Toda época de chuva gera uma preocupação na população que mora ou trabalha em Goiânia. Isso acontece porque a cidade sofre com pontos de alagamentos e enxurradas que causam transtornos e acendem alertas de cautela máxima. Ao todo, há 133 pontos passivos de alagamento na capital, segundo dados da Defesa Civil.

A percepção do problema também é percebida pela população em levantamentos recentes. Um estudo feito pelo Instituto Cidades Sustentáveis mostrou que 50% dos moradores consideram as enchentes e alagamentos como o maior problema ambiental da cidade.

Para o gerente de Combate às Mudanças Climáticas da Prefeitura de Goiânia, Gabriel Tenaglia, esses resultado não surpreendem a gestão municipal. “Quando criamos o Gabinete de Crise, no início da gestão, um dos objetivos era comunicar de forma mais adequada à sociedade sobre os problemas relacionados aos alagamentos e inundações. Infelizmente, há vários anos Goiânia registra mortes em decorrência desses eventos. Por isso, vemos essa pesquisa como um fator positivo, pois mostra que a população está mais atenta aos riscos”, destaca em entrevista ao Jornal Opção.

O resultado da pesquisa também revela a mudança da percepção da população em relação aos impactos reais da urbanização e da crise climática. O especialista explica essa percepção da população se torna mais evidente porque os alagamentos deixaram de ser um problema distante e passaram a fazer parte da rotina dos moradores, independentemente da região da cidade. “Alagamento e inundação são problemas que acabam uniformizando a cidade. Eles acontecem tanto em bairros nobres quanto em bairros mais periféricos, o que aproxima esse tema do cotidiano da população. Hoje, as pessoas conseguem visualizar esses pontos no trajeto para o trabalho ou para casa e, por isso, ficam mais receosas. Essa percepção acaba se refletindo na pesquisa”, explica.

Segundo o gerente, a ocupação histórica das áreas próximas aos cursos d’água e a grande quantidade de mananciais presentes em Goiânia contribuem para que os moradores convivam de forma mais direta com os efeitos das chuvas intensas.

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Em Goiânia há 133 pontos passíveis de alagamento | Foto: Foto: Guilherme Alves/Jornal Opção

O papel da população na prevenção

Embora as mudanças climáticas contribuam para a ocorrência de chuvas mais intensas e frequentes, Tenaglia ressalta que elas não são as únicas responsáveis pelos alagamentos registrados na capital. Segundo ele, a forma como a cidade é ocupada e os hábitos da própria população também influenciam diretamente nos problemas de drenagem urbana. “O grande desafio é fazer a sociedade compreender que ela faz parte do processo, seja para gerar o problema, seja para trazer a solução frente às mudanças climáticas”, afirma.

De acordo com o gerente, práticas como a impermeabilização excessiva dos lotes e o descarte irregular de resíduos acabam sobrecarregando o sistema de drenagem da cidade. “A prefeitura tem a responsabilidade de estruturar as macrodrenagens e os eixos da cidade, mas a sociedade precisa compreender que também faz parte disso”, destaca.

Ele explica que Goiânia enfrenta um processo histórico de ocupação de fundos de vale e áreas sujeitas a inundações, ao mesmo tempo em que registra eventos de chuva cada vez mais extremos. “Em janeiro de 2025 tivemos 152 milímetros de chuva em menos de uma hora e meia. Mesmo um sistema eficiente de drenagem não suportaria um volume dessa magnitude”, diz.

Como forma de adaptação, a prefeitura tem incentivado soluções baseadas na natureza, como calçadas permeáveis, jardins de chuva e trincheiras de infiltração. A proposta é aumentar a absorção da água da chuva dentro dos próprios lotes e reduzir o volume direcionado às ruas e galerias pluviais. “Talvez o grande desafio dos próximos 20 ou 30 anos seja justamente adaptar a cidade a essa nova realidade climática”, conclui.

Ações da Prefeitura de Goiânia

Além das ações de conscientização, a Prefeitura de Goiânia também aposta em obras e projetos para reduzir os impactos das chuvas na capital. Segundo Gabriel Tenaglia, o município teve aprovado junto ao Fundo Clima, do BNDES, cerca de R$ 500 milhões para investimentos em drenagem urbana e soluções baseadas na natureza. “O prefeito vai lançar alguns desses projetos no próximo dia 12. Eles já vêm com essa nova pegada de esverdear a cidade. Historicamente, as cidades foram construídas com muita impermeabilização do solo, mas essa realidade não se sustenta mais”, afirma.

Entre as iniciativas estão jardins de chuva, áreas permeáveis, bacias de retenção e outras estruturas voltadas para aumentar a absorção da água e reduzir os pontos de alagamento. A expectativa da gestão é tornar Goiânia uma cidade mais resiliente às mudanças climáticas nos próximos anos.

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