Ao se constatar uma situação de violência, insalubridade ou risco para uma criança, e não havendo possibilidade de realocação com outros parentes, restam dois caminhos para o acolhimento: o encaminhamento para um abrigo ou para uma família acolhedora. Atualmente, a maioria absoluta das crianças em Goiânia é encaminhada para abrigos. Nos últimos dois anos, por exemplo, 703 crianças e adolescentes foram acolhidos por abrigos, sendo que apenas quatro foram encaminhados para famílias acolhedoras.

Na capital, existem seis abrigos geridos por organizações da sociedade civil (OSCs) e uma unidade administrada pelo poder público. Entretanto, 56% dos acolhimentos são realizados no Complexo 24 Horas, instituição pública. Outros 39% ocorrem em abrigos geridos por OSCs, enquanto apenas 5% são destinados a famílias acolhedoras.

Das seis instituições conveniadas, duas estão em reforma. Entre as que seguem em funcionamento, a que mais recebeu crianças foi o Instituto Radicais Kids, com 74 acolhimentos em 2024 e 71 em 2025. Em seguida aparece a Associação Brazilian Kids, com 46 acolhimentos em 2024 e 38 em 2025. Já o Lar Mãe Zeferina e a Associação Santa Teresinha do Menino Jesus registraram, respectivamente, 22 e 16 acolhimentos nos últimos dois anos.

O Jornal Opção entrevistou o juiz Fernando César, da Vara da Infância e da Juventude, para compreender como é realizada a fiscalização desses abrigos geridos por OSCs e quais são os principais desafios enfrentados pelas instituições. Além disso, a reportagem obteve dados orçamentários junto à Secretaria Municipal de Políticas para as Mulheres, Assistência Social e Direitos Humanos sobre os repasses destinados aos abrigos.

O magistrado explicou que a definição do local de acolhimento depende do perfil de cada criança ou adolescente, já que as instituições costumam atender públicos específicos conforme faixa etária e sexo. Apenas uma delas recebe crianças de todas as idades. Sobre a fiscalização, afirmou:

“Nós temos equipes interprofissionais que fazem tanto o acompanhamento quanto uma fiscalização obrigatória semestral. Mas isso não quer dizer que nós não estejamos lá diariamente, porque todos os dias precisamos elaborar relatórios, realizar entrevistas com adolescentes e acompanhar a situação de cada criança acolhida.”

Leia também: A cada 24 horas, uma criança perde o convívio familiar em Goiânia

Sobre os desafios enfrentados pelas instituições, o juiz destacou questões financeiras e logísticas. Segundo ele:

“Seria importante que as instituições tivessem mais espaço, melhor distribuição geográfica e estivessem mais próximas das escolas, para que fosse possível que o adolescente acolhido pudesse ir sozinho para a aula. Porque ele não está em uma prisão, está em um acolhimento.”

Veja abaixo um mapa com a localização das instituições de acolhimento geridas por OSCs que não estão em reforma:

Para exemplificar os repasses feitos pela Prefeitura de Goiânia às instituições de acolhimento, o Lar Mãe Zeferina recebe R$ 264 mil a cada dois anos. No mesmo período, a entidade acolheu 22 crianças e adolescentes, o que representa um investimento médio de cerca de R$ 1 mil por acolhido por mês.

Ao todo, a Prefeitura de Goiânia informou ter investido R$ 458.531 em serviços de alta complexidade voltados para crianças e adolescentes. O valor engloba mais do que apenas os abrigos, incluindo outras modalidades de atendimento. Considerando os 703 acolhimentos registrados nos últimos dois anos, o montante corresponde a aproximadamente R$ 652 por acolhido no período.

A reportagem também questionou a Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social (Seds) sobre os recursos repassados a Goiânia para a execução dessas políticas. Em nota, a pasta informou:

“A Secretaria de Estado de Desenvolvimento Social informa que as prefeituras são responsáveis pela execução e manutenção dos serviços de acolhimento institucional, que podem ser na modalidade de abrigo ou Casa Lar, ou de acolhimento em Família Acolhedora. Todos os tipos são voltados para o atendimento de crianças e adolescentes vítimas de violência ou violação de direitos por determinação judicial.

O que cabe ao Estado é a cooperação na realização dessas políticas públicas. A Seds é responsável pela realização de capacitações, apoios técnicos, monitoramento e cofinanciamento dos serviços. O Governo de Goiás repassou, apenas em 2026, R$ 30 milhões aos municípios por meio do Cofinanciamento Estadual. O recurso pode ser usado, inclusive, para a implementação de serviços de acolhimento. Em 2025, o município de Goiânia recebeu R$ 6 milhões do Cofinanciamento Estadual.

Desde 2025, os municípios podem aderir ao edital do Programa Família Acolhedora Goiana. O município de Goiânia possui parceria com a Seds para o pagamento das bolsas-auxílio do serviço de Família Acolhedora. A secretaria promove ainda o acompanhamento técnico das equipes na execução do serviço, que é de responsabilidade do Executivo municipal.”

O Governo Federal também respondeu aos questionamentos da reportagem sobre os recursos destinados à capital. Em nota, o Ministério do Desenvolvimento e Assistência Social, Família e Combate à Fome informou que o cofinanciamento federal destinado aos serviços de alta complexidade em Goiânia somou R$ 227.814,18 entre janeiro e dezembro de 2025.

Leia mais:Entre o abandono e o cuidado: como ajudar crianças vítimas de violência na primeira infância