Goiânia fortalece atendimento em saúde mental, mas ainda luta contra o abandono das estruturas
13 julho 2026 às 13h58

COMPARTILHAR
Com mais de 12 unidades especializadas da Rede de Atenção Psicossocial (Raps), Goiânia alcançou média de 16,6 mil atendimentos mensais em saúde mental em 2026. Apesar da ampliação da assistência, as condições físicas dos imóveis ainda representam um dos principais desafios enfrentados pela rede municipal.
Os avanços contam com a oferta de musicoterapeutas, artistas cênicos, educadores físicos e arteterapeutas, além dos tradicionais médicos, psicólogos e enfermeiros. Até o atendimento ambulatorial e de urgência, a rede oferece Serviços Residenciais Terapêuticos para pacientes sem vínculos familiares, que são apontados pela pasta como destaque e conquista do setor.
Segundo o assessor técnico da Secretaria Municipal de Saúde (SMS), Frank Cardoso, o resultado está relacionado ao aprimoramento dos fluxos de atendimento e à adoção de um modelo assistencial baseado nos princípios da Lei Antimanicomial, instituída em 2001.
A proposta, conforme explica, é oferecer tratamento sem afastar o paciente permanentemente do convívio familiar e comunitário. Dentro desse modelo, o sucesso da assistência ocorre quando a pessoa recupera a autonomia e consegue retomar suas atividades cotidianas. “Queremos oferecer um atendimento integral que possibilite o retorno dessa população às suas atividades, para que essas pessoas não permaneçam sempre dependentes do serviço de saúde ou da assistência social”, afirmou em entrevista ao Jornal Opção.
Nosso objetivo é que elas consigam trabalhar, se sustentar e ter uma vida plena”, acrescentou.
Frank explicou ainda que a rede municipal atua em diferentes níveis de atenção, desde as unidades básicas de saúde, consideradas portas de entrada do sistema, até os serviços de urgência e emergência. Paralelamente, a SMS busca ampliar as ações de conscientização para identificar transtornos e situações de sofrimento psíquico precocemente, permitindo que o atendimento seja iniciado antes do agravamento dos casos.
Estrutura física limita funcionamento da rede
Apesar dos avanços assistenciais, Frank reconhece que as condições físicas das unidades continuam entre os principais problemas da rede de saúde mental. Parte dos imóveis é antiga, alugada ou não foi originalmente projetada para receber serviços especializados.
A expectativa da administração municipal é que os recursos do Programa de Autonomia Financeira das Unidades de Saúde (Pafus) sejam utilizados na realização de pequenos reparos, como substituição de lâmpadas, portas e outros componentes das estruturas.
Essas intervenções, entretanto, não são suficientes para resolver problemas mais profundos. Segundo representantes da pasta, o Paço Municipal deverá priorizar a construção e a entrega de novas unidades, incluindo os equipamentos de saúde mental e os serviços convencionais da rede.
A intenção é substituir gradualmente imóveis antigos ou alugados por prédios próprios, construídos conforme os padrões estabelecidos pelo Ministério da Saúde.
Para Frank, a precariedade estrutural é resultado de um processo acumulado durante diferentes administrações e herdado pela atual gestão. “O sucateamento da saúde de Goiânia não aconteceu de um ano para o outro. Infelizmente, a saúde sofreu um abandono por vários e vários anos. Agora, a reestruturação, para realmente resolver o problema, precisa ser ainda maior”, declarou.
Wassily Chuc realiza 558 atendimentos mensais
Um dos exemplos das limitações estruturais é o Pronto-Socorro Psiquiátrico Professor Wassily Chuc, implantado em 1995, durante o processo de Reforma Psiquiátrica. O serviço surgiu no mesmo ano em que o antigo Hospital Psiquiátrico Professor Adauto Botelho foi desativado.
De acordo com a enfermeira e coordenadora da unidade, Renata Landim, o pronto-socorro enfrentou dificuldades ao longo de sua trajetória, mas conseguiu construir uma identidade própria e deixou de funcionar apenas como uma extensão do modelo anteriormente representado pelo Adauto Botelho.
Atualmente, o Wassily Chuc conta com 16 leitos de observação e realiza, em média, 558 atendimentos por mês. A unidade funciona em regime de porta aberta, 24 horas por dia, e recebe pacientes de todas as faixas etárias. O serviço é a principal referência pública municipal para o atendimento de urgências e emergências relacionadas à saúde mental em Goiânia.
Segundo Renata, parte dessa transformação decorreu de mudanças internas na forma de acolher e acompanhar os pacientes. Uma das prioridades passou a ser o fortalecimento do atendimento psicossocial, evitando, sempre que possível, internações psiquiátricas prolongadas.
O objetivo é manter o paciente afastado da família e da comunidade pelo menor período possível, garantindo a continuidade do tratamento por outros serviços da rede após a estabilização da crise.
Regionalização reduziu permanência prolongada
Outra mudança destacada pela coordenadora foi a restrição dos atendimentos aos moradores de Goiânia, adotada em meados de 2019. Renata classifica a decisão como “difícil, mas necessária” para preservar a capacidade de atendimento da unidade.
Anteriormente, o Wassily Chuc recebia pacientes encaminhados por municípios do interior. Em alguns casos, essas pessoas permaneciam por longos períodos no serviço devido à ausência de familiares ou à dificuldade de conseguir vagas em unidades de internação conveniadas ao Sistema Único de Saúde (SUS).
“Quando o paciente do interior vinha para cá, ele ficava no pronto-socorro psiquiátrico aguardando um leito de internação em outras unidades conveniadas pelo SUS. Quando surgia a vaga, muitas vezes essas unidades não recebiam o paciente porque ele estava sem familiares, fazendo com que permanecesse por mais tempo no serviço”, explicou.
O cenário começou a mudar com a regionalização da assistência em saúde mental. Municípios como Uruaçu e Itumbiara passaram a contar com estruturas próprias, permitindo que os pacientes fossem atendidos mais perto de suas famílias e de suas comunidades.
Além de facilitar a participação dos familiares no tratamento, a regionalização contribuiu para reduzir a ocupação prolongada dos leitos do Wassily Chuc e ampliar a disponibilidade do serviço para os moradores da Capital.
Abandono familiar ainda dificulta tratamento
Mesmo com as mudanças no modelo de atendimento, Renata afirma que a marginalização das pessoas com transtornos mentais continua sendo um dos principais obstáculos enfrentados pela equipe.
Segundo a coordenadora, algumas famílias resistem em receber os pacientes novamente após a estabilização do quadro, tentam obter internações por meio de decisões judiciais ou abandonam os parentes na unidade.
A situação compromete a continuidade do cuidado e pode prolongar desnecessariamente a permanência de pessoas que já não precisam estar em um serviço de urgência. Para a gestora, o tratamento em saúde mental exige participação familiar e acompanhamento por diferentes pontos da rede, não podendo ficar restrito ao pronto-socorro.
Prefeitura avalia transferência para nova estrutura
Além dos desafios sociais, Renata afirma que o Wassily Chuc precisa ser transferido devido à deterioração do imóvel onde funciona atualmente. Para ela, as características físicas do prédio também contribuem para perpetuar o estigma negativo associado à unidade e ao atendimento psiquiátrico.
A Prefeitura de Goiânia analisa a possibilidade de construir uma nova sede para o pronto-socorro em uma estrutura anexa a uma Unidade de Pronto Atendimento (UPA). A expectativa, conforme divulgado anteriormente, é que a unidade terá um custo estimado em R$ 5,2 milhões.
A integração permitiria que o serviço psiquiátrico compartilhasse equipamentos e estruturas de apoio, incluindo recursos laboratoriais que não estão disponíveis no atual imóvel. A proposta também busca aproximar o atendimento em saúde mental dos demais serviços de urgência, reduzindo a separação histórica entre a assistência psiquiátrica e os outros cuidados oferecidos pela rede pública.
Leia também: Nova sede do Wassily Chuc custará R$ 5,2 milhões e rede será ampliada com cinco CAPS



