Doença renal crônica avança de forma silenciosa e já afeta cerca de 10% dos brasileiros
08 julho 2026 às 13h07

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Os rins são órgãos essenciais para o funcionamento do organismo. Responsáveis por filtrar o sangue, eles purificam entre 150 e 170 litros diariamente, eliminando toxinas por meio da urina. Eles também desempenham funções fundamentais, como o controle da pressão arterial, o equilíbrio de minerais e líquidos do corpo e a produção de hormônios importantes para a saúde.
Quando deixam de funcionar adequadamente, todo o organismo é afetado. A perda da função renal pode provocar hipertensão arterial, inchaço (edema), anemia, acúmulo de toxinas no sangue, fragilidade óssea e alterações nos níveis de minerais. Entre os problemas que mais preocupam os especialistas está a doença renal crônica, considerada uma das principais ameaças à saúde pública.
O médico nefrologista e intensivista Hans Stauber Kronit explica que essa perda da função renal acontece de forma lenta e, justamente por isso, costuma passar despercebida nos primeiros estágios. “A doença renal crônica tem uma evolução progressiva e irreversível. Nas fases iniciais, geralmente o paciente não apresenta sintomas. Quando eles aparecem, a doença normalmente já está em estágio mais avançado”, explica.
É justamente esse caráter silencioso que faz da doença um desafio. Enquanto o paciente não sente nada, os rins podem estar perdendo a capacidade de funcionar normalmente. Em muitos casos, as primeiras alterações aparecem apenas nos exames laboratoriais, com sinais como anemia, aumento dos níveis de fósforo e potássio e alterações no cálcio.
Nas fases mais avançadas, os sintomas começam a comprometer a qualidade de vida. Fraqueza intensa, perda de apetite, emagrecimento, náuseas, vômitos, inchaço e dificuldade para respirar podem indicar que o organismo já não consegue eliminar adequadamente as toxinas acumuladas no sangue.
Quando a doença chega ao estágio terminal, o paciente passa a depender de uma terapia renal substitutiva. O tratamento pode ser feito por meio da hemodiálise ou da diálise peritoneal e, em alguns casos, o transplante renal também é uma alternativa.
Segundo a Sociedade Brasileira de Nefrologia (SBN), cerca de 10% dos brasileiros apresentam algum grau de doença renal crônica. O cenário também preocupa em escala global. Em um alerta epidemiológico divulgado no ano passado, a Organização Mundial da Saúde (OMS) destacou que a doença já ocupa a 9ª posição entre as principais causas de morte no mundo. Estima-se que aproximadamente 14% da população mundial conviva com algum nível de perda da função renal, o equivalente a uma em cada sete pessoas.

Hipertensão e diabetes lideram os casos
Embora existam diferentes causas para a doença renal crônica, a hipertensão arterial e o diabetes são responsáveis pela maior parte dos diagnósticos. Segundo Hans, controlar essas doenças é uma das formas mais eficazes de preservar a saúde dos rins. “Temos uma estimativa de que um em cada quatro hipertensos e um em cada dois diabéticos podem precisar de terapia renal substitutiva ao longo da vida. Por isso, controlar essas doenças é fundamental para preservar a função dos rins”, esclarece.
O especialista alerta para um fato bastante curioso. Um hábito “comum” do nosso cotidiano também pode acelerar a perda da função renal. O uso frequente de anti-inflamatórios sem orientação médica. “O anti-inflamatório é vendido livremente nas farmácias e muitas pessoas recorrem a ele para qualquer dor. O uso repetido, principalmente por quem já tem algum fator de risco, pode causar prejuízos aos rins ao longo do tempo”, alerta.
A alimentação também pesa nessa conta. O especialista lembra que alimentos industrializados e ultraprocessados costumam ter grandes quantidades de sódio, utilizado pela indústria como conservante. “Hoje a população consome muito mais sódio do que consumia há algumas décadas. Esse excesso favorece a hipertensão, que é uma das principais causas da doença renal crônica”, lembra.
Exames simples ajudam no diagnóstico precoce
Como a doença costuma evoluir sem apresentar sintomas, fazer exames de rotina é a principal forma de descobrir alterações antes que elas se agravem. Para pessoas com hipertensão, diabetes, histórico familiar de doença renal ou outras doenças crônicas, a recomendação é realizar pelo menos uma avaliação por ano.
Os exames são simples e acessíveis. Ureia, creatinina, dosagem de sódio e potássio, além do exame de urina, já permitem identificar alterações que merecem investigação. “Quando aparecer qualquer alteração, mesmo que pequena, o ideal é procurar um médico nefrologista.”
A boa notícia é que muitas situações podem ser prevenidas ou ter a evolução retardada com mudanças no estilo de vida. Manter uma boa ingestão de água, reduzir o consumo de sal e de alimentos industrializados, praticar atividade física regularmente, controlar a pressão arterial e o diabetes e evitar a automedicação, principalmente com anti-inflamatórios, estão entre as principais recomendações.
Hans reforça que buscar atendimento logo nos primeiros sinais de alteração faz toda a diferença. “Quanto mais cedo a doença for identificada, maiores são as chances de retardar sua progressão e preservar a qualidade de vida do paciente”, conclui.
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