Brasil tem 18 influenciadores de política criados por IA; 78% divulgam informações falsas
21 maio 2026 às 09h47

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Um estudo realizado pelo Observatório das Eleições, em parceria com o Data Privacy Brasil e o Aláfia Labs, mapeou 18 perfis de influenciadores digitais artificiais dedicados à política brasileira entre janeiro de 2025 e abril de 2026. Desse total, a pesquisa aponta que a maioria (61% dos avatares) não apresenta qualquer aviso de que seus conteúdos foram gerados por inteligência artificial.
Além disso, o levantamento conclui que 78% desses perfis (ou seja, 14 dos 18 casos) propagam alegações falsas sobre políticos e instituições democráticas.
A investigação identificou personagens que simulam ser eleitores reais, influenciadores, apresentadores ou até líderes populares. Um dos casos é o da “Dona Maria”, avatar de uma idosa negra que acumula mais de 400 vídeos de ataques ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e à esquerda. Na outra ponta do espectro político, o personagem “Seu Zé da Feira”, um homem negro e idoso ambientado em uma feira de rua, critica a direita e o centrão.
“Não vote em políticos da direita e do centrão. PL, PP, Republicanos e União. Não tão nem aí pro povo, são sindicato de patrão”, dispara o avatar em uma de suas publicações, que traz marca d’água da ferramenta Veo 3 e sinalização sintética da plataforma.
De acordo com o estudo, detalhes como falhas de resolução, diferenças de proporção e elementos robotizados em áudios e imagens entregam a falsificação. Porém, para o usuário comum, esses avatares passam perfeitamente por humanos reais.
Apenas sete dos 18 perfis exibiam algum tipo de sinalização, e mesmo assim de maneira fragmentada. Por exemplo, três contavam com marcadores automáticos das próprias redes sociais; duas usavam marcas d’água das ferramentas de criação; e outras duas inseriram hashtags indicando o uso de IA.
O levantamento aponta que as plataformas preferidas desses influenciadores artificiais são o TikTok e o Instagram, com seis casos cada. Na sequência, aparecem o YouTube (três registros), além do X, Kwai e Facebook. Os principais alvos dos conteúdos enganosos incluem o presidente Lula, o ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) e ministros do Supremo Tribunal Federal, como Alexandre de Moraes, Cármen Lúcia e Luís Roberto Barroso.
Vale destacar o chamado ‘Efeito Dona Maria’. A forte repercussão do personagem levou a Federação Brasil da Esperança (PT, PV e PCdoB) a pedir a suspensão das contas ligadas ao perfil no Tribunal Superior Eleitoral (TSE), sob alegação de disseminação de desinformação e propaganda eleitoral antecipada.
Os perfis governistas não ficaram atrás: criaram uma versão própria da personagem, mantendo as mesmas características físicas, mas agora com discurso favorável ao presidente. Em vídeo publicado em 23 de abril por páginas como Lula Pela Verdade e Esquerda Brasil 4.0, a idosa artificial critica a escala 6×1 e a família Bolsonaro.
Os pesquisadores concluem que esses avatares representam um novo desafio para o ambiente informacional. Personagens inteiramente sintéticos, porém com aparência humana, simulam opiniões espontâneas e influenciam debates políticos.
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