Para muitas pessoas, especialmente mulheres em situação de vulnerabilidade, uma cooperativa representa mais do que uma fonte de renda. É a oportunidade de reconstruir a vida, conquistar independência financeira e recuperar a autoestima. Em Goiás, cooperativas de reciclagem têm desempenhado esse papel ao reunir trabalhadores que encontraram no cooperativismo uma alternativa para superar dificuldades e garantir o sustento da família.

Foi o que aconteceu com Isamara Ferreira da Costa, integrante da Cooperativa de Trabalho de Catadores de Materiais Recicláveis Dom Fernando (Cooprec), em Goiânia. Há cerca de dois anos, ela enfrentava uma sequência de dificuldades: havia se separado, estava sem emprego, sem documentos e morava de favor com o filho de 7 anos.

A mudança começou depois que ela se mudou para um bairro próximo à cooperativa e passou a integrar o grupo de catadores. Segundo Isamara, o trabalho trouxe estabilidade financeira e abriu novas perspectivas.

“Hoje posso pagar meu aluguel e oferecer uma casa digna para mim e para meu filho. Conquistei coisas que antes pareciam impossíveis e acredito que ainda vou crescer muito por meio desse trabalho”, afirma.

Além da renda, Isamara destaca o ambiente de solidariedade criado entre os cooperados. Para ela, o apoio mútuo faz diferença no dia a dia.

“A cooperativa virou praticamente uma família. Quando alguém enfrenta dificuldades, todo mundo procura ajudar”, conta.

Mulheres ocupam espaço de liderança

A realidade da Cooprec também reflete uma mudança no perfil da atividade. Dos 30 cooperados, 19 são mulheres e três ocupam cargos de direção.

A presidente da cooperativa, Nair Rodrigues, trabalha com reciclagem há 28 anos e afirma que uma de suas principais motivações é incentivar a autonomia feminina dentro de um setor historicamente dominado por homens.

Segundo ela, conquistar respeito foi um processo gradual.

“No começo era difícil convencer que uma mulher podia desempenhar o mesmo trabalho e receber o mesmo que um homem. Hoje isso mudou bastante e foi muito importante para minha trajetória”, recorda.

Nair Ribeiro, presidente da Cooprec | Foto: Reprodução

Nair afirma que a maioria das mulheres da cooperativa é responsável pelo sustento da casa, realidade que, segundo ela, ainda recebe pouca visibilidade.

“Grande parte das nossas cooperadas sustenta a família sozinha. A ideia de que o homem é sempre o chefe da casa não corresponde ao que vemos diariamente”, avalia.

Trabalho que também transforma a comunidade

Além de gerar renda, as cooperativas de reciclagem exercem papel importante na coleta seletiva e na conscientização ambiental.

Em Santo Antônio de Goiás, a Cooperativa de Trabalho dos Catadores de Materiais Recicláveis (Cooper Sag) reúne dez cooperados, sendo sete mulheres. A presidente, Luciene Costa Leite, afirma que o trabalho vai além da separação de resíduos.

“Quem trabalha com reciclagem também precisa orientar a população e manter uma boa relação com a comunidade. Não basta cuidar do meio ambiente sem cuidar das pessoas”, explica.

Luciene assumiu a presidência da cooperativa em 2017 e liderou um processo de reorganização que permitiu ampliar as atividades da entidade. Atualmente, a Cooper Sag processa cerca de 14 toneladas de materiais recicláveis por mês.

Entre as melhorias conquistadas estão novos equipamentos, um caminhão para transporte dos materiais, uma cozinha e um banheiro na sede, estruturas que, segundo ela, fizeram diferença na rotina dos trabalhadores.

“As cooperadas buscavam os filhos ainda sujas porque não havia banheiro. Hoje temos um espaço adequado para nos alimentar, descansar e fazer a higiene antes de voltar para casa”, relata Luciene.

Apesar dos avanços, ela acredita que a categoria ainda enfrenta preconceito e baixa valorização.

“Nosso trabalho é essencial para o meio ambiente, mas ainda falta reconhecimento por parte da sociedade”, lamenta.

Cooperativismo vai além da geração de renda

As histórias de Isamara, Nair e Luciene ilustram o papel social desempenhado pelo cooperativismo, celebrado neste sábado, 4, quando é comemorado o Dia Internacional do Cooperativismo. Neste ano, a data tem como tema “Cooperativas por um mundo pacífico”, destacando a contribuição dessas organizações para a inclusão social, a geração de oportunidades e o fortalecimento das comunidades.

Na prática, as cooperativas funcionam como espaços de trabalho coletivo em que os próprios cooperados participam das decisões e dividem os resultados da atividade. Além da geração de renda, o modelo contribui para ampliar o acesso ao mercado de trabalho, fortalecer vínculos comunitários e criar oportunidades para pessoas que, muitas vezes, enfrentam dificuldades para conseguir emprego formal.

Em cooperativas de reciclagem, esse impacto é ainda mais evidente. Além de promover a destinação adequada dos resíduos e contribuir para a preservação ambiental, elas oferecem uma alternativa de sustento para centenas de famílias, transformando histórias marcadas pela vulnerabilidade em trajetórias de autonomia, inclusão e desenvolvimento social.

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