As altas temperaturas e a baixa umidade podem provocar alterações no organismo que favorecem problemas na circulação sanguínea e aumentam o risco de Acidente Vascular Cerebral (AVC), especialmente entre idosos, pessoas com doenças cardiovasculares e trabalhadores expostos ao sol. O alerta é do neurocirurgião endovascular e neurorradiologista intervencionista do Hospital Neurológico de Goiânia, Dr. Marcos Spadoni.

Em entrevista ao Jornal Opção nesta sexta-feira, 21, o especialista explicou que um dos principais fatores de risco durante períodos de calor intenso é a desidratação, que interfere diretamente na circulação do sangue.

“As altas temperaturas geram alterações no corpo que podem precipitar quadros de AVC. Em altas temperaturas, as pessoas estão mais expostas à desidratação. A desidratação faz com que o sangue fique mais viscoso, mais hemoconcentrado, mais grosso. Com isso, aumenta bastante o risco da formação de coágulos. Outro ponto que a desidratação causa é a hipovolemia, que é a falta de líquido. Com isso, os vasos no corpo acabam dilatando mais”, disse.

Neurocirurgião endovascular e neurorradiologista intervencionista do Hospital Neurológico de Goiânia, Dr. Marcos Spadoni | Foto: Acervo Pessoal

“A pressão cai e o sangue tem mais dificuldade de circular, tem mais dificuldade de chegar ao cérebro. Com isso, causa a hipoperfusão cerebral, falta de fluxo no cérebro. É uma combinação da desidratação, que gera um volume circulante de sangue menor, da vasodilatação, que é quando os vasos ficam mais dilatados, e, com isso, uma pressão arterial mais baixa. Isso é o principal”, acrescentou.

O especialista chamou atenção principalmente para pessoas que já apresentam fatores de risco. “O que tem que cuidar também são os pacientes que já têm algum problema cardiológico ou que já tiveram AVC, especialmente os idosos, que estão mais propensos à desidratação. Isso é um ponto fundamental para a gente prestar atenção”, completou.

Prevenção deve começar antes dos sintomas

Spadoni explicou que o AVC geralmente não apresenta sinais prévios e que, por isso, a prevenção ganha ainda mais importância durante períodos de calor intenso.

“O AVC não dá sinais até que ele aconteça. Nesse período de extremo calor, temos risco aumentado de doença cerebrovascular por esses fatores que nós conversamos. O principal é antecipar e trabalhar com a prevenção”, afirmou.

Segundo o médico, a ingestão de líquidos deve ocorrer regularmente, e não apenas quando surgir a sensação de sede.

“A hidratação não pode ser só quando temos sede. Tem que ser programada, tomar bastante líquido de hora em hora, a cada duas horas, para se manter sempre hidratado. Principalmente em pacientes idosos e acamados, esse cuidado tem que ser redobrado”, acrescentou.

Idosos e trabalhadores expostos ao sol exigem atenção

Entre os grupos mais vulneráveis aos efeitos do calor intenso estão os idosos. Além da maior propensão à desidratação, o uso de medicamentos pode exigir acompanhamento mais próximo.

“De calor intenso são principalmente os idosos, que às vezes têm mais dificuldade de acesso à hidratação e de cuidados médicos. São pacientes que podem confundir o uso das medicações, tomar o remédio da pressão que, associado com a pressão mais baixa do calor, pode gerar uma hipotensão mais severa”, explicou.

O médico também chamou atenção para trabalhadores que permanecem longos períodos expostos ao sol.

“Também um público que é um pouco mais esquecido, que são os trabalhadores que trabalham na rua, pessoal da limpeza, que trabalha com obras em rua, porque eles estão expostos no horário comercial ao pico do calor, ao pico do sol”, afirmou.

“É fundamental que essas pessoas tenham cuidado com a hidratação, que façam intervalos programados para a recuperação e que observem sintomas e sinais de AVC, como alteração da fala, falta de força em braço ou perna, vertigem súbita, tontura muito forte que não melhora, visão dupla e até perda da visão”, completou.

Frio registra mais casos, mas extremos de temperatura preocupam

Sobre a relação entre temperatura e AVC, Spadoni explicou que estudos apontam maior frequência de casos durante períodos de frio extremo, mas ressaltou que temperaturas muito elevadas também representam risco.

“Os estudos mostram que o AVC é mais frequente em temperaturas mais frias. No extremo frio, ele é mais frequente que na temperatura normal e do que no calor”, disse.

“Mas os dois extremos propiciam o aparecimento de maior quantidade de pacientes com AVC, justamente pela hemoconcentração, que é quando o paciente desidrata, pela vasodilatação, que causa a pressão mais baixa. Então, o paciente que já tem um fator de risco leve para um AVC, aí tu associa um risco a mais e acaba gerando o AVC nesses extremos de temperatura”, acrescentou.

Calor também pode provocar desmaios e convulsões

O especialista explicou ainda que a perda de consciência durante períodos de calor intenso pode ter diferentes causas.

“A perda de consciência no calor pode ter várias causas. Desde a pressão baixa, que é aquela síncope da pessoa que pode ter o desmaio porque o sangue chegou temporariamente em menor quantidade no cérebro, então o cérebro dá uma desligada, mas em seguida volta a circulação e ele recupera sem complicações”, apontou.

“Pode ser o sinal de um AVC muito grande também. Além de hipertermia em casos extremos de temperaturas extremas e pessoas desprovidas de cuidados de terceiros, podem ter uma temperatura corporal muito alta e isso sim gerar uma convulsão. Igual criança que tem as convulsões de febre, pode acontecer também no adulto”, completou.

Além da hidratação, Spadoni recomenda atenção especial à pressão arterial e às condições cardíacas durante os períodos mais quentes.

“Além da hidratação vigorosa, é o acompanhamento mais próximo da pressão arterial em pacientes hipertensos, pacientes que têm alteração cardiológica como fibrilações e arritmias. Eles têm que ter um cuidado maior porque nessa época tendem a ter um risco um pouco maior de AVC. Além dos idosos e dos trabalhadores que estão expostos ao calor extremo”, disse.

Como identificar os sinais de AVC

O médico reforçou que reconhecer rapidamente os sintomas pode ser determinante para o tratamento. Uma das formas utilizadas para facilitar a identificação dos sinais é a sigla “SAMU”.

“O calor pode gerar sintomas neurológicos e não neurológicos também. Do ponto de vista neurológico, os sinais clássicos de AVC são bastante variáveis, mas, a fim de educação populacional, usamos a sigla do ‘SAMU’”, explicou.

“O ‘S’ é de Sorriso, você pede para a pessoa sorrir e avalia se ela está com a boca torta, se tem desvio do lábio ou se está com a pálpebra caída. O ‘A’ é de Abraço, você pede para a pessoa levantar os braços como se fosse te dar um abraço e avalia a força. Se tiver dificuldade de movimentar um braço ou uma perna, isso também é sinal de AVC. O ‘M’ é de Música, você pede para o paciente cantar a música que gosta ou apenas conversar. Qualquer sinal de fala arrastada, fala trancada, fala como se estivesse bêbado ou mesmo não conseguir falar é sinal de AVC. E o ‘U’ é de Urgência”, descreveu.

“O AVC é um quadro urgente, o paciente precisa ser levado o mais rápido possível para o hospital mais preparado para receber o tratamento adequado. Não adianta ser levado para qualquer hospital porque nem todos possuem estrutura necessária. Em Goiânia temos hospitais públicos e privados com equipe pronta para receber e fornecer o melhor tratamento possível”, acrescentou.

Ao final, Spadoni reforçou a necessidade de cuidados durante períodos prolongados de seca e temperaturas elevadas.

“Os extremos de temperatura podem causar AVC por motivos diferentes. Agora, com o El Niño mais forte que está chegando, teremos um período prolongado de seca e calor. É preciso reforçar os cuidados de hidratação, cuidado dos idosos em casa e fazer o check-up.”

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