A decisão dos Estados Unidos de classificar o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV) como organizações terroristas abriu um novo capítulo no debate sobre segurança pública, soberania nacional e impactos políticos no Brasil.

A medida, que já vinha sendo discutida nos bastidores diplomáticos e no meio jurídico, agora passa a gerar questionamentos concretos sobre como será a relação entre os governos brasileiro e americano no combate ao crime organizado. No último dia 28 de maio, o Departamento de Estado dos EUA anunciou que designará o CV e o PCC como Foreign Terrorist Organizations (FTO) e já os tratava como Specially Designated Global Terrorists (SDGT).

A medida entrou em vigor na sexta-feira, 5, com a publicação no Federal Register, conforme previsto na Section 219 do Immigration and Nationality Act e na Executive Order assinada por Trump. Em reação, o governo brasileiro reforçou que “a soberania nacional é inegociável” e repudiou qualquer intervenção externa.

O presidente Lula da Silva (PT) disse estar “muito triste” com a classificação, ainda reconhecendo que “são terroristas para comunidades brasileiras”, mas insistindo que devem ser combatidos internamente. O ex-governador Ronaldo Caiado (PSD), por sua vez, saudou a decisão como avanço na “cooperação internacional” e chamou CV/PCC de “as duas maiores multinacionais do crime”.

Na prática, a designação americana permite bloqueios de bens no exterior e abertura de investigação sob leis antiterrorismo dos EUA. O OFAC – que é o Escritório de Controle de Ativos Estrangeiros – já lista o CV e o PCC como SDGT (Special Designated Global Terrorist ou Terrorista Global Especialmente Designado) na sua lista de sanções, exigindo que instituições bloqueiem ativos associados. Organizações financeiras terão de reforçar compliance e compartilhar inteligência.

Em nota oficial divulgada no último dia 29 de maio, o Palácio do Planalto afirmou que não aceitará “medidas arbitrárias vindas do estrangeiro” contra o Brasil. A nota reconheceu que as facções “praticam terrorismo nos territórios em que vivem milhões de famílias”, mas ressaltou que seus objetivos são puramente econômicos, que “visam obter lucro”, e não podem ser equiparados ao terror político/ideológico.

O texto advertiu que a classificação “pode enfraquecer o combate ao crime, reduzir o compartilhamento de informações entre polícias e afetar o sistema financeiro brasileiro”. No Brasil, atos das facções são tratados sobretudo pelas leis de organização criminosa (Lei 12.850/2013) e de segurança pública, não pela lei antiterrorismo.

A Lei Antiterrorismo (13.260/2016) tipifica terrorismo de modo restrito: exige motivação político-religiosa e prevê penas de 12 a 30 anos. Um projeto em tramitação (PL 2.428/2025) busca equiparar condutas típicas de facções (dominação territorial, tráfico armado, intimidação coletiva etc.) às hipóteses da lei de terrorismo, ampliando penas para até 2/3 a mais para líderes.

O relatório da Câmara Federal descreve atos terroristas como “causar terror na população por meio de violência ou intimidação coletiva; desestabilizar instituições governamentais; promover medo generalizado; realizar ações contra a soberania; e estabelecer domínio territorial por meio de tráfico de drogas, armas ou explosivos”. Em síntese, sob a legislação atual a ação desses grupos é processada como crime organizado (Código Penal art. 288 e Lei 12.850/13), e não como terrorismo internacional.

Imagem gerada por inteligência artificial
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Do ponto de vista criminal

A decisão do governo dos Estados Unidos tem potencial para produzir efeitos que vão muito além da área de segurança pública. Embora a medida não tenha efeito automático na legislação brasileira, especialistas avaliam que ela pode abrir uma série de repercussões diplomáticas, econômicas e jurídicas para o país.

Ao Jornal Opção, o advogado criminalista Gilles Gomes afirmou que a classificação não altera, por si só, o tratamento dado às facções pela legislação brasileira, que já possui instrumentos específicos para o combate ao crime organizado.

“Internamente significa nada, porque a legislação brasileira sobre terrorismo é muito clara em definir o ato terrorista quando há um intento de mudança de governo ou algum tipo de ação com caráter político, ou dirigida contra grupos específicos. Já a legislação sobre organizações criminosas e facções criminosas é muito mais direcionada para esse problema”, explicou.

Segundo o advogado, do ponto de vista da segurança pública nacional, o enquadramento promovido pelos Estados Unidos é indiferente. O principal problema estaria relacionado às implicações internacionais da decisão.

“Do ponto de vista da soberania nacional, isso é um grande problema. Os Estados Unidos têm um tratamento sobre combate ao terrorismo que acaba estendendo a jurisdição deles para qualquer território que tenha grupos classificados como terroristas. A partir dessa classificação, eles podem interpretar que têm legitimidade para atuar no combate ao terrorismo dentro do território brasileiro”, afirmou.

Gomes alerta que, em tese, isso poderia envolver operações de inteligência e outras ações conduzidas por órgãos norte-americanos. “Isso é muito grave. Estamos falando de uma possibilidade de atuação armada, de inteligência, da CIA, a partir da interpretação deles sobre o combate ao terrorismo”, disse.

O criminalista também avalia que a decisão pode provocar tensões na cooperação entre Brasil e Estados Unidos em áreas como segurança pública, narcotráfico e extradição de presos. Segundo ele, o princípio da reciprocidade, comum nas relações internacionais, permite que o Brasil responda politicamente caso considere que houve interferência em sua soberania.

“Se o Estado brasileiro entender que essa declaração significa uma medida efetiva de intervenção na soberania nacional, ele tem condições de tomar atitudes que provoquem efeitos nessa relação bilateral. Estamos falando de uma parceria de mais de 200 anos”, afirmou.

Na avaliação do advogado, uma das consequências possíveis seria a redução da colaboração em temas específicos. “O Brasil pode, se quiser, passar a não mais atender determinadas expectativas dos Estados Unidos em questões pontuais relacionadas ao combate ao narcotráfico, extradição ou segurança pública. Isso pode ser uma forma de manifestar seu descontentamento”, disse.

Gilles Gomes também levanta a hipótese de que a medida possa estar inserida em um contexto mais amplo das disputas geopolíticas internacionais. “É possível que essa classificação tenha sido feita para servir, em alguma medida, como moeda de troca em outros aspectos das relações internacionais”, afirmou.

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Ele pondera que não há elementos concretos para confirmar essa interpretação, mas considera legítimo questionar se a decisão busca aumentar a influência norte-americana sobre o Brasil ou pressionar o país em suas relações com outras potências.

“Os Estados Unidos estariam querendo provocar algum tipo de pressão para que o Brasil reflua em determinadas parcerias com países como Rússia, China ou Irã? Eu não sei. Mas esse tipo de movimentação é relativamente usual nas relações internacionais”, observou.

Para o advogado, os efeitos mais relevantes da classificação podem ocorrer na economia. Segundo ele, a presença formal de organizações classificadas como terroristas em território nacional pode afetar a percepção internacional sobre o Brasil e elevar a desconfiança de investidores e parceiros comerciais.

“Quando um país passa a ser associado à presença de organizações terroristas, a sua confiabilidade para trocas comerciais é afetada. Isso pode ter impacto na nota de risco do Brasil e na sua reputação internacional”, afirmou. Gomes acredita ainda que organismos internacionais voltados ao combate à lavagem de dinheiro e ao financiamento do terrorismo poderão aumentar as exigências em relação ao país.

“É muito possível que organismos internacionais passem a recomendar medidas mais rigorosas para o Brasil. A legislação atual de combate ao terrorismo pode até passar a ser considerada insuficiente, exigindo novas mudanças legislativas”, avaliou. Na visão dele, os prejuízos econômicos podem atingir diretamente setores estratégicos da economia brasileira.

“Se alguém queria prejudicar o governo Lula, acabou prejudicando também o agronegócio, o mercado de commodities, as exportações e a Bolsa. Os maiores afetados serão justamente aqueles que dependem de uma boa classificação internacional do Brasil para acessar mercados e realizar negócios”, declarou.

Outro ponto destacado pelo criminalista é a possibilidade de que a classificação abra espaço para medidas mais amplas de investigação e responsabilização por parte das autoridades norte-americanas. Segundo ele, empresas ou executivos que tenham mantido relações comerciais indiretas com organizações posteriormente vinculadas às facções poderiam ser alvo de investigações internacionais.

“Imagine uma empresa séria, consolidada, que tenha feito negócios com um fornecedor regular. Depois descobre-se que, em algum ponto dessa cadeia, houve ligação com organizações associadas ao PCC ou ao Comando Vermelho. Isso pode gerar consequências extremamente graves”, afirmou.

“Se essas organizações passam a ser tratadas como terroristas, qualquer pessoa que, de alguma forma, tenha tido contato com elas, ainda que sem conhecimento, pode acabar envolvida em investigações internacionais. Isso abre um espectro de possibilidades muito danoso”, disse.

Para Gilles Gomes, o precedente mais preocupante é justamente o potencial de ampliação da atuação norte-americana em território estrangeiro. “O mais grave de tudo é a possibilidade de justificar algum tipo de intervenção norte-americana na repressão dessas organizações. Esse é o precedente jurídico mais perigoso que essa classificação pode abrir”, concluiu.

Gilles Gomes: “O mais grave de tudo é a possibilidade de justificar algum tipo de intervenção norte-americana na repressão dessas organizações” | Foto: Arquivo pessoal

Existem alguns precedentes internacionais comparáveis, como a guerrilha comunista das FARC, que foi designada Foreign Terrorist Organization pelos EUA em 1997 e permaneceu listada até o acordo de paz de 2016, quando suas estruturas formais foram desarmadas. Em 2021, a lista americana foi ajustada: o nome “FARC” foi revogado e sucessores dissidentes, a Segunda Marquetalia, foram incluídos como FTO.

Em janeiro de 2025 o presidente Trump emitiu ordem executiva específica “Designating Cartels and Other Organizations as Foreign Terrorist Organizations” encorajando o Secretário de Estado a tratar grandes cartéis mexicanos, gangues como MS-13 e organizações transnacionais como terroristas. Na prática, vários cartéis e gangues foram incluídos na lista FTO naquele ano, sinalizando precedentes diretos para o caso brasileiro.

O grupo xiita Hezbollah já é considerado organização terrorista pelo governo dos EUA desde 1997 e pela UE. A inclusão do CV e PCC no mesmo rol que Hamas, Al-Qaeda, ISIS e Hezbollah mostra a magnitude simbólica: em contextos anteriores, designações parecidas culminaram em ações militares dos EUA, como a invasão do Iraque em 2003 sob discurso antiterror.

Imagem gerada por inteligência artificial
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Debate sobre soberania nacional

A medida também provoca discussões sobre soberania nacional e os limites da atuação americana em temas internos brasileiros. Isso porque o Brasil, historicamente e como exposto anteriormente, evita enquadrar facções criminosas como grupos terroristas, utilizando a legislação de organizações criminosas para combater o crime organizado.

Na avaliação do internacionalista e professor da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO), Leandro Bernardes Borges, a classificação pode trazer consequências políticas, econômicas e diplomáticas para o Brasil, embora os efeitos concretos ainda sejam incertos. Em entrevista ao Jornal Opção, o especialista destacou que a medida é unilateral e está baseada na legislação norte-americana, mas pode produzir reflexos em diferentes áreas da relação entre os dois países.

“Essa classificação é uma medida unilateral dos Estados Unidos, de caráter jurídico, mas que obviamente tem fortes impactos políticos e financeiros. Estamos no campo das especulações, porque ninguém sabe exatamente o que vai acontecer, até porque o governo Trump tem demonstrado movimentos de avanços e recuos em diversas áreas”, afirmou.

Segundo Borges, uma das principais preocupações envolve a possibilidade de os Estados Unidos ampliarem mecanismos de atuação contra organizações classificadas como terroristas, inclusive em outros países.

“O que já está acontecendo com o México e outros países é que essa classificação instrumentaliza, por meio da legislação norte-americana, a possibilidade de atuação de operadores militares sigilosos sem aprovação ou autorização do governo nacional. Foi algo que aconteceu no caso mexicano”, disse.

Além da área de segurança, o professor acredita que os reflexos podem atingir instituições financeiras e empresas brasileiras, principalmente em estados onde as facções possuem maior presença histórica. “As instituições financeiras passam a enfrentar processos mais rigorosos de monitoramento e aprovação. Em um ambiente altamente competitivo, qualquer obstáculo desse tipo se torna um empecilho para os negócios”, explicou.

Na avaliação dele, empresas sediadas em São Paulo e no Rio de Janeiro, estados considerados berços das duas organizações criminosas, poderiam enfrentar um escrutínio maior em operações financeiras e comerciais. “Isso permite ao governo norte-americano utilizar essa situação como ferramenta política para adotar critérios mais rígidos na aprovação de fluxos financeiros e operações comerciais, alegando possíveis vínculos diretos ou indiretos com recursos provenientes do crime organizado”, afirmou.

Apesar da preocupação, Borges avalia que o Brasil possui uma posição internacional mais robusta do que outros países latino-americanos frequentemente pressionados por Washington.

“Sem dúvida alguma é uma situação de constrangimento, mas o Brasil não se apresenta aos Estados Unidos como países da América Central ou mesmo como o México. O Brasil é muito mais dinâmico, possui alternativas de parcerias comerciais, arranjos de cooperação internacional e está muito mais inserido nos processos internacionais”, destacou.

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Segundo ele, essa condição reduz a dependência brasileira em relação aos Estados Unidos. “Os Estados Unidos são um parceiro importante, mas não há essa condescendência toda no sentido de autorizar qualquer tipo de operação em nosso território. O debate sobre soberania é muito caro para a população brasileira e atravessa diferentes correntes políticas”, afirmou.

O professor acrescentou que a repercussão do tema pode fortalecer discussões internas sobre segurança pública. “A opinião pública costuma apoiar políticas mais rigorosas de combate ao crime organizado, mas, ao mesmo tempo, rejeita qualquer tipo de intervenção dos Estados Unidos no país. Nesse contexto, a PEC da Segurança Pública pode ganhar ainda mais relevância no debate nacional”, avaliou.

Questionado sobre os possíveis impactos na imagem do Brasil perante a comunidade internacional, Borges afirmou que a principal preocupação de outros países não é a classificação adotada pelos Estados Unidos, mas a capacidade brasileira de conter a expansão dessas organizações criminosas.

“O Brasil já é cobrado por vários países, especialmente europeus e asiáticos, por medidas rigorosas de contenção do PCC e do Comando Vermelho. A preocupação deles não é o que acontece dentro do Brasil, mas impedir que essas organizações levem suas atividades para outros territórios”, explicou.

Segundo o especialista, a pressão internacional ocorre para que o governo brasileiro demonstre capacidade de controle e enfrentamento das facções. “Esses governos querem garantias de que o problema não chegará às suas sociedades. A cobrança é muito mais por contenção e cooperação do que por uma determinada classificação jurídica”, disse.

Para Borges, o Brasil possui argumentos diplomáticos para contestar a narrativa de que PCC e Comando Vermelho devam ser enquadrados como grupos terroristas. “O Brasil tem uma tradição diplomática forte e é uma voz muito respeitada internacionalmente. O posicionamento brasileiro precisa ser firme no sentido de reconhecer que são organizações criminosas extremamente perigosas, mas que não se enquadram necessariamente no conceito clássico de terrorismo”, afirmou.

O professor argumenta que o terrorismo costuma estar associado a motivações políticas, religiosas ou étnicas, enquanto as facções brasileiras têm objetivos essencialmente econômicos. “O terrorismo possui uma motivação política, religiosa ou étnica muito clara. No caso do PCC e do Comando Vermelho, estamos falando de organizações criminosas movidas por interesses econômicos. Isso não diminui a gravidade das suas ações, mas é uma distinção importante do ponto de vista conceitual”, disse.

Ao final da entrevista, Borges ressaltou que qualquer análise sobre os efeitos da decisão ainda depende dos próximos passos do governo norte-americano. “Tudo o que estamos discutindo aqui são hipóteses. Estamos no calor do momento, ainda tentando compreender os possíveis desdobramentos”, concluiu.

Leandro Bernardes: “Sem dúvida alguma é uma situação de constrangimento, mas o Brasil não se apresenta aos Estados Unidos como países da América Central ou mesmo como o México” | Foto: Fábio Chagas/Jornal Opção

Segurança pública deve ganhar força nas eleições

O tema também deve impactar diretamente o debate político e eleitoral no Brasil, especialmente em torno da segurança pública. Para o cientista político Pedro Célio, a decisão de Trump pode ampliar o debate sobre segurança pública nas eleições de 2026, mas não necessariamente favorecer candidatos da direita. Em entrevista ao Jornal Opção, segundo ele, a segurança pública já ocupa posição central no debate político brasileiro há vários anos, independentemente da iniciativa anunciada pelos Estados Unidos.

“Ela já é um tema central nos debates da política brasileira porque envolve uma concepção de Estado, de que maneira o Estado deve agir para fortalecer a segurança pública. Quando falamos em segurança pública, estamos falando de garantir que os cidadãos e as famílias possam trabalhar, estudar e viver com tranquilidade”, afirma.

Para Pedro Célio, o tema vai além do combate ao crime organizado e envolve também questões estruturais da sociedade brasileira. “Existem fenômenos de criminalidade, corrupção do Estado e violência que não são fatos isolados ou aleatórios. Eles fazem parte de uma cultura e de uma estrutura civilizacional que predominam no Brasil”, diz.

Embora o combate ao crime seja tradicionalmente associado ao campo conservador, o cientista político avalia que a forma como o senador e pré-candidato à Presidência da República, Flávio Bolsonaro (PL), conduziu o episódio pode produzir um efeito político contrário. “Em princípio, isso não favorece automaticamente os candidatos conservadores. A política não é feita apenas de ideias e valores. Ela também é feita da maneira como os líderes agem”, afirma.

Na avaliação dele, ao defender uma atuação norte-americana relacionada ao combate às facções brasileiras, Flávio Bolsonaro acabou fortalecendo o discurso do presidente Lula em torno da soberania nacional. “O Flávio Bolsonaro pegou um tema que era principalmente favorável a ele e entregou de graça no colo do Lula. O modo como ele agiu foi desajeitado, sem habilidade política. Ele solicitou a um país poderoso que interferisse em temas de segurança pública dentro do Brasil”, argumenta.

Para o cientista político, a defesa da soberania continua sendo um valor importante para a sociedade brasileira. “O povo brasileiro é muito zeloso pela noção de brasilidade, de dignidade nacional e de soberania territorial. Esse era um tema que, há pouco tempo, estava totalmente associado à direita e hoje beneficia, em boa medida, a candidatura do Lula.”

Pedro Célio afirma que a classificação das facções como grupos terroristas não se limita ao campo da segurança pública e pode gerar consequências diplomáticas e econômicas. “Esse episódio envolve segurança pública, relações exteriores, economia e eleição. Não é apenas uma questão policial”, afirma.

Segundo ele, a medida pode criar mecanismos jurídicos que permitam aos Estados Unidos ampliar a fiscalização sobre operações financeiras relacionadas ao Brasil. “Os Estados Unidos criam argumentos jurídicos para intervenção econômica. Se houver suspeitas de lavagem de dinheiro envolvendo essas organizações, bancos e operadores financeiros podem sofrer sanções dentro do sistema jurídico americano.”

O cientista político também menciona possíveis reflexos sobre setores estratégicos da economia brasileira. “Tudo isso interfere na soberania e no modo de condução da política econômica brasileira. O sistema financeiro tem uma dinâmica muito grande e alcança diversos setores da economia.”

Questionado sobre os possíveis reflexos da decisão para a pré-candidatura presidencial do ex-governador de Goiás, Ronaldo Caiado (PSD), Pedro Célio avalia que o tema dificilmente alterará o atual cenário político. Apesar de Caiado ter deixado o governo com índices elevados de aprovação e de frequentemente destacar os resultados da segurança pública em Goiás, o cientista político considera que a forte polarização nacional limita o espaço para candidaturas alternativas.

“A polarização está muito rígida e consolidada. Já aconteceu muita coisa para quebrá-la e ela não foi quebrada”, afirma. Ele cita como exemplo o desgaste recente enfrentado por Flávio Bolsonaro, que, segundo ele, não provocou uma migração significativa de eleitores para outras lideranças da direita. “O voto da direita ainda está cercado pelo bolsonarismo. O principal adversário de Caiado neste momento é exatamente essa identificação da extrema direita com o nome Bolsonaro.”

Ao final da entrevista, Pedro Célio reforçou a avaliação de que o episódio acabou beneficiando politicamente o presidente Lula ao deslocar o debate da segurança pública para a soberania nacional. “Em certa medida, foi um tiro no pé. Flávio Bolsonaro deu de graça o discurso para o Lula, transformando um tema de segurança em um tema de soberania.”

Segundo ele, o governo federal e a esquerda passaram a ocupar um espaço político que, historicamente, era explorado pela direita. “O Lula e a esquerda nunca se deram muito bem nesse campo, mas, agora, estão de braçada, pelo menos nesses dias, com o discurso da soberania nacional.”

Pedro Célio: “Em certa medida, foi um tiro no pé. Flávio Bolsonaro deu de graça o discurso para o Lula, transformando um tema de segurança em um tema de soberania” | Foto: Divulgação

Já para a cientista política Mayra Goulart, o fato pode reforçar o discurso de endurecimento na segurança pública adotado por Caiado, mas seus efeitos práticos no combate ao crime organizado ainda são alvo de debate entre especialistas. Em entrevista ao Jornal Opção, ela afirmou que o ex-governador de Goiás tende a se apresentar como um exemplo de enfrentamento mais rigoroso à criminalidade diante da nova postura americana.

No entanto, ela pondera que a adoção da legislação antiterrorismo pode não tornar o combate às facções mais eficiente. “Se a decisão dos Estados Unidos fortalece o discurso do Caiado, ele com certeza vai se apresentar como modelo de endurecimento. A questão que pode ser disputada é se você considera e adota a legislação do terrorismo e, com isso, se o combate ao crime organizado fica mais ou menos eficaz”, afirmou.

Além disso, na opinião dela, segurança pública tende a ganhar protagonismo eleitoral e favorecer candidatos conservadores. Segundo a cientista política, há argumentos que apontam para um possível efeito contrário ao pretendido. Ela explica que a mudança de enquadramento jurídico poderia dificultar a cooperação internacional entre agências de segurança.

“Há inúmeros indícios para indicar que não. Você considerar crime organizado como terrorismo dificulta, por exemplo, o intercâmbio de informações, porque o combate deixa de ser feito pela DEA, que é a agência ligada a drogas, e pelo FBI, que trocam informações com outras instâncias dos Estados Unidos e no mundo, e passa a ser feito pela CIA, que não troca informação”, disse.

Para Mayra Goulart, ainda é cedo para afirmar quais atores políticos serão beneficiados pela medida. “Tem espaço, ainda não está decidido, se essa decisão favorece um ao outro, porque é possível você dizer que ela dificulta inclusive o endurecimento do combate”, acrescentou.

A cientista política também questionou a tentativa de setores políticos de apresentar a decisão americana como uma vitória diplomática para o Brasil. Na avaliação dela, o argumento encontra resistência junto à opinião pública por envolver uma decisão tomada por uma potência estrangeira.

“É muito difícil a construção desse argumento da vitória diplomática, porque a última tentativa de colocar algo que é uma decisão dos Estados Unidos como algo positivo para o Brasil acende muitos sinais de alerta para o cidadão médio, que vê na ingerência de uma potência externa sobre o Brasil algo negativo”, afirmou.

Mayra Goulart avalia ainda que o tema da segurança pública tende a favorecer candidatos identificados com discursos mais punitivistas, enquanto setores progressistas costumam ter maior identificação com pautas sociais. “De todo modo, o tema da segurança não é um tema que favorece o campo progressista, porque o campo progressista tem mais identidade histórica com pautas como educação, saúde e proteção de minorias”, disse.

Ela acrescenta que a segurança pública tem sido historicamente explorada por grupos políticos mais alinhados à direita. “O tema da segurança historicamente tem sinalizado mais para candidatos que não têm outras pautas, como é o caso da extrema direita, e que acabam focando muito nessa pauta punitivista, que é uma solução simples e descabida para um problema complexo como é o problema da segurança”, concluiu.

Mayra Goulart: “O tema da segurança não é um tema que favorece o campo progressista” | Foto: Arquivo pessoal

Avanços das facções

Diversas pesquisas mostram alcance e violência das facções. O Atlas da Violência 2025 (Ipea/FBSP) documenta que PCC e CV atuam em todo o território brasileiro, mas com padrões distintos: no Norte/Nordeste ocorreram “disputas territoriais intensas e letais”.

No Amazonas e Amapá há brigas entre CV, PCC e grupos locais (Família do Norte, Cartel do Norte) que elevaram drasticamente homicídios. Em estados como a Bahia, os dois grupos, em aliança com milícias locais, disparam ataques violentos. Já em São Paulo prevalece uma “pax monopolista” do PCC, que impõe sua hegemonia ilegal e reduziu significativamente as mortes violentas na última década.

O relatório revela “revolução invisível” na segurança: enquanto nas capitais os índices de homicídios caíram até 60% entre 2013-2023, cidades médias e pequenas viram aumento na prática devido à interiorização do crime. O Atlas também alerta para a infiltração das facções em cadeias produtivas lícitas e na política, destacando riscos de captura institucional.

Além do Atlas, o Anuário Brasileiro de Segurança Pública e estudos da Fundação Getúlio Vargas (FGV Ibre) indicam o crescimento das milícias e do tráfico. ONGs como o Fórum Brasileiro de Segurança Pública também produzem boletins regionais, mas apontam dados gerais sem detalhar finanças das facções.

Em síntese, fontes acadêmicas e oficiais mostram forte presença territorial das facções e altas taxas de violência correlatas, especialmente no Norte/Nordeste e nas grandes periferias, reforçando o debate sobre a necessidade de políticas públicas integradas de segurança.

No meio jurídico, há consenso de que o PCC/CV não se encaixam na definição clássica de terrorismo. A Polícia Federal e a Agência Brasileira de Inteligência (ABIN), em pareceres prévios sobre temas semelhantes, argumentaram que o crime dessas facções tem motivação econômica, não ideológica.

Em resumo, a opinião corrente é que, em termos jurídicos, a designação americana não transforma automaticamente as facções em terroristas nas leis brasileiras, e que seu impacto prático depende da cooperação bilateral e de eventuais novos instrumentos legais.

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