Alívio que pode custar caro: automedicação pode mascarar doenças e agravar quadros, alerta especialista
25 agosto 2026 às 17h42

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A busca pelo alívio rápido de sintomas, a facilidade de acesso a medicamentos e a influência de informações compartilhadas nas redes sociais estão entre os fatores que mantêm a automedicação como uma prática comum entre os brasileiros. Apesar de frequente, o hábito pode provocar intoxicações, interações medicamentosas, danos a órgãos e até mascarar doenças, atrasando o diagnóstico e o tratamento adequado.
Ao Jornal Opção, o diretor médico do Hospital América e cardiocirurgião pediátrico Wesley Medeiros explicou, nesta terça-feira, 25, que a falsa percepção de segurança em relação a determinados medicamentos também contribui para o problema.
“A automedicação está relacionada principalmente à busca por alívio rápido de sintomas, à facilidade de acesso a medicamentos e à ideia de que determinados remédios são inofensivos porque já foram usados anteriormente”, disse.
Segundo o médico, também há forte influência das informações encontradas na internet e nas redes sociais, além das recomendações de familiares e amigos. O problema, conforme explicou, é que sintomas semelhantes podem ter causas completamente diferentes, e um medicamento que funcionou para uma pessoa pode não ser adequado para outra.
Intoxicações e interações medicamentosas
Entre os riscos imediatos da automedicação estão efeitos adversos, reações alérgicas, intoxicações e interações entre diferentes medicamentos.
“Os riscos vão desde efeitos adversos e reações alérgicas até intoxicações e interações medicamentosas. Um remédio pode potencializar ou reduzir o efeito de outro medicamento que a pessoa já utiliza. Dependendo da substância, da dose e das condições de saúde do paciente, o uso inadequado pode provocar complicações graves, hospitalização e até morte”, afirmou.
Os problemas também podem aparecer a longo prazo. O uso repetido e inadequado de determinados medicamentos pode comprometer órgãos e, em alguns casos, provocar dependência.
“O uso repetido e inadequado pode contribuir para danos a órgãos, como fígado e rins, além de dependência em alguns medicamentos e outras complicações decorrentes de efeitos adversos ou interações. No caso dos antibióticos, o uso inadequado também favorece a resistência antimicrobiana, tornando algumas infecções mais difíceis de tratar”, disse.
Medicamentos podem mascarar doenças
Outro perigo apontado pelo especialista é a possibilidade de o medicamento reduzir temporariamente os sintomas e levar o paciente a adiar a procura por atendimento médico. Nesse cenário, a causa do problema permanece sem tratamento e pode evoluir.
“Esse é um dos principais problemas. O medicamento pode diminuir temporariamente um sintoma sem tratar a causa. Com isso, a pessoa pode acreditar que está melhor e adiar a procura por atendimento. Esse atraso pode permitir que uma doença evolua e dificultar o diagnóstico do problema na avaliação médica”, afirmou.
Analgésicos e anti-inflamatórios estão entre os mais usados
Wesley citou analgésicos e anti-inflamatórios entre os medicamentos utilizados de forma indiscriminada e ressaltou que a possibilidade de comprar determinados produtos sem receita não significa ausência de riscos.
“Dados de farmacovigilância citados pela Anvisa também apontaram analgésicos e relaxantes musculares entre os grupos mais utilizados, com a dipirona aparecendo como o fármaco mais consumido naquele levantamento. É importante destacar que o fato de um medicamento ser vendido sem receita não significa que ele seja isento de riscos”, apontou.
Sobre os chamados medicamentos isentos de prescrição, o cardiocirurgião explicou que eles atendem a critérios específicos de segurança para a comercialização sem receita, mas ainda podem provocar efeitos adversos e interações.
“Eles passam por critérios específicos de segurança e podem ser utilizados sem receita em determinadas situações, mas isso não significa que sejam livres de riscos. Eles podem provocar reações adversas e interações e devem ser utilizados conforme a bula e, quando necessário, com orientação de um profissional de saúde, inclusive do farmacêutico”, afirmou.
Redes sociais influenciam automedicação
A circulação de informações sobre medicamentos, tratamentos e receitas caseiras nas redes sociais também é apontada como um fator de risco. Segundo Medeiros, conteúdos aparentemente convincentes podem não ter fundamento científico ou desconsiderar as condições individuais de saúde de quem recebe a recomendação.
“As redes sociais ampliaram muito a velocidade com que informações sobre medicamentos, tratamentos e receitas caseiras circulam. O problema é que uma informação pode parecer convincente sem ter fundamento científico ou sem levar em consideração as características individuais de quem vai utilizá-la. A própria Anvisa alerta que conteúdos de saúde circulam rapidamente nas redes e podem trazer riscos à população”, disse.
Inteligência artificial acende novo alerta
O avanço da inteligência artificial acrescentou outro elemento ao problema. Vídeos, áudios e imagens manipulados podem utilizar a aparência ou a voz de pessoas conhecidas para divulgar supostas recomendações de medicamentos e suplementos, aumentando a dificuldade para identificar conteúdos falsos.
“Sim, esse é um problema que merece atenção. A Anvisa alertou recentemente para vídeos e áudios manipulados por inteligência artificial, inclusive com uso da imagem ou da voz de pessoas conhecidas para recomendar medicamentos e suplementos. Mesmo quando a recomendação parece vir de uma pessoa real ou de um profissional, é necessário verificar a origem da informação e não transformar um conteúdo de internet em prescrição individual”, finalizou.
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