Iris Rezende promete canteiro de obras, mas abandona cidade

Paço Municipal inaugura pequenas reformas pela capital enquanto restante da cidade espera, em média, cinco anos para usufruir de uma obra que está quase pronta

Maria da Conceição aguarda a entrega do CMEI na rua onde mora desde a gravidez, quando Iris Rezende visitou a obra há dois anos | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

O prefeito de Goiânia, Iris Rezende (MDB), prometeu transformar a capital num canteiro de obras nestes últimos dois anos de mandato com supostas finalidades eleitorais. O seu líder na Câmara Municipal de Goiânia, vereador Tiãozinho Porto (Pros), diz que o Paço ajustou as contas nos dois primeiros anos de mandato para injetar dinheiro próprio em obras até a eleição de 2020.

Os recursos do cofre municipal deverão ser aplicados em viadutos, asfalto, construção e reformas de instalações públicas, entre outras, segundo Porto. “Reafirmo que Goiânia se tornará um canteiro de obras neste ano e no ano seguinte. O prefeito é um grande gestor, já sanou as dívidas da Prefeitura, que tinha quase 900 milhões de atrasos. Essa foi uma parte da administração, agora Goiânia entrará em nova fase”, afirma Porto.

O prefeito inaugurou na terça-feira, 19, o Centro Municipal de Educação Infantil (CMEI) Governador Olinto de Paula Leite, localizado no Parque Flamboyant. A estrutura, na verdade, já existia, mas foi reformada para atender as crianças da região. De acordo com censo do IBGE em 2010, a população do Parque Flamboyant era de 1.464 pessoas.

Mas a 52 minutos do Parque Flamboyant, numa viagem de carro de 31,9 quilômetros, moram cerca de 9 mil pessoas nas onze etapas do bairro Jardins do Cerrado, fundado em 2009. Em apenas um dia, na quinta-feira, 21, o Jornal Opção visitou diversas obras inacabadas pela Prefeitura de Goiânia desde a inauguração do setor.

Moradores questionam, por exemplo, se essa disposição em revitalizar, começar e terminar novas obras não estaria na agenda para atender as periferias esquecidas pela Prefeitura.

Uma das obras mais antigas do bairro Jardins do Cerrado deixou um esqueleto de tijolos há sete anos parado. Além da depredação natural do tempo no que restou do que seria um CMEI, como a umidade que assolou as paredes com lodo e o mato de quase dois metros de altura, ladrões terminaram de roubar os materiais de construção abandonados no local: restos de encanamento, barras de ferros usadas na fundação que ficaram expostas e pedaços de madeira usados no início da laje.

CMEI do bairro Santa Helena está parado e o mato quase chega na laje da estrutura | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

O pedreiro Billy Marques dos Santos, 35, mora no condomínio Residencial Orquídea há seis anos, do outro lado da rua onde o CMEI está abandonado. Com dois filhos em casa, Billy percorre alguns quilômetros até o Conjunto Vera Cruz para deixar as crianças na escola. A unidade de educação infantil na porta do condomínio do pedreiro poderia atender 100 crianças em dois turnos ou horário integral.

A Associação Habitacional Cerrado Forte, representante dos moradores do setor, informou que mil crianças estão fora da escola. Essas crianças aguardam ingresso na rede municipal de Educação de duas formas: esperando vagas na lista de espera de CMEIS próximos ou a entrega das unidades educacionais inacabadas.

Billy Marques, morador do Jardins do Cerrado VII, em frente ao CMEI que seus filhos poderiam frequentar se estivesse pronto | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Na etapa 4 do Jardins do Cerrado há outro CMEI fechado há três anos. A unidade, no entanto, estava quase pronta, mas faltando poucos detalhes a obra foi abandonada e o CMEI nunca funcionou. O tempo continua a devorar a estrutura já construída e os moradores próximos denunciam que o local virou abrigo para traficantes e ladrões se esconderem da polícia.

O cadeado na entrada principal foi arrombado e qualquer pessoa pode entrar no terreno da escola. No interior do local, um lodo espesso engoliu parte da cerâmica branca no pátio central, que dá acesso a todas as salas de aulas. A unidade foi construída em um formato quadrado, como uma caixa de fósforos. Há bastante espaço nas quatro laterais do terreno, hoje tomado pelo mato.

O presidente da Associação Habitacional Cerrado Forte, Lee Anderson, conta que já havia portas nas salas, vidros nas janelas e até vasos sanitários nos banheiros. Todas as peças foram roubadas por ladrões que vendem no comércio para comprar pequenas quantidades de drogas. “O furto dessas peças deve causar um prejuízo de, pelo menos, uns R$ 20 mil aos contribuintes. A estrutura estava pronta, nova, mas foi deteriorada pelo tempo. Era só colocar funcionários e entregar”, lamenta Lee Anderson. Esse CMEI acolheria cerca de 400 crianças que deveriam estar na educação infantil, ou seja, quase metade das mil crianças na lista de espera.

No interior da escola, a reportagem encontrou a carcaça de um animal morto. Sobraram apenas ossos e dentes em decomposição, espalhados no pátio: o corpo estava na grama e a cabeça, com a boca aberta, em cima da cerâmica onde as crianças teriam atividades escolares.

Presidente da associação de moradores do Jardins do Cerrado, Lee Anderson caminha no interior do CMEI abandonado pela Prefeitura | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

A doméstica Maria da Conceição Martins da Silva, de 29 anos, mora em frente à obra fechada. Com seis passos a pé, ela deixaria a filha de nove meses aos cuidados dos professores para trabalhar no centro de Goiânia. E mais uma vez, outro morador precisa levar o filho para fora do setor por falta de assistência. Maria da Conceição fez um acordo com o chefe para trabalhar e cuidar da filha ao mesmo tempo, misturando ambiente de trabalho com pessoal.

“Eu estava grávida quando o Iris Rezende veio aqui dizer que assinou o termo para concluir a obra do CMEI, quase dois anos atrás”, diz a doméstica.

Esses problemas de falta de vagas na educação infantil e estruturas abandonadas são os mais visíveis e acontecem em todos os sete distritos da capital goiana.

O vereador Lucas Kitão (PSL) afirma que Goiânia está entre as capitais brasileiras que mais tem crianças fora da escola. “Só na lista de espera cadastrada são mais de 10 mil. O prefeito prometeu dobrar o número de escolas em tempo integral e não fez. Pelo contrário, transformou escolas de tempo integral em dois turnos para abrir mais vagas e mascarar o déficit”, deplorou Kitão.

Vereador Lucas Kitão diz que Goiânia está entre as capitais campeãs com crianças fora de escola | Foto: Jornal Opção

Segundo o vereador, a Prefeitura prometeu 50 novos CMEIs e entregou apenas 8 até o momento. “O tempo passa. As verbas do Fundeb entram para o Município, mas os benefícios não chegam para a sociedade. A CEI [Comissão Especial de Inquérito] das obras paradas revelou mais de 100 obras inacabadas e metade delas são de CMEIs que poderiam facilmente ser construídos e inaugurados”.

O não pagamento da data base dos professores municipais também assombra a categoria. O projeto foi aprovado em outubro passado na Comissão de Constituição e Justiça da Câmara. Agora, ele está parcelado. “O prefeito mandou atualização salarial para a Casa, de duas carreiras municipais de mais de 400%. E não foi cogitado aumento ou melhora salarial para os professores”, denuncia novamente Lucas Kitão.

O líder do Paço na Câmara Municipal, Tiãozinho Porto, fez a defesa do prefeito sobre os problemas relatados na Educação da capital, já que a Assessoria de Comunicação Social da Prefeitura não se manifestou sobre as perguntas encaminhadas desde terça-feira, 19.

Porto disse que o prefeito tem interesse em resolver a falta de vagas nos CMEIs ainda neste ano, bem como terminar as construções das escolas espalhadas pela cidade.

Vereador Tiãozinho Porto diz que Iris Rezende quer resolver problemas da educação neste ano | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Segundo a vereadora Priscila Tejota (PSD), o secretário Municipal de Educação e Esporte de Goiânia, Marcelo Ferreira da Costa, compareceu inúmeras vezes à Câmara Municipal com soluções “risíveis” para falta de vagas na rede municipal de ensino. “Ele veio mostrar um cronograma anual de aumento de vagas que não acontece. Isso é um descaso com o professor e com os alunos. As reformas na rede municipal são feitas via mutirão, apenas aquelas reformas que pintam as paredes. Goiânia ainda tem 11 unidades de placas de gesso que são muito quentes. Então as creches não colocam as crianças na sala de aula porque esquenta muito e elas ficam a maior parte do tempo no pátio”.

Vereadora Priscila Tejota afirma que a prefeitura recebeu dinheiro do governo federal para CMEIs, mas não usou | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Priscila afirma que o Governo Federal enviou dinheiro ao Paço para refazer essas unidades de gesso em concreto e a Prefeitura não executou as obras.

Além da parte de infraestrutura, a vereadora confirma que há crianças sem uniforme e sem merenda. “A Educação está completamente sofrida. Uma discussão atual é como desarticular os ataques terroristas às escolas. Mas o que vamos discutir? Instalar detector de metais na entrada das escolas que não têm merenda nem uniforme?”, questiona Priscila Tejota.

Outra obra do bairro Jardins do Cerrado que foi abandonada em estágio avançado é a do Centro de Artes e Esportes Unificados (CEU). Também conhecido como Praça Céu pelos moradores, o projeto começou em 2016 e foi esquecido após um ano de trabalho, quase pronto.

No meio do mato estão uma pista de skate para lazer, uma quadra de esporte multiuso e um prédio com uma sala de teatro para 200 espectadores, banheiros e salas recreativas para oficinas e aulas de artes. No complexo também funcionaria um polo de atendimento psicossocial e uma sala reservada para a Polícia Militar de Goiás. A Prefeitura e o Governo Federal prometeram investir R$ 3,8 milhões na obra.

A praça também foi vítima da feroz ação do tempo e de ladrões locais que usam o prédio para consumir drogas. Pequenos traficante usam as paredes internas do teatro com pichações para homenagear os líderes do tráfico de drogas mortos em confrontos com a PM. É comum ver essas frases dentro do prédio, como “luto eterno ao docero”, que foi um jovem traficante do bairro.

Na parede colada à sala de controle de áudio e vídeo do teatro há uma mancha preta e resquícios de colchões queimados no chão, onde dormiram moradores de rua. Os banheiros foram saqueados tanto nos vasos sanitários como nas cerâmicas das paredes. A fiação elétrica pré-instalada nas paredes foi levada. Agora se veem apenas restos de fios nos canos amarelos encontrados no chão e paredes.

A área sede do CEU tem 7 mil metros em obra conjunta com o Governo Federal, por meio do Ministério da Cultura. A construção do Centro integrava o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC 2).

Obra da Praça CEU no Jardins do Cerrado, parada há três anos, virou abrigo para moradores de rua e ponto de tráfico de drogas | Fotos: Fábio Costa/Jornal Opção

O descaso com as obras de CMEIs, porém, não são exclusividade do Jardins do Cerrado.

A reforma do CMEI da Vila Santa Helena, por exemplo, está parada desde a gestão de Paulo Garcia (2013). Uma empresa começou a revitalização da escola, mas não terminou por falta de recursos. A obra consumiu R$ 750 mil com a promessa de ficar pronta em 150 dias, de acordo com a placa informativa na porta da escola. Mas lá se vão cinco anos.

Unidades de Saúde no bairro Jardins do Cerrado abrem as portas para avisar que não têm médicos

A 400 metros daquele CMEI abandonado na porta do pedreiro Billy Marques anos funciona uma Unidade de Atenção Básica à Saúde da Família, na etapa VI. Os funcionários abrem as portas para avisar aos moradores que não há médico e indicar outras unidades mais próximas, como o Centro de Saúde da Família, da etapa IV, que também funciona sem médicos e, por sua vez, indica outras unidades próximas. A distância entre as duas unidades da etapa 4 a 6 chega a um quilômetro.

Na quinta-feira, 21, quando a reportagem esteve no bairro, os dois postos de saúde estavam fechados às 16h30. O presidente da associação dos moradores, Lee Anderson, informou que as unidades sempre fecham antes do horário previsto – às 18h. “Toda vez que um morador chega numa unidade dessas, o recepcionista diz que não tem médico e manda ir ao Conjunto Vera Cruz ou Trindade”.

A reportagem visitou as duas unidades de saúde no Jardins do Cerrado com as portas fechadas às 16h | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Lee Anderson mostrou à reportagem o comunicado da gestora do posto de saúde da etapa 6 no grupo de Whatsapp dos moradores lamentando a saída de um médico. “Bom dia, estou imensamente triste em dizer a vocês que realmente o médico irá sair, pois, como sempre disse, é uma luta muito grande mantermos médicos aqui devido à distância e brigas políticas, pois as pessoas não entendem que benefícios são nossos e não um ser isolado. Esse médico que irá embora fazia atendimentos referentes ao Cerrado seis, parte do sete e todo o dez”, diz o comunicado.

O pedreiro Billy Marques, que mora em frente a ossada do CMEI, levou a filha pequena, de dois anos, do Jardins do Cerrado ao Bairro Buena Vista, a 18,8 quilômetros, pela falta de médico para atendimento nos dois postos perto da sua casa, onde poderia ir a pé.

No Setor Campinas, a situação não é muito diferente. O Centro de Atenção Integrada à Saúde (Cais) está com a ala pediátrica superlotada desde que a Secretaria Municipal de Saúde resolveu centralizar os atendimentos naquela unidade, segundo o representante dos moradores do bairro, Renato Bernardes.

O Cais funciona 24 horas por dia no setor que tem 7 mil habitantes e, em grande parte do dia, com apenas um médico de plantão. O caos se acentua quando ocorre a troca de médicos, entre as 19 horas e as 20 horas, segundo Renato. “Não fica ninguém no atendimento nesse horário. Nos melhores dias, é possível encontrar dois médicos no plantão”.

Gestora de uma unidade de saúde no Jardins do Cerrado comunica a saída de médico por causa da distância e brigas políticas | Foto: Reprodução

Renato denuncia que falta tudo no Cais: luvas, gases, medicamentos para os pacientes, entre outros. Inclusive não há copo para uma pessoa beber água.

O líder comunitário estima que seis médicos no plantão diário atenderiam o Setor Campinas e as regiões próximas de forma mais humana. E a ala pediátrica seria aliviada substancialmente com mais pediatras no plantão. Parte dessa superlotação no Cais deságua no Hospital Materno-Infantil todos os dias quando os pacientes não encontram atendimento para os filhos.

Questionado sobre a presença de Iris Rezende para conversar com moradores do setor e acompanhar os problemas locais, Renato diz apenas que “o prefeito é sumido”.

Comissão de Inquérito
Em 2018, os vereadores de Goiânia apuraram irregularidades e denúncias da saúde goianiense na Comissão Especial de Inquérito. A secretária Municipal de Saúde, Fátima Mrué e o chefe do Paço, Iris Rezende, estiveram em reuniões na Casa Legislativa.

Da época da CEI até a semana passada, vereadores de oposição ao Paço analisam que a saúde piorou. Lucas Kitão contou ao Jornal Opção que havia médicos pediatras atendendo em outros Cais, especialmente na unidade do Jardim Novo Mundo, apesar do atendimento centralizado em Campinas. Nesse tempo, os pediatras dos outros Cais desapareceram.

“Agora fecharam o atendimento pediátrico no Jardim Novo Mundo e concentrou tudo em Campinas. Fizeram isso para simplificar e não deu certo. Por isso o Materno-Infantil está sobrecarregado. Nesse mesmo tempo, existia o posto de saúde do Parque Tremendão, que foi fechado na semana retrasada”, relata Kitão.

Partes destes problemas não se baseiam na falta de verba pública, mas na gestão ineficiente do município, segundo Kitão. “O atendimento psicossocial tem perdido verbas por falta de prestação de contas. A secretária de saúde perdeu R$ 500 mil de verbas para o Samu [Serviço de Atendimento Móvel de Urgência] por falta de prestação de contas e relatórios técnicos”, acrescenta o vereador.

Prefeito inaugura CMEI em funcionamento no Parque Flamboyant | Foto: Reprodução/Instagram

“A saúde nunca melhorou. Vivemos semanalmente fechamento de unidades e outras unidades sucateadas. São sempre os mesmos problemas. Por exemplo, falta bomba de insulina, a Prefeitura compra somente a demanda e depois não consegue atender as crianças que estão cadastradas na fila de espera desde 2016. As denúncias são levemente sanadas e reaparecem todas as semanas”, dispara a vereadora Priscila Tejota.

Na defesa do prefeito, Tiãozinho Porto avalia que a saúde melhorou em vários aspectos, inclusive, desde a semana passada alguns vereadores o procuraram para intermediar contato com Fátima Mrué sobre a falta de pediatras nos Cais. “Imediatamente eu procurei a secretária municipal de saúde para levar a demanda dos vereadores e a situação da população. Sabemos que existe a necessidade de uma atenção especial aos pediatras e a secretária ficou de analisar a forma como vai colocar mais pediatras nos Cais. Existe uma intenção do prefeito de colocar pediatras em todos os sete distritos de Goiânia para que uma criança que mora longe não precise se deslocar até o Cais de Campinas”, reconhece Porto.

Da periferia aos bairros mais ricos da capital, o asfalto cede espaço para buracos

As erosões no asfalto são evitadas diariamente por milhares de motoristas em qualquer região da capital. E não só de buracos vivem as ruas. Lugares periféricos não possuem nem pavimentação asfáltica.

A reportagem visitou áreas nobres da capital, como o Setor Jaó e a Avenida Portugal, no setor Oeste, onde a população de uma classe financeira mais alta também sofre com buracos profundos e extensos há meses.

Buracos profundos na Avenida Portugal, no setor Oeste; Setor Jaó e Jardim Itanhangá | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

Em áreas mais afastadas do Centro de Goiânia, também foram encontrados buracos no Jardim Itanhangá, Jardins do Cerrado, Jardim Itaipu e Real Conquista.

“Quando o Iris assumiu o Paço, Goiânia estava parecendo um queijo suíço, toda esburacada. Ainda tem problemas de buracos. Mas a Secretaria de Infraestrutura está organizando uma operação tapa-buracos em diversos pontos da capital quando passar esse período chuvoso. E não só tapar buracos, mas terminar as obras da Avenida Leste-Oeste e as principais ruas de Goiânia também serão recapeadas”, prometeu o vereador Tiãozinho Porto.

No bairro Jardins do Cerrado, os moradores aguardam a pavimentação das ruas desde 2013. No centro das 11 etapas, a Prefeitura montou um galpão para abrigar os dez tratores e outras máquinas para fazer o asfalto.

Os equipamentos são vigiados por um porteiro que fica sentado num banco de madeira e não quis comentar o caso. Segundo Lee Anderson, o rapaz cuida das máquinas por três anos.

CMEI da Vila Santa Helena | Fotos: Fernando Leite/Jornal Opção

As ruas do bairro deveriam estar asfaltadas desde outubro de 2015, de acordo com o ex-prefeito Paulo Garcia, que esteve na região no dia 10 de junho daquele ano prometendo aos moradores mais de 50 quilômetros de cobertura asfáltica e outros investimentos que ultrapassaram os R$ 38 milhões.

Bairro Jardins do Cerrado deveria ter asfalto pronto desde 2015 | Fotos: Fábio Costa/Jornal Opção

O trabalho de asfaltamento, segundo a Diretoria de Infraestrutura Viária, em 2015, seria complementado com execução de galeria de águas pluviais, sinalizações das vias, construção de um reservatório de amortecimento de vazões e calçadas acessíveis. Se a obra fosse concluída no prazo previsto, o benefício traria mais qualidade de vida a mais de 30 mil famílias residentes nos seis bairros próximos ao Jardins do Cerrado.

Em agosto de 2018, Iris Rezende recebeu uma comissão de moradores do bairro Jardins do Cerrado, incluindo Lee Anderson. Na ocasião, o prefeito disse que planejava também a implantação de novas escolas e CMEIs na região, apesar das três obras paradas. Quando o líder do setor questionou ao prefeito o que seria feito sobre os CMEIs parados, Iris afirmou que iria terminar o processo.

“Asfaltei 134 bairros em meu último mandato como prefeito e não vou deixar uma rua sequer sem asfalto. Não me dedico a mais nada que não seja administração de Goiânia, para que possamos fazer desta cidade a cidade dos sonhos dos nossos moradores”, afirmou o prefeito, em agosto passado, na presença do secretário municipal de Planejamento, Henrique Alves, o ex-presidente da Câmara Municipal, Andrey Azeredo (MDB), o líder do governo no legislativo, Tiãozinho Porto, e o vereador Carlin Café (PPS).

A vereadora Priscila Tejota diz que a Prefeitura revitalizou recentemente áreas e praças em setores valorizados financeiramente, mas com pouco uso dos moradores locais. “Por exemplo, o Paço fez uma revitalização na Avenida República do Líbano, um bairro nobre, mas que ninguém usa a praça. Deixa de fazer num bairro extremamente carente onde tem pessoas que usariam as praças públicas, como as crianças”.

A região Noroeste de Goiânia não tem iluminação pública, como o bairro Vitória e o setor JK não têm asfalto, principalmente nas últimas linhas onde passam os ônibus, diz a vereadora que visitou esses locais há poucas semanas.

“O que o prefeito avalia de infraestrutura é apenas o miolo de Goiânia. É importante, mas não atende a real necessidade dos cidadãos. A Prefeitura revitalizou praças que não precisavam”, lamenta a parlamentar.

Lee Anderson mostra o galpão com tratores parados há três anos | Foto: Fábio Costa/Jornal Opção

Coleta de lixo ineficiente transforma ruas em lixões

O Jornal Opção esteve no setor Crimeia Leste. Algumas ruas sem coleta de lixo há duas semanas estão com sacolas rasgadas e os resíduos que caem no chão alimentam os cachorros de rua com restos de comida podre e fétida. A reclamação virou frequente entre moradores e comerciantes locais.

Na Região Norte da capital, próximo ao campus Samambaia da Universidade Federal de Goiás, foi registrado urubus comendo o lixo abandonado no meio da rua.

Há uns três meses houve problemas nos caminhões da Comurg, diz o vereador Tiãozinho Porto. Alguns carros de coleta tiveram problemas mecânicos, mas o problema foi resolvido, garante o parlamentar.

“Atualmente não escuto mais problemas quanto à coleta de lixo. Tem um projeto na Câmara que libera dinheiro para a Prefeitura comprar novos caminhões e que vai trazer um salto positivo muito grande para a Comurg. O projeto foi aprovado na Casa e a Prefeitura prepara a licitação para comprar esses caminhões”, informa Porto.

O vereador acrescenta que “às vezes um caminhão que estraga já faz uma falta enorme. Mas sempre repassamos os problemas para o prefeito, ele sabe da necessidade da compra de novos caminhões”.

Lixo acumulado nas ruas do setor Crimeia Leste | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Assaltos a ônibus são diários nos pontos do Jardins do Cerrado

Problema crônico, o transporte público municipal em Goiânia proporciona poucos veículos coletivos nos horários de picos dentro dos terminais, normalmente às 6 horas e às 18 horas.

O bairro Jardins do Cerrado 7, por exemplo, tem um ponto de ônibus para 1.080 famílias, segundo o presidente da associação de moradores, Lee Anderson.

A doméstica Maria da Conceição Martins, que pega ônibus no local, relata arrastões diários dentro dos coletivos. “A polícia aparece no setor quando tem reportagem na imprensa sobre a violência. No mesmo dia você vê aquele mar de carros pretos do Bope [Batalhão de Operações Especiais] espalhados pelas ruas. No outro dia já não tem mais nada”, retrata Maria da Conceição.

Lee Anderson contou que um sobrinho de sua esposa teve o telefone celular furtado dentro do ônibus na semana passada.

Além dos assaltos, o desconforto é uma realidade no transporte coletivo. Centenas de passageiros disputam pequenos espaços para conseguir entrar no coletivo no Terminal Recanto do Bosque, um local visitado pela reportagem na quarta-feira, 20.

O estudante Mateus Vieira de Andrade, de 22 anos, não conseguiu entrar no primeiro ônibus que parou no terminal, ficou embolado no meio de outros passageiros quando o veículo já estava acima da lotação permitida. O jeito foi esperar o segundo transporte.

Urubus comem lixo esparramado na Região Norte, próxima ao campus da UFG Samambaia | Foto: Fernando Leite/Jornal Opção

Relatos do estudante se perdem na multidão de reclamações de milhares de passageiros. “Tira foto mesmo. Tem que mostrar isso para todo mundo para alguém tomar alguma providência”, gritaram os passageiros que não conseguiram entrar no ônibus.

“Todo dia é essa superlotação, gente pisando em você, três pessoas tentando ocupar o mesmo espaço dentro do ônibus. Fora os coletivos que quebram na rua e o povo fica horas esperando outro passar”, narra Mateus.

O bairro Jardins do Cerrado 1, 2, 3 e 4 são atendidos por duas linhas que transportam, em média e por dia, 1.160 usuários de ônibus, de acordo com dados da Rede Municipal de Transportes Coletivos (RMTC), de 2017.

Passageiros não conseguem mais subir ao ônibus, extremamente lotado, e aguardam outro coletivo | Foto: Fernando Leite: Jornal Opção

Prefeitura não publica livros do prêmio Hugo de Carvalho Ramos desde 2013

A Prefeitura de Goiânia recebe duras críticas de segmentos artísticos da capital por eventos culturais esquecidos. Um dos principais, o Prêmio Hugo de Carvalho Ramos, que premia escritores locais com dinheiro e a publicação do livro, está parcialmente desassistido.

O presidente da União Brasileira de Escritores (UBE) em Goiás, Ademir Luiz, que edita o prêmio em parceria com a Prefeitura, alega que os livros pararam de ser publicados desde 2013, quando ele mesmo foi um dos ganhadores do prêmio, ainda na administração Paulo Garcia, que fora vice-prefeito de Iris Rezende.

“Os prêmios em dinheiro que estavam atrasados desde 2014 foram pagos, mas nenhum livro mais foi publicado desde aquele ano. A expectativa era publicar o livro no mesmo ano em que o autor ganhou o prêmio. Eu sou um dos ganhadores de 2013 e não tive meu livro publicado”, diz Ademir.

Segundo o escritor, os prêmios foram pagos depois de uma luta ferrenha. Com o Iris Rezende foi demorado porque a UBE precisou resgatar processos perdidos da gestão petista. “Nós tivemos que refazer todo o processo para a coisa andar”, conta.

Para Ademir, o grande problema da cultura municipal é o acesso por parte da população. As atividades são centralizadas e é necessário levá-la aos bairros. “Os eventos culturais que são levados aos bairros mais afastados são atividades de capoeira, rap, ou seja, atividades que já existem nestes lugares. Então não se leva algo diferente. É fundamental trabalhar com novidades, como música erudita e literatura. Falta acreditar nesse público mais periférico. Apenas se leva cultura de gueto para estes grupos”, lamenta Ademir.

A produtora de eventos Marci Dornelas, também diretora de Políticas e Eventos Culturais da Secretaria Municipal de Cultura, produz o evento Goiânia em Cena desde 2003. Nos anos seguintes o evento aconteceu normalmente, mas tendo problemas na execução e perdendo tamanho. Em 2014 e 2015, o evento não aconteceu.

O último evento em 2018 trouxe 41 atrações: uma internacional, seis nacionais, nove grupos de música e 26 grupos de artistas locais compondo a programação com espetáculos, performances, cenas curtas nas linguagens de teatro, dança, circo e música.

Um dos problemas neste evento é o atraso de pagamento no cachê dos artistas, que perdurou por anos, mas, segundo Marci Dornelas, foram todos quitados, inclusive os de 2018. Só de cachês, a produção do evento pagou no ano passado R$ 250 mil aos artistas convidados.

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Caio Maior

Iris representa a “velha política” e seus vícios: obras inacabadas, promessas não cumpridas, esperança frustrada. Inacreditável é o fenômeno recorrente da reeleição desse ente simbólico do atraso.