Na reta final do mandato, Iris deixa de cumprir maioria das promessas de campanha

Levantamento mostra que de 30 compromissos feitos pelo emedebista nas áreas de Saúde, Educação e Mobilidade Urbana, apenas seis foram cumpridos

Desempenho de Iris Rezende na prefeitura pode impactar resultado eleitoral do MDB em 2020 | Foto: Mayara Carvalho/Jornal Opção

A um ano e seis meses de terminar o quarto mandato de prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB) cumpriu seis promessas de uma amostra de 30 registradas no plano de governo da campanha eleitoral de 2016. Foram selecionadas três áreas sensíveis ao cotidiano da população: Saúde, Educação e Mobilidade Urbana. Outros permearam questões regionais, a variar de qual bairro clamava por votos.

O emedebista cumpriu 20% dos compromissos, de acordo com a sondagem. O plano de governo do prefeito contém mais propostas, mas foram extraídas 30 promessas para avaliação.

A Prefeitura de Goiânia e a Secretaria Municipal de Educação, órgãos responsáveis pela execução de partes do plano de governo, foram procurados na terça-feira e quarta-feira, 18 e 19, via e-mail e telefone, mas não responderam oficialmente aos questionamentos até o fechamento desta reportagem.

A Saúde, área emblemática em campanhas eleitorais, correspondeu, sistematicamente, às promessas mais exploradas pelo prefeito em 2016. De janeiro de 2017, na diplomação de Iris Rezende, até o presente momento, a saúde se destacou em discursos de vereadores e se tornou alvo de investigação numa Comissão Especial de Inquérito na Câmara Municipal de Goiânia, no ano passado.

Um dos compromissos era aumentar o salário de médicos concursados da rede municipal de saúde “para atender melhor a população”, segundo o plano de governo. Porém não executado.

De acordo com uma tabela de cargos e salários disponível no site da Prefeitura de Goiânia, o médico de nível 4 recebe salário mensal de R$ 7,2 mil. O médico efetivo recebe mais, variavelmente, com base em gratificações e benefícios de trabalho.

Cais de Campinas sofre superlotação desde que a prefeitura concentrou atendimentos pediátricos na unidade | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

A Secretaria Municipal de Saúde (SMS) não respondeu na nota enviada à reportagem se houve aumento no salário dos médicos concursados.

Mas em abril deste ano, o órgão publicou um edital de credenciamento no Diário Oficial do Município aos pediatras interessados em trabalhar na rede municipal.

Os salários oferecidos no edital são mais altos do que os recebidos pelos profissionais concursados – os R$ 7,2 mil estipulados na tabela de cargos e salários da prefeitura. No entanto, as vagas são temporárias. O certame ofereceu R$ 11,6 mil para quem trabalhar 20 horas semanais e R$ 23,3 mil para 40 horas semanais.

De acordo com o Conselho Regional de Medicina de Goiás, 15.439 médicos atendem no Estado. E um estudo do Conselho Federal de Medicina, de 2018, revelou 8.966 médicos trabalhando em Goiânia, dos quais, 947 são pediatras.

O vereador de Goiânia Lucas Kitão (PSL) afirma que poucos médicos se cadastraram no edital da SMS. Em nota, a Secretaria Municipal de Saúde informou a contratação de 12 pediatras, até o momento, por meio do edital e o processo seletivo continua aberto.

Para modernizar a gestão de saúde, Iris Rezende prometeu entregar um sistema online de marcação de consultas pelo computador ou celular. O software adquirido foi programado para ser rápido e prático. Mas não funcionou. A prefeitura pagou cerca de R$ 4 milhões por ele, segundo Kitão.

Usuários não conseguem concluir marcação de consulta em sistema online da prefeitura | Foto: Reprodução/Prefeitura de Goiânia

A reportagem usou a ferramenta, batizada de “Netconsulta.com”, mas não conseguiu agendar a consulta. Chega-se a escolher a unidade de saúde, especialidade médica e o nome do profissional. Terminada a seleção dos itens, não aparece opção de escolha de data e horário da consulta e o usuário não recebe protocolo de agendamento.

Promessas de Saúde não cumpridas

Entre outros compromissos de campanha estão a reabertura dos Centros de Atenção Integrada à Saúde (Cais) fechados, reformas de adequação de Cais para Unidade de Pronto Atendimento (UPA) e garantir médicos em plantão de 24 horas nos postos de saúde.

No bairro Jardins do Cerrado, na Região Oeste da capital, por exemplo, dois postos de saúde deveriam atender os 40 mil moradores. No entanto, estão parados por falta de médicos e sem funcionamento de plantão 24 horas, conforme promessa de campanha. O presidente da Associação Cerrado Forte, Lee Anderson, conta que as unidades fecham religiosamente às 16 horas.

No site da SMS consta 13 unidades de saúde com funcionamento de plantão 24 horas. Informação questionada pelo vereador Lucas Kitão: “São quatro unidades 24 horas, no máximo, pelo que já fiscalizamos na Câmara Municipal”.

Ciams do bairro Jardim América está em reforma desde 2017 | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Segundo a nota da SMS, nove Cais, duas UPAs e dois Ciams atendem urgência 24 horas. “Além disso, o Ciams Jardim América está sendo reformado e ampliado para ser transformado em UPA e a inauguração está prevista para agosto”, garantiu o órgão.

Nenhum compromisso concluído na segurança pública

O prefeito prometeu apenas três mudanças na Segurança Pública da capital, até porque a responsabilidade maior recai sobre os ombros do Estado por meio das Polícias Militar e Civil, que atuam na ronda ostensiva e investigação de crimes, respectivamente.

A proposta da prefeitura era colocar guardas civis municipais em rondas ostensivas próximo aos pontos de ônibus e dentro dos terminais, ampliar o sistema de vídeo monitoramento da capital e criar um programa de enfrentamento às drogas. Essas promessas possuem grau elevado de risco de se analisar devido à flutuação de dados do setor.

A assessoria de imprensa da Guarda Civil não atendeu o telefone fixo durante toda a quarta-feira e sexta-feira, 19 e 21.

A Guarda Civil Metropolitana (GCM) é responsável por elaborar e executar políticas de segurança pública em Goiânia. Da parte da Guarda, não há projeto de combate às drogas em execução, mas o guarda civil do órgão e Diretor Jurídico do Sindicato de Guardas Civis Metropolitanos de Goiás (Sindguardas), Júnio Eder de Sousa, diz que dois programas de combate às drogas são executados na capital: “Escola sem Drogas” e “Crack, é preciso vencer”.

O projeto “Escola Sem Drogas” é de iniciativa da Polícia Civil de Goiás desde 1992, portanto não entra na conta da administração municipal de Goiânia.

O diretor jurídico do Sindguardas, Júnio Eder de Sousa, conta que, atualmente, a GCM executa um trabalho mais intenso na região da Rua 44 | Foto: Arquivo Pessoal

O segundo programa, de enfrentamento ao crack, foi desenvolvido pelo Governo Federal, em 2006, e apenas executado em parceria com a Prefeitura de Goiânia. Também não pontua para o prefeito.

O compromisso de ampliar o sistema de videomonitoramento da cidade pode ser concluído até 31 de dezembro de 2020, quando acaba o mandato de Iris Rezende.

A Guarda Civil informa que a prefeitura pretende reservar aproximadamente R$ 50 milhões, dos R$ 700 milhões a serem contraídos de empréstimo, para comprar câmeras de monitoramento inteligentes. Esses modelos detectam o rosto do condutor e de transeuntes nas ruas; podem cruzar a imagem de uma pessoa com o arquivo de dados a fim de aplicar alguma penalidade por infração de trânsito, por exemplo, ou identificar possíveis infratores da lei. Promessa em andamento, mas não cumprida.

Quanto ao policiamento nos terminais rodoviários, Junio afirma que, atualmente, a GCM está com trabalho mais intenso na Rua 44. “Houve um tempo em que a Guarda esteve nos terminais, mas agora, uma parte dela pode ser vista região da Rua 44”, declara Junio Eder.

Segundo relato do presidente da Associação de moradores do bairro Jardins do Cerrado, Lee Anderson, a Guarda Civil não realiza nenhum tipo de trabalho na região e raramente acontece vigilância preventiva perto das escolas.

Relatos de usuários de ônibus do Terminal Bandeiras, no Setor Sudoeste, confirmam ausência de policiamento por parte da GCM dentro e fora do local. Histórias semelhantes são frequentes nos Terminais Garavelo, Maranata e Cruzeiro.

A ampliação do sistema de vídeo monitoramento e a implantação de um programa de enfrentamento às drogas não acontecerão. São apenas promessas, segundo o vereador Lucas Kitão.

Em mobilidade urbana, duas promessas estão em andamento

Terminais de ônibus da capital não passaram por reformas no período de 2017 a 2019, como prometeu Iris Rezende na campanha eleitoral de 2016| Foto: Danilo Bueno

Para a mobilidade urbana de Goiânia, Iris Rezende planejou sete compromissos: ampliar terminais de ônibus e renovar toda a frota de veículos coletivos; corredores exclusivos de ônibus; criar grupo de estudo para desenvolver o “Projeto de Mobilidade Urbana”; construção de 25 parques públicos; recapear e pavimentar as ruas da capital com asfalto e terminar as obras do BRT Norte-Sul e Avenida Leste-Oeste.

Dos compromissos listados, dois estão em andamento desde 2017, as obras do BRT Norte-Sul e da Avenida Leste-Oeste. O restante nem começou.

O bairro Jardins do Cerrado espera pavimentação das ruas com asfalto desde 2009. A prefeitura ensaiou o início das obras em 2018, mas a empresa contratada para o serviço retirou as máquinas na semana passada.

Segundo o presidente da associação de moradores, Lee Anderson, a prefeitura responsabilizou a temporada de chuvas para não começar a obra.  

Prefeito prometeu novas escolas e vagas na educação

Vereador Lucas Kitão diz que prefeitura entregou 10 de 50 Cmeis prometidos | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Área também essencial aos cidadãos, a educação goianiense caminha para algum avanço, baseado em dados da própria Secretaria Municipal de Educação de Goiânia (SME) e nos votos assumidos pelo prefeito na campanha eleitoral de 2016. De quatro promessas, Iris Rezende cumpriu uma e três estão em andamento.

O prefeito convocou em 2018 os aprovados no concurso da SME, de 2015. Única promessa de campanha cumprida.

O político prometeu ampliar o número de vagas na Educação Infantil e no período integral, no decorrer do mandato. Como não estabeleceu quantidade exata, o compromisso foi analisado, por Lucas Kitão, em sua superficialidade e a entrega de 120 vagas na Educação Infantil entrou na soma de promessas em andamento.

No Ensino Fundamental, a prefeitura entregaria mais 20 escolas de funcionamento em tempo integral, no período de 2017 a 2020. Atualmente são 23 unidades atendendo 4 mil alunos, segundo informações do site da SME.

Sem resposta oficial do órgão, contabilizou-se uma unidade com funcionamento em período integral inaugurada em abril deste ano no bairro Jardim da Luz.

Lucas Kitão afirma que a administração municipal construiu 10 Centros Municipais de Educação Infantil (Cmeis) dos 50 prometidos na campanha eleitoral de 2016.

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