportamento e especialista em liderança, contou, nesta quinta-feira, 1º, que a mudança de perspectiva em sua carreira começou após sua participação em um grande projeto no Hospital Albert Einstein. “Isso me abriu uma nova perspectiva de possibilidade de trabalho e eu comecei a estudar muito desenvolvimento humano porque realmente eu vi como uma oportunidade de transição de carreira”, relatou.
Ao ingressar no empreendedorismo, no entanto, ela encontrou uma dificuldade compartilhada por muitos profissionais liberais. “Eu comecei a empreender, acho que como todo mundo começa. A gente não conhece muito sobre gestão de empresa, de negócio, faturamento. Várias questões empresariais não nos são ensinadas”, afirmou.

A falta de preparação para lidar com o lado empresarial do negócio se refletiu diretamente nos resultados. Apesar dos investimentos e da contratação de serviços especializados, o crescimento esperado não acontecia. “Não ter resultados efetivos como empresa, crescimento, evolução empresarial mesmo com essas contratações”, lembrou.
Foi diante desse cenário que ela percebeu uma realidade enfrentada por muitos empreendedores. Segundo ela, existe uma grande diferença entre ser um especialista reconhecido e administrar uma empresa sustentável. O domínio da profissão ajudava a gerar valor para os clientes, mas não era suficiente para garantir crescimento, faturamento e longevidade ao negócio.
“Eu era uma especialista, tinha ali uma bela história, mentorava e transformava a vida das pessoas, mas eu ainda não estava formalizada como um negócio”, disse.
O caso evidencia um fenômeno comum entre empreendedores. Muitos conseguem gerar valor para os clientes, mas encontram dificuldades para criar processos, planejar o crescimento e transformar receita em sustentabilidade financeira. “Por muito tempo não tive resultado sustentável. Então eu trabalhava para pagar ali o que a empresa me demandava, mas eu não conseguia manter isso, fazer isso ser sustentável”, contou.
A partir dessa inconformidade, Carol passou a buscar conhecimento fora da sua área de atuação e começou a frequentar ambientes voltados para negócios. “Comecei a buscar essa linguagem, comecei a buscar esse vocabulário empresarial”, afirmou.
A virada aconteceu depois da participação em um dos maiores eventos de empreendedorismo feminino do país. Ao observar experiências de outras empresárias, ela passou a identificar as lacunas existentes em sua própria gestão. “Eu comecei a ver e a me enxergar nas minhas lacunas. Então eu comecei a me estruturar como negócio”, explicou.
A reorganização envolveu apoio especializado, formalização da empresa e uma mudança de mentalidade. Para ela, o principal avanço não aconteceu em documentos ou processos, mas no comportamento. “Eu mudei, na verdade, o comportamento de empreendedora amadora para uma empresária de sucesso realmente”, afirmou.
Segundo Carol, um dos erros mais frequentes entre empreendedores é acreditar que basta reproduzir estratégias utilizadas por outras empresas. “Tudo isso se deu a uma boa gestão do negócio, quebrando alguns paradigmas. Não é fazer o que todo mundo faz. É entender realmente o seu público, o seu objetivo, o seu negócio”, destacou.
Os resultados apareceram rapidamente após a reorganização estrutural. “Em dois meses eu já comecei a ter resultado”, disse.
O crescimento foi acontecendo gradualmente ao longo do ano. “Foi dois meses, quatro meses e oito meses. Foram esses marcos de crescimento”, relatou.
A trajetória reforçou uma mudança importante em sua visão sobre liderança. Para ela, liderar não está apenas ligado a cargos ou posições hierárquicas. “Eu falo que a liderança não é só um cargo que a gente ocupa. Eu acho que a liderança está nos papéis que a gente exerce”, afirmou.
Essa compreensão levou a especialista a valorizar ainda mais o conceito de autoliderança, entendido como a capacidade de conduzir a própria evolução. “Ela veio com essa clareza de onde eu estava, onde eu cheguei e onde eu quero chegar”, explicou.
Na avaliação da empresária, o desenvolvimento de líderes e empreendedores passa necessariamente pela capacidade de aprender continuamente e se manter aberto a novas perspectivas. “É sempre sobre expandir. Expandir o conforto”, ressaltou.
Segundo ela, a evolução empresarial exige que gestores observem constantemente o que acontece além de sua zona de conhecimento. “O que estão falando além daquilo, fora daquilo, para que eu realmente seja aquela peça que vai trazer um resultado para o meu setor ou até mesmo para minha própria equipe?”, questionou.
A principal lição extraída de sua experiência pode ser resumida em uma ideia simples “É buscar sempre além do que a gente sabe, além do conforto, além do conhecido”, disse.
Foi dessa busca por organizar conhecimento e gerar mais eficiência que surgiu o chamado Método 4P. A metodologia nasceu da necessidade de transformar um grande volume de informações em um processo mais prático. “Eu já sabia o trabalho que eu queria entregar, o resultado que eu queria promover”, explicou.
A proposta, segundo ela, era obter “maior resultado com menos esforço” e criar uma estrutura que pudesse ser aplicada em diferentes situações, desde atendimentos individuais até programas corporativos.
O primeiro pilar do método é a percepção. “Ele começa sempre por um processo de percepção”, explicou.
A ideia é compreender a realidade inicial de pessoas, equipes ou organizações antes de qualquer intervenção. O segundo pilar está relacionado à identificação dos padrões de comportamento já existentes. “O que criou aquele padrão de trabalho?”, questionou ao explicar a análise dos hábitos e práticas enraizadas nas organizações.
Na sequência vem o posicionamento, etapa que busca definir quais transformações são desejadas. “O que esses profissionais façam depois da palestra? Que tipo de comportamento você espera que eles tenham?”, exemplificou.
Por fim, a metodologia chega ao pilar da performance, voltado à mensuração dos resultados alcançados. “A performance é o resultado, olhando para o todo”, resumiu.
Segundo ela, embora a metodologia tenha sido criada para programas de desenvolvimento humano e liderança, a estrutura reflete um princípio fundamental do empreendedorismo: antes de buscar crescimento, é preciso compreender a realidade atual do negócio, identificar padrões, definir objetivos claros e medir resultados.
Para Carol, a principal lição é que dominar uma profissão continua sendo importante, mas já não basta para empreender com sucesso. O crescimento sustentável depende da capacidade de aprender gestão, desenvolver visão estratégica, liderar equipes e assumir, de fato, o papel de empresário.
Por fim, a especialista reforça que a evolução acontece quando se decide “buscar sempre além do que sabemos”.
Leia também:


