Donni Araújo

Especial para o Jornal Opção

Até onde remonta o conhecimento sobre a existência do homem, o poder de influenciar sociedades esteve ligado ao controle da informação.

No século XV, a invenção da prensa de Gutenberg alterou a estrutura de poder da Europa ao permitir a circulação massiva de ideias. Nos séculos XIX e XX, jornais, revistas, emissoras de rádio e redes de televisão transformaram-se nos principais mediadores entre os acontecimentos e a percepção pública desses fatos.

Durante séculos, quem controlava os canais de distribuição da informação exercia influência política, econômica e cultural.

Até o advento da internet, que parecia destinada a romper essa lógica. Uma das promessas mais repetidas era a de que finalmente nos libertaríamos dos intermediários.

A informação deixaria de passar pelos filtros dos grandes jornais. A música escaparia do controle das gravadoras. A televisão perderia sua capacidade de definir a agenda pública. Pela primeira vez na história, cada indivíduo teria acesso direto ao conhecimento, à cultura e à informação.

O sonho da desintermediação tornou-se um dos mitos fundadores da era digital.

Passadas três décadas, vale perguntar se ele realmente se concretizou, ainda que a resposta seja, infelizmente, um sonoro não. Porque, de fato, era uma visão revolucionária, mas também uma ilusão.

Os intermediários não desapareceram, foram substituídos por novos mediadores, que são muito mais poderosos do que os antigos.

Trata-se de uma das transformações mais importantes e menos compreendidas do século XXI.

Os antigos intermediários eram visíveis. Tinham endereço, telefone, conselho editorial e nome de proprietário. Sabíamos quem decidia a manchete de um jornal, a programação de uma emissora ou a seleção musical de uma rádio.

Agora, os novos mediadores são invisíveis e operam por meio de sistemas matemáticos capazes de analisar bilhões de interações diárias e tomar decisões em frações de segundo.

Chamamos esses sistemas de algoritmos, uma definição técnica que talvez esconda mais do que revela, pois a questão fundamental não é tecnológica. É política, econômica, cultural e civilizatória.

Os algoritmos não estão apenas organizando informações. Estão arquitetando atenção, que se tornou o recurso mais valioso da economia contemporânea.

Economia da atenção

O cientista político Herbert Simon já advertia, ainda nos anos 1970, que uma abundância de informação produz inevitavelmente uma escassez de atenção. Décadas depois, essa observação tornou-se uma descrição precisa do mundo digital. Nunca tivemos acesso a tanta informação. Nunca produzimos tanto conteúdo. Nunca consumimos tantas notícias, vídeos, músicas, imagens e opiniões.

Ao mesmo tempo, continuamos possuindo apenas vinte e quatro horas por dia. Dessa forma, a escassez mudou de lugar. A informação tornou-se abundante e a atenção passou a ser rara. É exatamente sobre essa escassez que se construiu um dos modelos de negócios mais lucrativos da história.

Shoshana Zuboff foto Reprodução
Shoshana Zuboff aponta o primado da era do capitalismo de vigilância | Foto: Reprodução

Shoshana Zuboff, professora emérita da Harvard Business School, descreveu esse fenômeno como capitalismo de vigilância. Na sua interpretação, as grandes plataformas digitais descobriram que o comportamento humano poderia ser convertido em matéria-prima econômica. Cada clique, cada curtida, cada compartilhamento, cada segundo de permanência diante de uma tela transforma-se em dado. Esses dados alimentam sistemas preditivos capazes de antecipar comportamentos futuros e, progressivamente, influenciá-los.

Na formulação mais contundente de Zuboff, o objetivo final desses sistemas não é apenas prever comportamentos. É modificá-los. O valor econômico dos dados cresce à medida que aumenta a capacidade de influenciar decisões futuras. A transição é sutil, mas decisiva: sai de cena a simples observação do comportamento humano e entra em cena aquilo que a autora descreve como uma nova forma de poder instrumental, capaz de moldar ações individuais em escala inédita na história.

A mudança é profunda. Empresas deixaram de competir apenas por consumidores, passando a competir por atenção. E quem disputa atenção precisa compreender aquilo que desperta interesse, indignação, medo, curiosidade ou prazer. Os algoritmos modernos são resultado dessa lógica.

Costuma-se dizer que eles mostram ao usuário aquilo que ele deseja ver. A afirmação é apenas parcialmente verdadeira. Na realidade, eles mostram aquilo que maximiza a probabilidade de permanência, engajamento e retorno econômico. São objetivos diferentes.

Essa distinção ajuda a compreender por que conteúdos emocionalmente carregados tendem a circular mais do que análises equilibradas, por que a indignação costuma gerar mais alcance do que a ponderação e por que a lógica das plataformas frequentemente favorece simplificações em detrimento da complexidade.

Não porque exista uma conspiração, mas porque existe um modelo de negócios.

Poder de definir relevância

O problema é que sistemas construídos para otimizar atenção acabaram adquirindo influência sobre algo muito maior do que a atenção. Adquiriram influência sobre a percepção da realidade.

Marshall McLuhan tornou-se célebre ao afirmar que “o meio é a mensagem”. Décadas antes do surgimento das redes sociais, o teórico canadense já argumentava que os meios de comunicação não apenas transmitem conteúdos; eles alteram a forma como sociedades pensam, percebem e organizam o mundo.

A ascensão dos algoritmos leva essa tese a uma nova dimensão. Pela primeira vez na história, não apenas os meios são personalizados, a própria realidade informacional torna-se personalizada.

O Reuters Institute for the Study of Journalism, da Universidade de Oxford, vem registrando há anos uma mudança estrutural na forma como as pessoas encontram notícias. Uma parcela crescente do público não chega à informação por busca ativa nem por acesso direto às fontes. Chega por intermédio de feeds algorítmicos. A porta de entrada para o conhecimento deixou de ser a decisão consciente do indivíduo e passou a ser a seleção automatizada realizada pelas plataformas.

Os relatórios anuais do Reuters Institute mostram que, em diversos mercados analisados, redes sociais, mecanismos de busca e agregadores digitais já rivalizam ou superam o acesso direto aos veículos jornalísticos como principal porta de entrada para o consumo de notícias. A mudança parece operacional, mas não é. Ela desloca o poder de mediação dos produtores de conteúdo para os sistemas que controlam sua distribuição. Não é uma diferença sutil.

Historicamente, o debate público dependia da existência de referências compartilhadas. Pessoas divergiam sobre interpretações, mas partiam de um conjunto relativamente comum de fatos, notícias e acontecimentos.

Hoje essa base comum encontra-se cada vez mais fragmentada. Cada indivíduo recebe uma combinação distinta de conteúdos. Cada usuário habita uma arquitetura informacional diferente. Cada cidadão passa a enxergar uma versão parcialmente personalizada da realidade.

O fenômeno não se restringe ao jornalismo. A Netflix reconhece que seus sistemas de recomendação são responsáveis pela maior parte da descoberta de conteúdo dentro da plataforma, enquanto estimativas amplamente citadas pela indústria apontam que cerca de 80% do conteúdo assistido pelos usuários chega por meio dessas recomendações. No YouTube, estudos independentes frequentemente apontam que aproximadamente 70% das visualizações decorrem do sistema automatizado de sugestões.

O que está em jogo, portanto, não é apenas o conteúdo disponibilizado ao público, mas os critérios que determinam sua visibilidade.

Fragmentação da realidade

Foi para descrever esse fenômeno que Eli Pariser popularizou o conceito de “bolha dos filtros”. Ao analisar os efeitos da personalização algorítmica, Pariser observou que os sistemas tendem a reforçar preferências anteriores. O usuário recebe mais do que já consome, mais do que já aprecia e mais do que já acredita.

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Eli Pariser: usuário recebe mais do que já consome, mais do que já aprecia e do que já acredita | Foto: Reprodução

O alerta de Pariser vai além da simples personalização. O risco não está apenas em receber informações compatíveis com as próprias crenças. Está em deixar de receber informações relevantes que poderiam contestá-las. A bolha dos filtros não opera necessariamente pela presença de conteúdos falsos, mas pela ausência silenciosa de conteúdos divergentes. Trata-se de um mecanismo que não impede o acesso ao contraditório, mas reduz progressivamente as chances de encontrá-lo.

A consequência não é apenas tecnológica. É epistemológica.

Quanto menos contato temos com perspectivas divergentes, menos oportunidades existem para revisão de crenças, correção de erros e ampliação de repertório intelectual.

O Pew Research Center identificou repetidamente mecanismos de reforço de preferências políticas e ideológicas associados ao consumo mediado por plataformas digitais. O fenômeno não explica sozinho a polarização contemporânea, mas certamente contribui para ela.

A preocupação não é meramente teórica. Em um estudo publicado na revista      “Science”, pesquisadores do Massachusetts Institute of Technology (MIT) concluíram que informações falsas circulam de forma significativamente mais rápida, mais profunda e mais ampla nas redes sociais do que informações verdadeiras. Segundo a pesquisa, notícias falsas têm até 70% mais probabilidade de serem compartilhadas e alcançam públicos maiores em menos tempo. A lógica da atenção recompensa velocidade e impacto emocional; nem sempre precisão.

Transformação cognitiva

Nicholas Carr, em “The Shallows”, chamou atenção para outro aspecto desse processo. Segundo ele, a internet não modifica apenas o que lemos. Modifica a maneira como lemos. A lógica da interrupção permanente, da fragmentação e da recompensa instantânea altera hábitos cognitivos, reduzindo a disposição para leituras longas, concentração profunda e reflexão sustentada.

A preocupação de Carr não se limita ao conteúdo consumido. Seu argumento central é que a arquitetura digital modifica a própria forma de pensar. Ao privilegiar velocidade, fragmentação e estímulos constantes, o ambiente online favorece processos cognitivos mais superficiais e dificulta a concentração prolongada necessária para leituras densas, reflexão crítica e construção de conhecimento complexo. A questão deixa de ser apenas o que lemos e passa a ser como aprendemos a pensar.

A discussão, portanto, ultrapassa largamente o campo da tecnologia.

Estamos diante de uma transformação das condições sob as quais o conhecimento é produzido, distribuído e assimilado.

Byung-Chul Han, filósofo sul-coreano radicado na Alemanha | Foto: Reprodução

Byung-Chul Han acrescenta uma camada adicional a esse diagnóstico. Para o filósofo sul-coreano, as sociedades contemporâneas abandonaram progressivamente os mecanismos clássicos de coerção e passaram a operar por sedução, desempenho e autoexploração. O controle torna-se mais eficiente justamente porque deixa de ser percebido como controle.

A observação ajuda a compreender por que a influência algorítmica raramente desperta resistência significativa. Não há imposição, nem censura explícita. Tampouco há proibição. Ao contrário, existe conveniência, conforto e personalização. O indivíduo sente-se livre precisamente porque os mecanismos de influência operam através da satisfação de suas preferências.

Talvez resida aí o grande paradoxo da era digital. A internet nasceu prometendo ampliar a autonomia individual. Em muitos aspectos, cumpriu essa promessa, pois nunca foi tão fácil acessar conhecimento, produzir conteúdo ou publicar ideias.

Mas a mesma infraestrutura que ampliou possibilidades também concentrou um poder sem precedentes nas mãos daqueles que controlam os mecanismos de distribuição.

O poder deixou de residir apenas na produção da informação e passou a residir na definição daquilo que será visto. E aquilo que não é visto, na prática, deixa de participar da construção da realidade social.

Essa talvez seja a questão central do nosso tempo. Não saber se os algoritmos pensam por nós, mas compreender quem controla os sistemas que determinam o que merece nossa atenção.

Porque, no século XXI, a disputa fundamental já não ocorre pelo controle da informação e sim pelo controle da relevância. Quem controla a relevância exerce influência crescente sobre a forma como sociedades inteiras compreendem o mundo.

Durante séculos, a principal preocupação das sociedades foi identificar quem controlava a informação. Talvez a pergunta decisiva do século XXI seja outra, isto é, quem controla os mecanismos que determinam o que será considerado relevante. Porque aquilo que se torna relevante molda o debate público, influencia prioridades coletivas, orienta decisões políticas, econômicas e culturais e ajuda a definir a própria percepção da realidade. A disputa contemporânea não ocorre apenas pelo controle do que é dito, mas pelo controle do que merece ser ouvido.

Donni Araújo, compositor e jornalista, é colaborador do Jornal Opção.