O aumento da procura por cirurgias plásticas entre adolescentes tem acendido um alerta entre especialistas. Impulsionados pela influência das redes sociais e pela busca por padrões estéticos muitas vezes inalcançáveis, jovens têm chegado cada vez mais cedo aos consultórios de cirurgia plástica. Apesar disso, médicos reforçam que esses procedimentos não devem ser encarados como uma simples questão de beleza, mas como tratamentos indicados apenas em situações específicas.

Ao Jornal Opção, a cirurgiã plástica Viviane Borba Campos, especialista em Cirurgia Plástica pelo Hospital das Clínicas da Universidade Federal de Goiás (UFG) e membro da Sociedade Brasileira de Cirurgia Plástica (SBCP), explica que a indicação depende de uma avaliação individualizada.

“A cirurgia plástica na adolescência não deve ser encarada como um procedimento de beleza. Ela é um tratamento para situações específicas que causam sofrimento psicológico, funcional ou deformidades. A decisão precisa passar por uma avaliação criteriosa do cirurgião, juntamente com a família e, muitas vezes, com outros profissionais”, afirma.

Viviane Borba Campos é cirurgiã plástica | Foto: Arquivo Pessoal

Segundo ela, um dos principais desafios atuais é separar um desejo genuíno de uma vontade motivada pela comparação constante nas redes sociais. “Os adolescentes vivem expostos a imagens de corpos considerados perfeitos. Além disso, o cérebro ainda está em desenvolvimento, especialmente a área responsável pela tomada de decisões. Por isso, essa avaliação precisa ser muito cuidadosa.”

Avaliação psicológica pode ser necessária

Quando o médico percebe que o adolescente deposita expectativas irreais na cirurgia, o acompanhamento psicológico pode ser mais importante do que o procedimento em si. “Em alguns casos, percebemos que o adolescente acredita que a cirurgia resolverá todos os problemas da vida ou que existe algum transtorno emocional associado. Nessas situações, o acompanhamento psicológico pode ser tão ou mais importante do que a cirurgia”, afirma.

Para a especialista, a cirurgia plástica pode melhorar aspectos físicos que causam sofrimento, mas não resolve conflitos emocionais nem substitui o acompanhamento em saúde mental quando ele é necessário.

Cada cirurgia tem uma idade adequada

A idade mínima para realização de cirurgias plásticas varia conforme o tipo de procedimento e o estágio de desenvolvimento físico do paciente.

Viviane explica que a otoplastia, cirurgia para correção das orelhas, pode ser realizada ainda na infância, geralmente entre seis e sete anos, período em que o crescimento da orelha já está praticamente concluído. “Realizar essa cirurgia na infância pode evitar episódios de bullying e sofrimento psicológico durante a adolescência”, diz.

Já procedimentos como a rinoplastia exigem mais cautela. “No caso da rinoplastia, precisamos aguardar o crescimento completo dos ossos da face, o que normalmente acontece entre os 15 e 16 anos. Cada cirurgia possui critérios específicos que precisam ser avaliados”, explica.

Pais participam de toda a decisão

Nos casos de menores de idade, a autorização dos pais é obrigatória, mas, segundo a médica, o papel da família vai muito além da assinatura dos documentos. “A participação dos pais é essencial desde a primeira consulta até o acompanhamento do pós-operatório. Eles fazem parte de todo o processo de decisão e também do suporte necessário para que o adolescente cumpra corretamente as orientações médicas”, afirma

Embora a recuperação física de adolescentes seja semelhante à dos adultos, Viviane destaca que a principal diferença está na compreensão das recomendações médicas. “O desafio é o entendimento dos riscos e da importância de seguir corretamente os cuidados no pós-operatório. Isso depende muito do grau de maturidade do adolescente”, relata.

Cirurgias mais procuradas

Entre os meninos, o procedimento mais frequente é a correção da ginecomastia, condição caracterizada pelo aumento das mamas durante a puberdade. “A ginecomastia pode atingir entre 50% e 70% dos adolescentes do sexo masculino, sendo uma das principais causas de procura por cirurgia nessa faixa etária”, diz.

Já entre as meninas, a maior demanda envolve cirurgias nas mamas e rinoplastias. “A mamoplastia costuma ser indicada quando há hipertrofia mamária, ou seja, mamas muito grandes que causam dores, desconforto e até dificuldade para a prática de atividades físicas. Já a rinoplastia tem uma procura muito influenciada pela exposição constante nas redes sociais e pela cultura das selfies.”

Para Viviane Borba, cabe ao cirurgião plástico identificar quando a cirurgia realmente trará benefícios ao adolescente e quando o procedimento deve ser adiado ou até descartado. “A missão do cirurgião plástico não é criar um padrão de beleza ou deixar todos iguais ao que aparece nas redes sociais. Nosso papel é cuidar da saúde física e emocional do paciente.”

Ela orienta que pais conversem abertamente com os filhos antes de considerar qualquer intervenção. “Muitas vezes, a melhor cirurgia é justamente aquela que decidimos não fazer. É importante que a decisão seja tomada com tranquilidade, consciência e baseada em uma indicação médica bem estabelecida, e não apenas na comparação com influenciadores ou padrões estéticos”, completa.

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