Caso Lulinha: PF recupera mensagens apagadas e investiga negócios milionários; veja o que foi encontrado
21 agosto 2026 às 19h11

COMPARTILHAR
A Polícia Federal (PF) encontrou mensagens, documentos e movimentações financeiras que ampliaram as suspeitas sobre a atuação empresarial de Fábio Luís Lula da Silva, o Lulinha, filho mais velho do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT). Segundo relatório da corporação, ele teria mantido uma relação de interesses econômicos com a lobista Roberta Moreira Luchsinger e o empresário Fernando Bittar para intermediar negócios privados junto ao governo federal.
As informações fazem parte de um inquérito sigiloso ao qual a revista Veja teve acesso. A investigação ganhou força após o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF), André Mendonça, autorizar a quebra do sigilo telemático de Roberta. A partir dos dados armazenados em nuvem, os investigadores encontraram conversas que, na avaliação da PF, indicam uma atuação coordenada entre os três.
As mensagens analisadas pelos policiais mostram que Roberta, Lulinha e Bittar mantinham contato frequente para discutir negócios e articulações políticas. O trio utilizava um grupo de WhatsApp chamado “Musaranhos”, no qual tratava de diferentes interesses empresariais.
Segundo a PF, Lulinha aparecia menos nas tratativas diretas, mas teria papel relevante nas decisões. A investigação sustenta que Roberta o apresentava como uma espécie de referência para assuntos que dependiam de articulação junto ao poder público. A defesa do empresário nega que ele tenha participado de negócios envolvendo a administração federal.
Em uma das conversas, Roberta afirma que Lulinha deveria se preservar e entrar em cena apenas quando necessário. Em outra, descreve a relação entre os três como uma parceria estreita. Para os investigadores, o conteúdo dos diálogos é um dos elementos que sustentam a hipótese de uma sociedade informal voltada à defesa de interesses privados em Brasília.

Canabidiol virou uma das principais frentes
Um dos negócios investigados envolve a produção e comercialização de medicamentos à base de cannabis medicinal. Antônio Carlos Camilo Antunes, conhecido como “Careca do INSS”, teria interesse em um empreendimento que poderia movimentar mais de R$ 1 bilhão.
Roberta atuava como consultora de Camilo Antunes e, segundo as mensagens, buscava alterar regras e superar resistências dentro do governo para viabilizar o negócio. A PF investiga se Lulinha teria ajudado a abrir portas no Executivo para acelerar o projeto.
As conversas também mencionam o Ministério da Saúde. Roberta teria buscado uma reunião com Swedenberger Barbosa, então secretário-executivo da pasta, com auxílio de Marco Aurélio Santana Ribeiro, o Marcola, que ocupava o cargo de chefe de gabinete de Lula.
Marcola também entrou no radar dos investigadores por causa de pagamentos feitos por Roberta. Segundo a PF, a lobista teria arcado com aproximadamente R$ 217 mil em despesas pessoais do então auxiliar presidencial entre fevereiro e novembro de 2024.
Os pagamentos incluiriam faturas de cartão, financiamento de veículo, seguro e uma joia. Marcola afirma que os valores faziam parte de um empréstimo pessoal que foi posteriormente quitado. A versão também é sustentada por Roberta. Segundo as informações disponíveis no inquérito, Marcola não é investigado no caso.
O nome de Lulinha aparece ainda em conversas relacionadas à Dataprev, empresa responsável pelo processamento de dados utilizados pelo governo federal, inclusive em serviços ligados ao INSS. A PF investiga se contatos políticos foram utilizados para facilitar interesses empresariais relacionados à estatal.
A Telebras também aparece no material. Em uma das conversas, Roberta teria reclamado que Kalil Bittar, irmão de Fernando Bittar, estaria utilizando o nome de Lulinha para tentar conseguir negócios na empresa. O filho do presidente teria orientado a lobista a negar a informação.

PF recuperou mensagens apagadas
Um dos elementos considerados importantes pelos investigadores são as mensagens de Lulinha. Segundo a PF, parte das conversas havia sido apagada e precisou ser recuperada por meio de ferramentas de perícia digital.
O material também levantou suspeitas sobre pagamentos feitos por meio da empresa de Roberta. Os investigadores apuram se recursos formalmente destinados à consultoria da lobista poderiam ter Lulinha como beneficiário final. A PF também identificou conversas sobre possíveis estruturas empresariais e contas bancárias no exterior.
As investigações também encontraram uma conversa na qual Roberta demonstra preocupação em acelerar os negócios antes da mudança de Lulinha para o exterior. Segundo a mensagem, ela pretendia levar o filho do presidente e sua família para fora do país até junho de 2025.
Lulinha acabou se mudando para a Espanha, onde passou a viver com a família. A defesa afirma que a mudança já estava planejada e nega que ele tenha participado de qualquer esquema envolvendo contratos ou decisões do governo brasileiro.
Lula não é investigado
O presidente Lula não aparece como investigado no inquérito. Em declarações públicas, afirmou que o filho é inocente, mas que deverá responder caso sejam comprovadas irregularidades.
O advogado de Lulinha, Marco Aurélio de Carvalho, contesta as suspeitas e afirma que o empresário está sendo alvo de uma investigação influenciada pelo peso político de seu sobrenome. A defesa também questiona a divulgação de informações sigilosas do caso.
A própria divulgação do conteúdo do inquérito provocou uma nova reação no STF. André Mendonça determinou que a Polícia Federal apure o vazamento de informações sigilosas utilizadas em reportagens sobre o caso. A medida busca identificar quem teria compartilhado os dados, sem responsabilizar os jornalistas pela publicação.
Até o momento, Lulinha não foi condenado e as suspeitas permanecem sob investigação. O que a PF tenta esclarecer é se a relação entre o empresário, a lobista e outros agentes ultrapassou os limites da atividade empresarial e configurou efetivamente tráfico de influência ou corrupção.
Leia também
PGR defende envio à primeira instância de inquéritos que envolvem Lulinha e Marcola


