Um levantamento do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) mostra que cerca de 60% das empresas no Brasil fecham antes de completar cinco anos. Entre os dados analisados pelo instituto, a taxa de sobrevivência das empresas abertas em 2017 foi de apenas 37,9% após cinco anos de atividade.

A sobrevivência dessas empresas era de 76,2% em 2018, caiu para 56,6% em 2019, recuou para 49,4% em 2020, chegou a 42,3% em 2021 e atingiu 37,9% em 2022.

Contudo, dados de abril de 2026, considerando o período entre 2021 e 2026, mostram que esse índice atualmente é de 44,9% no Brasil.

Em Goiás, a taxa de empresas que não permanecem ativas após cinco anos gira em torno de 45,2%, segundo dados da Receita Federal acompanhados pelo Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae-GO).

Francisco Lima Júnior, gerente da Unidade de Gestão Estratégica do Sebrae Goiás | Foto: Reprodução/Arquivo pessoal

Ainda assim, não se trata de um índice desprezível. “É um número que chama atenção, mas não significa que todas essas empresas fecharam por falência”, explica Francisco Lima Júnior, gerente da Unidade de Gestão Estratégica do Sebrae Goiás, em entrevista ao Jornal Opção.

Segundo ele, parte desses encerramentos envolve mudanças naturais do próprio mercado. Há casos de empresários que migram de atividade, encerram um CNPJ para abrir outro ou até situações mais específicas, como a morte do proprietário.

Mesmo com essas variáveis, há um ponto em comum entre muitos negócios que não conseguem seguir adiante: a falta de preparo. De acordo com Francisco, esse é um dos fatores que mais se repetem entre empresas que encerram suas atividades. “Muitas vezes o empreendedor tem pouca experiência no ramo ou começa sem conhecer bem o mercado em que está entrando”, afirma.

Logo atrás vem outro problema recorrente: a ausência de planejamento. É comum que o empreendedor avance sem estudar a concorrência, o público-alvo ou sem ter clareza sobre custos e formação de preço. No dia a dia, essa falta de estrutura acaba pesando e, em muitos casos, compromete a sobrevivência do negócio.

Na avaliação de Francisco, as dificuldades internas ainda têm mais impacto do que fatores externos, como economia ou acesso a crédito. Isso não significa que o ambiente econômico não influencie. Crises, como a vivida durante a pandemia, e barreiras para financiamento também entram na conta, mas a forma como o negócio é gerido costuma ser decisiva.

Um erro clássico aparece já no começo da jornada: pular a etapa de planejamento. “O ideal é que esse processo comece no dia zero, no momento em que a pessoa pensa em abrir um negócio”, orienta o gerente. Segundo ele, é comum o empreendedor se apaixonar pela própria ideia e acreditar que ela vai dar certo sem antes validar se há demanda real no mercado.

Esse cenário também tem relação com o perfil de quem empreende. No Brasil, ainda há uma divisão entre quem abre um negócio por necessidade, geralmente após perder o emprego, e quem empreende por oportunidade. No primeiro caso, a falta de tempo para se preparar costuma aumentar os riscos. Já quem planeja com antecedência tende a ter mais chances de acerto.

Outro recorte importante aparece quando se analisa o porte das empresas. Os microempreendedores individuais (MEIs) são os que mais enfrentam dificuldades para se manter ativos. Em Goiás, a taxa de encerramento nesse grupo se aproxima de 60% em cinco anos, bem acima das microempresas e das empresas de pequeno porte, que apresentam índices menores.

Apesar dos desafios, o movimento empreendedor segue em alta. Em Goiás, o número de pequenos negócios praticamente dobrou nos últimos anos. Em 2020, eram cerca de 544 mil empresas. Em abril de 2026, esse total já se aproxima de 972 mil, um crescimento consistente, com saldo positivo anual de novos negócios.

Diante desse cenário, o Sebrae tem atuado justamente na base do problema: a preparação do empreendedor. A instituição oferece capacitações, consultorias e orientação desde a fase inicial da ideia até a gestão do negócio já em funcionamento, muitas delas gratuitas.

A leitura que fica é menos alarmista do que o número bruto sugere, mas ainda exige atenção. Empreender continua sendo uma aposta que envolve risco e, muitas vezes, o que define quem permanece no mercado não é apenas a ideia, mas o quanto ela foi planejada antes de sair do papel.

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