Cardiomiopatia hipertrófica preocupa especialistas por risco de morte súbita; entenda
25 maio 2026 às 16h00

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A cardiomiopatia hipertrófica, doença apontada no atestado de óbito do fisiculturista e influenciador Gabriel Ganley, morto aos 22 anos em São Paulo, provoca o espessamento anormal do músculo do coração e pode causar arritmias graves, insuficiência cardíaca e até morte súbita. Embora muitas vezes silenciosa, a condição costuma se manifestar durante situações de grande esforço físico, como treinos intensos e competições esportivas.
A doença ocorre quando parte do músculo cardíaco cresce além do normal. Com isso, a parede do coração fica mais espessa e rígida, reduzindo o espaço interno responsável pelo acúmulo de sangue antes do bombeamento. Esse processo também pode comprometer os impulsos elétricos que controlam os batimentos cardíacos.
Segundo o cirurgião cardiovascular Ricardo Katayose, da BP – A Beneficência Portuguesa de São Paulo, a parede do ventrículo costuma ter até um centímetro de espessura em condições normais. Quando ultrapassa esse limite, passa a ser considerada hipertrófica e, em casos mais severos, pode chegar a mais de 30 milímetros.
“A parede vai ficando mais grossa e a cavidade de dentro acaba ficando menor. Isso dificulta o enchimento e o funcionamento normal do coração”, explica.
Cardiomiopatia hipertrófica pode ser hereditária
De acordo com o cardiologista Elzo Mattar, diretor do departamento de hipertensão arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia, a cardiomiopatia hipertrófica pode ter origem genética ou ser adquirida ao longo da vida, inclusive com influência do uso de esteroides anabolizantes.
Na forma genética, o espessamento costuma ocorrer de maneira assimétrica, atingindo uma parede do coração de forma desproporcional. A doença apresenta padrão autossômico dominante, com 50% de chance de transmissão entre pais e filhos, e é considerada uma das principais causas de morte súbita em pessoas com menos de 35 anos.
Esforço físico pode desencadear arritmias fatais
Em muitos casos, a cardiomiopatia hipertrófica permanece sem sintomas por anos e só se manifesta diante de uma sobrecarga cardíaca.
Segundo Mattar, durante atividades físicas intensas, o aumento dos batimentos cardíacos pode desencadear arritmias malignas, como taquicardia ventricular e fibrilação ventricular. Nessas situações, o coração perde a capacidade de bombear sangue adequadamente.
“O coração entra em colapso e deixa de conseguir manter o fluxo sanguíneo adequado para o cérebro e outros órgãos. Se não houver reversão rápida, o quadro pode evoluir para parada cardiorrespiratória e morte”, afirma.
Katayose ressalta que, em parte dos pacientes, a doença só é descoberta após um episódio grave.
“Algumas pessoas só vão descobrir por meio da morte súbita”, diz.
Por causa desse risco, pessoas diagnosticadas com cardiomiopatia hipertrófica geralmente não recebem liberação para a prática de esportes de alto rendimento. Entre os sintomas mais comuns estão falta de ar, dor no peito, palpitações, tontura e desmaios.
Como anabolizantes afetam o coração
Especialistas alertam que o uso de esteroides anabolizantes pode contribuir para o desenvolvimento da cardiomiopatia hipertrófica adquirida.
Segundo Mattar, essas substâncias aumentam a pressão arterial e obrigam o coração a trabalhar contra uma resistência maior, favorecendo o crescimento desorganizado do músculo cardíaco.
“O coração passa a trabalhar contra uma resistência maior e começa a sofrer hipertrofia. Só que esse crescimento acontece de forma desorganizada”, explica.
Com o crescimento acelerado da parede cardíaca, a irrigação sanguínea do músculo pode não acompanhar a demanda. Isso provoca morte celular, fibrose e pequenas cicatrizes no coração, aumentando o risco de arritmias graves.
Além disso, o uso de anabolizantes pode prejudicar a microcirculação das artérias coronárias e elevar o risco de trombose e infarto.
“Um usuário pode aparentemente ter uma vida normal e, de uma hora para outra, desenvolver uma trombose coronariana aguda, evoluir para um infarto e sofrer morte súbita”, alerta o cardiologista.
Uso de insulina também preocupa especialistas
Nas redes sociais, Gabriel Ganley também relatava o uso de insulina para fins estéticos e ganho muscular.
Especialistas afirmam que a insulina não causa diretamente a cardiomiopatia hipertrófica, mas pode aumentar os riscos cardiovasculares quando utilizada sem acompanhamento médico e associada a outras substâncias.
Segundo Clayton Macedo, diretor da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, fisiculturistas recorrem ao hormônio por ele estimular a entrada de nutrientes nas células e favorecer a síntese de proteínas musculares.
O problema é que, em pessoas sem diabetes, o uso inadequado pode provocar hipoglicemia grave, condição que pode levar a confusão mental, convulsões, coma e até morte.
A combinação de insulina, anabolizantes, estimulantes e diuréticos também aumenta o estresse cardiovascular e favorece arritmias, desidratação e alterações metabólicas.
Diagnóstico da cardiomiopatia hipertrófica
O diagnóstico da cardiomiopatia hipertrófica costuma ser realizado por exames como ecocardiograma, eletrocardiograma e ressonância magnética cardíaca.
Por se tratar de uma doença frequentemente hereditária, especialistas recomendam que familiares próximos também realizem avaliação cardiológica após a confirmação do diagnóstico.
O tratamento varia conforme a gravidade do quadro e pode incluir medicamentos betabloqueadores, restrição de exercícios de alta intensidade e implantação de cardiodesfibrilador implantável (CDI), aparelho semelhante a um marca-passo capaz de reverter arritmias fatais.
No caso de Gabriel Ganley, a causa da morte ainda é investigada oficialmente. O atestado de óbito cita cardiomiopatia hipertrófica associada a edema pulmonar e insuficiência cardíaca congestiva.
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