Pulmão e rim conversam o tempo todo durante uma internação na Unidade de Terapia Intensiva (UTI). Contudo, quando essa comunicação vira um ciclo de inflamação e falência múltipla, o preço cobrado é altíssimo. Um estudo mostra que 49,9% dos pacientes com a Síndrome do Desconforto Respiratório Agudo (SDRA) desenvolvem Injúria Renal Aguda (IRA), uma perda abrupta da capacidade de filtrar resíduos e líquidos do sangue, o que pode levar à falência renal.

Além disso, a complicação surge rapidamente: em média, dois dias após o diagnóstico da SDRA. Conduzido por pesquisadores da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (FMUSP) e do Hospital das Clínicas da FMUSP (HCFMUSP), a pesquisa revela que em cinco dos 28 estudos analisados, a IRA apareceu como fator independente associado ao óbito.

Para chegar a esses números, os pesquisadores revisaram 2.943 estudos internacionais publicados até janeiro de 2024. Após a triagem, 28 trabalhos entraram na síntese final. O estudo também integra o Projeto Temático Pós-COVID-19 da FMUSP, que investiga as consequências de longo prazo da doença em pacientes atendidos no Hospital das Clínicas durante a crise sanitária. Nesse recorte específico da COVID-19, a taxa de falência renal atingiu 52,6%, tornando a complicação uma das mais comuns e letais entre os efeitos extrapulmonares.

‘Conversa cruzada’ entre pulmão e rim acelera risco de morte

O estudo evidencia que pulmão e rim não falham de maneira isolada. Esse mecanismo, conhecido cientificamente como “conversa cruzada” (do inglês, crosstalk), cria um ciclo que pode elevar em até 11 vezes o risco de o paciente desenvolver lesão renal enquanto está sob ventilação mecânica.

Em entrevista ao Jornal Opção, o nefrologista do Einstein em Goiânia, Ricardo Mothe, confirma que essa interligação é rotineira dentro das UTIs. “É frequente. Os pacientes críticos, mesmo que não necessariamente com insuficiência respiratória, mas, sabidamente, esses pacientes críticos com insuficiência respiratória grave desenvolvem isso sem nenhuma dúvida”, afirma.

Por outro lado, o especialista faz uma distinção. O estudo da USP focou em pacientes previamente saudáveis que evoluíram com SDRA. Dessa forma, Mothe explica. “O que nós temos é que o paciente algumas vezes já são crônicos e desenvolve uma doença aguda sobreposta. Então, esse paciente, que já tinha uma doença renal de base, tem um alto risco de cronificar e não recuperar. Mas o paciente do estudo que foi analisado não foi esse. O paciente do estudo era aquele: ‘Eu não tenho nada. Fiquei grave do ponto de vista respiratório’. Inclusive, a maior incidência que eles analisaram foram os do COVID”.

Os três mecanismos que ligam a falência pulmonar à renal

Mas afinal, por que um problema respiratório grave afeta os rins? O pneumologista do Einstein em Goiânia, Matheus Rabahi, detalha os três pilares dessa conexão. “Esse problema respiratório prejudica a circulação do sangue e impacta na chegada dele aos rins. E quando há essa diminuição, faz com que os rins sofram. Esse é um dos principais fatores”, começa.

Em seguida, ele aponta o segundo mecanismo. “O outro é a inflamação que se espalha pelo corpo inteiro. Então, quando os pulmões são afetados, eles liberam uma substância inflamatória no sangue e ela corre como se fosse um mensageiro de perigo. E elas viajam pelo corpo e chegam até os rins e isso serve como uma faísca para incendiar também a região renal.”

Por fim, o terceiro fator é a falta de oxigênio. “É igual quando falta oxigênio na cabeça e a gente desmaia, quando falta oxigênio no rim, o rim para de funcionar também”, resume Rabahi.

Pneumologista do Einstein em Goiânia, Matheus Rabahi | Foto: Einstein em Goiânia

O nefrologista Ricardo Mothe complementa essa explicação ao mostrar que o problema é sistêmico, e não uma ligação direta entre os órgãos. “O que acontece é que o paciente, sobre uma doença grave qualquer, inclusive essa do pulmão, ele entra num quadro inflamatório muito grande. E aí sim, o quadro de inflamação aguda interfere sistemicamente no organismo. Então a pressão cai, vários outros sistemas não vão estar funcionando de forma adequada. Sobrepõem-se medicações que às vezes são agressivas ao rim.” 

Consequentemente, o uso da ventilação mecânica altera as pressões internas e o fluxo sanguíneo renal. “Com um, dois, até três dias a gente já começa a ver uma disfunção. O paciente às vezes para de urinar, o que piora o pulmão, inclusive”, alerta Mothe.

Monitoramento na UTI e recuperação dos pacientes

Diante disso, a vigilância constante é essencial. O nefrologista explica que os marcadores laboratoriais são monitorados diariamente, ou até mais de uma vez ao dia.

“Creatinina, algumas moléculas, cistatina, são fundamentais para o diagnóstico. […] Às vezes, mesmo antes da gente perceber um aumento de creatinina, a gente já percebe que algumas funções que o rim estaria fazendo não estão muito bem desempenhadas. Então, só de diminuir o volume de urina a cada hora que a gente monitoriza, a gente já sabe que esse paciente já está em sofrimento”, detalha Mothe.

A boa notícia, segundo os especialistas, é que a maioria dos pacientes que sobrevivem à fase aguda recupera a função renal. “Se for só doença aguda, geralmente o paciente recupera. Sai da diálise e não fica dependente. Mas nem sempre. É muito frequente, mas falar que é sempre algo que a gente não consegue afirmar”, pondera Mothe.

Nefrologista do Einstein em Goiânia, Ricardo Mothe | Foto: Einstein em Goiânia

No entanto, a mortalidade entre os que precisam de diálise é elevada. “A maioria desses pacientes que fizeram um quadro grave pelo Covid e que dializaram, a maioria faleceu”, relembra o nefrologista, ao citar o período mais crítico da pandemia.

“A gente passou pelo Covid e a gente viu isso assim, UTIs com 80% de mortalidade, pacientes que chegaram a taxa de ter óbitos de 100% em quem desenvolveu doença renal. São casuísticas muito tristes que a gente viveu.”

Vacina como escudo: proteger o pulmão é salvar o rim

Os dois médicos convergem para a mesma mensagem: a melhor forma de evitar a lesão renal causada pela SDRA é não desenvolver a síndrome respiratória grave em primeiro lugar. E o caminho mais eficaz, reforça o pneumologista Matheus Rabahi, é a vacinação. 

“Quando a gente fala da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), é nada mais do que sinais e sintomas agudos de uma falta de ar muito importante que pode ser causada pela Covid, pode ser causada pelo vírus da gripe, ou outro. E por isso a importância da vacina, a importância das pessoas estarem vacinadas diminui a chance de alguém evoluir com essa síndrome”, afirma.

Rabahi não titubeia ao conectar a imunização diretamente à proteção dos rins. “Se prevenir é justamente fazer uma boa vacinação, cuidando da saúde de maneira geral.” Ele reforça o ponto em outro momento da entrevista: “Eu bato muito nessa tecla da vacina, porque a única prevenção que a gente consegue ter real da SRAG é a vacinação.”

O pneumologista propõe um novo olhar sobre a campanha de vacinação: “A vacina pode também, de outras maneiras, salvar o rim da pessoa.”

O pneumologista Matheus Rabahi reforça ainda que os grupos de risco merecem atenção redobrada. “De maneira geral, os idosos tendem a sofrer mais com a Síndrome Respiratória Aguda Grave. E eles tendem a ter mais comprometimento renal também. Então, é um duplo risco. Por isso a importância de ter a vacinação em dia dos pacientes idosos, por esse motivo que a vacina da influenza tem uma prioridade máxima nos pacientes dessa faixa etária e em quem tem doença pulmonar crônica”, explica Rabahi.

Ele também esclarece um ponto comum de confusão: toda complicação pulmonar pode afetar os rins?: “Não de maneira geral. Na verdade, se a pessoa tiver asma, se ela tiver enfisema pulmonar, ela não tem necessariamente a saúde do rim afetada só por conta dessa condição respiratória. O que pode acontecer é a pessoa que tem asma, que tem enfisema, que tem pneumonia de repetição, ter mais chance de desenvolver a síndrome. E, se ela tem mais chance de ter a síndrome, ela tem mais chance de ter alteração no rim.”

Além da vacinação, os doutores deixam recomendações práticas para a população. O pneumologista sugere. “É importante estar com exercícios físicos em dia, alimentação saudável em dia, sono muito bem adequado e cuidando da saúde mental também.”

Já o nefrologista Ricardo Mothe faz um alerta para pacientes com comorbidades. “Se for um hipertenso, um diabético, um idoso, um paciente cardiopata, ele tem que ser acompanhado do ponto de vista renal, independente de ter passado por isso ou não. Porque ele já tem os fatores de risco que levam à doença renal crônica.”

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