Dalton, artista de Goiás com destaque mundial e quadro no MoMa, sonha em erguer uma cidade do povo preto
27 maio 2026 às 09h37

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No extremo norte de Goiânia, em um daqueles bairros pouco conhecidos para além do Campus Samambaia, um sonho se torna realidade. Conhecimentos ancestrais se transformam em esperança para o futuro — esperança responsável por alimentar o trabalho de dezenas de artistas talentosos que reinterpretam e transformam o mundo por meio da criatividade. O que antes era uma pequena escola de artes hoje se tornou um modelo de sociedade aquilombada: o Sertão Negro.
Mas, como toda conquista exige um pioneiro, essa história não foi diferente. Tudo começou quando Dalton Paula recolhia doces nas festas de Cosme e Damião e assistia a Cavaleiros do Zodíaco durante a infância, sem imaginar que um dia alcançaria reconhecimento internacional por seus desenhos.
O nascimento de um artista
Dalton conta que, durante a infância, enfrentou muitos problemas de saúde e que sua mãe “fez promessa para São Cosme e São Damião”. Por isso, no dia 27 de setembro, ele saía pela região do Cruzeiro, em Brasília, junto com os primos para pedir doces. “Vinha com o pirulito do Zorro, vinha com doce de batata, abóbora, suspiro, maria-mole, pipoca… Enchia a mochila o dia todo indo atrás de doce.”
O artista explica que essa época marcou profundamente sua vida. “Esses santos médicos, da cura, da alteridade. Essa referência das crianças que tratam temas tão densos e sérios com mais leveza, com a ludicidade da brincadeira. A criança tem força e consegue transformar as coisas.”
Segundo Dalton, esse aprendizado inspirou sua forma de pensar a arte.
Quando completou 8 anos, mudou-se para Goiás depois que sua mãe foi aprovada em um concurso público. Ele afirma que, para um homem negro, Goiás pode funcionar como “um campo minado” e comenta como essa vivência influenciou sua concepção artística.
“Os desafios criam um não pertencimento e, às vezes, fazem você se sentir um corpo suspeito, caricato, um pouco menor. Mas essa tensão também faz surgir a necessidade de dar uma resposta. E eu acho que a arte é fundamental porque é uma resposta poética e criativa.”
Dalton também destaca o caráter universal da arte.
“A gente tem nações, pessoas com formas de ser e fundamentos diferentes, mas a arte é universal. Ela atinge, toca e atravessa as pessoas.”
Ele afirma que utiliza essa possibilidade como forma de comunicação com o mundo.
O artista conta que sua construção de identidade ganhou força quando entrou para o candomblé e começou a ter contato direto com os povos Kalunga. “Esse contato veio muito de uma inquietude de um homem preto em busca da própria identidade.”
Dalton relembra que conheceu a comunidade após assistir a uma reportagem sobre o turismo na região quilombola. “Eu queria ir para aquele lugar. Quando visitei, percebi que ali estavam muitas das respostas que eu procurava. Hoje, isso é referência para o meu pensamento como indivíduo e também como artista.”
Atualmente, Dalton é um dos principais artistas de Goiás e do país, com obras presentes no acervo do Museum of Modern Art (MoMA), em Nova York. Ainda assim, seu maior sonho vai além do reconhecimento internacional: construir, em Goiás, uma cidade que funcione como um quilombo para a população negra.
Símbolos e significados das obras
As obras de Dalton possuem uma identidade única. Muitas vezes, basta um rápido olhar para reconhecer sua autoria.
O artista explica como surgiu uma das principais características de seu trabalho.
“Nas primeiras lições de pintura, quando eu estudava luz e sombra, o professor dizia que as cores claras destacavam determinadas partes, enquanto as sombras escondiam outras.”
A partir disso, Dalton decidiu valorizar traços frequentemente marginalizados em corpos negros. “Eu quis trazer luz para determinadas partes desses personagens, como o nariz e o cabelo, características que muitas vezes foram alvo de preconceito.”
Por isso, seus personagens aparecem com narizes e cabelos dourados — alguns deles produzidos com fios de ouro.
Em uma de suas obras, outros símbolos também chamam atenção. Dalton explica que a escada posicionada atrás da personagem representa ascensão social. Ela segura livros porque, segundo o artista, o estudo é uma das principais ferramentas para que a população negra conquiste esse espaço.
O processo de criação também parte de uma extensa pesquisa histórica. Dalton busca relatos em jornais, processos judiciais e outros documentos que contem experiências de pessoas negras que nunca foram retratadas ou fotografadas.
A partir desses relatos, ele fotografa pessoas negras reais — inclusive quilombolas — e imagina como elas se vestiriam hoje caso ocupassem posições de poder.
“É um trabalho feito através da ficção e da fabulação. Eu fotografo quilombolas e utilizo essas imagens como uma espécie de retrato falado. As pessoas de hoje carregam referências genéticas e históricas das pessoas do passado.”
Veja fotos do ateliê com suas obras:
Outra inspiração para os símbolos de suas obras é a religião do candomblé. Dalton conta: “Pedra é onde materializa o sagrado. A gente encanta aquela pedra. A gente dá banho de folha, a gente reza e vai trazendo essa questão espiritual, mas também material”.
Conselhos e próximos passos
Ao final da entrevista, Dalton deixou um conselho para jovens que desejam se tornar artistas. “O principal conselho é sempre acreditar nos seus sonhos. A resposta está no trabalho. E, quando eu falo em trabalho, estou falando do desejo, da vontade e do sonho de ser algo na vida.”
Ele conclui destacando a importância da fé em si mesmo.
“Quando você está preparado, o caminho vai se fazendo. Nunca deixe de acreditar no seu sonho. Eu não nasci em berço de ouro e não tive herança, mas tive pessoas que me apoiaram, especialmente minha mãe. É um caminho difícil, mas possível. Essa crença fortalece a gente interiormente e abre caminhos para que as coisas aconteçam.”
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