Enquanto a maioria dos goianienses ainda dorme ou segue a rotina sem perceber, milhares de trabalhadores já estão nas ruas garantindo que a cidade amanheça limpa. Para homenagear esses profissionais, o Jornal Opção preparou uma reportagem especial sobre aqueles que, diariamente, desempenham uma das funções mais essenciais para o funcionamento da capital.

Ao lado dos trabalhadores do Consórcio LimpaGyn, os servidores da Comurg enfrentam uma rotina marcada por esforço físico, exposição ao sol, à chuva, ao trânsito e a inúmeros riscos. Nos últimos meses, casos de garis agredidos durante a coleta de resíduos e de profissionais da Comurg atropelados durante o expediente escancararam a vulnerabilidade de quem trabalha nas ruas. 

Além dos perigos, eles também convivem com o preconceito, a invisibilidade e situações que ferem sua dignidade, como a recusa de moradores e estabelecimentos em permitir o uso de banheiros ou até mesmo de ter acesso a um copo de água para se hidratarem. Apesar dos obstáculos, esses trabalhadores seguem desempenhando um serviço indispensável para a saúde pública, a preservação do meio ambiente e a qualidade de vida de mais de 1,5 milhão de goianienses, muitas vezes sem o reconhecimento que merecem.

“Todo mundo entra, menos nós”, afirmou Edson Cordeiro sobre alguns espaços em Goiânia, que insistem em fechar as portas para estes profissionais. Operador do chamado ‘torinho’ — pequeno equipamento usado na poda de gramados — ele já passou por diversas situações em que teve um copo de água negado. Na ocasião citada, Edson pediu para usar o banheiro de um bar e o proprietário pediu para que ele se retirasse.

Já Renato Rodrigues, gari que se divide entre a Comurg e a paixão pelo skate, falou sobre a invisibilidade do trabalho.

Até parente, quando passa perto da gente e vê a gente de uniforme, finge que não conhece.  

“Não conhece porque ninguém dá atenção. Todo mundo passa na rua e nos vê, mas é simplesmente um gari. Não tem aquela atenção. E, quando a pessoa vê, às vezes nem cumprimenta. Gari é meio invisível nessa parte. A população não enxerga, não”. 

Misaque de Lima tem 42 anos e veio do Pará para Goiânia quando tinha apenas 18. Na Comurg, enfrenta a carga horária das 18h às 06h e, apesar do cansaço, se mantém firme para criar as duas filhas, ao mesmo tempo que sonha em comprar uma chácara para viver a vida com tranquilidade. Além de trabalhar no período noturno da Companhia, ele também faz entregas e, no tempo livre, é atleta, se aventurando nas corridas de rua e no ciclismo.

Eu durmo praticamente quatro, cinco horas no máximo. A vida é assim… a luta não para.

Quando o turno termina e o uniforme da Comurg dá lugar às roupas de treino, Silvana Costa Reis Mafra se transforma. Nas redes sociais, ela é conhecida como Baronesa, personagem que reúne mais de 70 mil seguidores apenas no Instagram e inspira milhares de pessoas com vídeos sobre alimentação, exercícios físicos e fé. Mas, antes de conquistar curtidas e compartilhamentos, ela percorreu as ruas de Goiânia por uma década como coletora de lixo e, hoje, segue trabalhando nas madrugadas, pintando meios-fios. Entre a rotina pesada da limpeza urbana e a influência digital, ela faz questão de lembrar de onde veio e da missão que acredita ter recebido. “Tudo o que eu tenho hoje foi Deus que me deu. Eu não dou um passo sem a direção d’Ele”, afirma, com a mesma convicção que a levou a transformar a própria vida e a inspirar milhares de pessoas.

Aos 59 anos, a supervisora da Comurg, Shirleides Oliveira, conhece a cidade pelas ruas que ajudou a limpar, pelos jardins que cuidou e, principalmente, pelas pessoas com quem construiu uma relação de respeito ao longo da carreira. Mãe de duas filhas, formada em Teologia e prestes a completar 20 anos de serviço na companhia, ela transformou o trabalho em uma missão de vida. Com um jeito acolhedor, conquistou equipes por onde passou e acredita que liderar vai muito além de distribuir tarefas. “Você ganha o servidor com atenção, com carinho. Às vezes, ele só precisa de alguém que o escute”, resume. A mesma dedicação que a fez crescer dentro da empresa também lhe permitiu realizar sonhos, como formar as filhas, comprar o carro e, agora, planejar a casa própria — conquistas que ela atribui ao trabalho e à perseverança.

Andreia dos Santos Andrade está há 20 anos na Comurg. Hoje ela trabalha na varrição, das 16h às 22h. Casada com um colaborador da Companhia, tem dois filhos e conta orgulhosa que o filho Kauê se formou recentemente como enfermeiro em uma universidade pública. 

“Eu formei ele, inclusive, ele é o primeiro da família a se formar. Na foto de formatura, ele segurou o meu chapéu de gari. Foi de muito orgulho, assim, saber que seu filho não tem vergonha de você..”. Ela tenta continuar o relato, mas é interrompida pelas lágrimas. 

Conheça as histórias

A rotina de quem trabalha na limpeza urbana começa muito antes de o primeiro comércio abrir as portas ou de o trânsito tomar conta das avenidas. É quando a cidade ainda desperta que homens e mulheres vestem o uniforme, organizam equipamentos e seguem para praças, canteiros e ruas levando consigo uma missão que raramente aparece aos olhos de quem passa: fazer com que Goiânia amanheça limpa.

O trabalho exige força física, atenção constante e disposição para enfrentar jornadas longas, calor intenso, chuva, poeira e o risco permanente de acidentes. Mas nenhum desses desafios parece machucar tanto quanto outro obstáculo, invisível e cotidiano: o preconceito.

Edson Cordeiro conhece bem essa realidade. Há 15 anos na Companhia de Urbanização de Goiânia (Comurg), ele já passou pela coleta, pela remoção de galhos e, hoje, opera o Giro Zero — equipamento conhecido entre os servidores como “torinho” ou “snipe”, utilizado para a poda de gramados em parques, canteiros e praças. Enquanto conduz a máquina que deixa a cidade mais bonita, guarda lembranças de situações que preferia nunca ter vivido.

Certa vez, precisou apenas usar um banheiro.

Encontrou um bar aberto, entrou e pediu autorização. A resposta veio rápida.

Todo mundo entra, menos nós.

A frase nunca saiu da memória.

Você fica retraído. Tem colega que nem pede mais para usar banheiro porque sabe que vai ouvir um ‘não’. Eu mesmo já passei necessidade porque o banheiro era só para clientes da casa.

Para quem passa o dia nas ruas, encontrar um banheiro ou simplesmente conseguir um copo d’água nem sempre é uma tarefa simples. Muitos trabalhadores relatam que, antes mesmo de falarem qualquer palavra, o uniforme basta para despertar olhares desconfiados.

A sociedade olha muito pela roupa. Se você está bem vestido, é tratado de um jeito. Se está de uniforme de gari, muitos já olham diferente.

Edson divide o tempo entre o trabalho na Comurg, a marceria e a música | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

Apesar disso, Edson não demonstra revolta. Fala pausadamente, sorri com facilidade e faz questão de lembrar das pessoas que fazem o contrário.

Tem muita gente boa também. Tem quem oferece café, água, conversa com a gente. Essas pessoas fazem diferença.

Natural de Imperatriz (MA), ele chegou a Goiânia há mais de duas décadas em busca de oportunidades. Casou-se, construiu uma família e encontrou na Comurg a estabilidade que lhe permitiu abrir uma pequena marcenaria, atividade que exerce durante o dia. À noite, dedica-se ao trabalho na Companhia. Nas horas vagas, troca o maquinário pelo teclado e pelo violão. É músico da igreja e ainda sonha em crescer na marcenaria.

Meu maior sonho hoje é dar uma vida melhor para meus filhos. Tudo o que eu não tive quando era criança, eu procuro dar para eles.

A infância difícil ainda aparece nas lembranças.

“Teve época que carne era só quando meu avô levava. Minha mãe fazia o impossível para cuidar da gente. Hoje, eu converso muito com meus filhos para eles valorizarem o que têm.”

Enquanto Edson encontra tempo para dividir a rotina entre a Comurg, a marcenaria e a música, Misaque de Lima vive praticamente em movimento.

Natural do Pará, ele chegou a Goiânia aos 18 anos acompanhado da família. Encontrou na companhia o primeiro emprego com carteira assinada e, desde então, nunca mais saiu. Hoje, opera o mesmo equipamento utilizado por Edson, mas sua jornada vai muito além das 6h da manhã.

Depois de encerrar o expediente na Comurg, dorme poucas horas, toma café e segue para outro trabalho, como entregador de peças automotivas. Só retorna para casa no fim da tarde, tempo suficiente para descansar quatro ou cinco horas antes de vestir novamente o uniforme.

A vida é assim. A luta não para.

A rotina pesada não é motivo de reclamação. É parte do caminho que acredita precisar percorrer para alcançar aquilo que considera uma vida tranquila.

Meu sonho não é ficar milionário. Meu sonho é comprar uma chácara, perto de um rio, criar meus bichos e viver sossegado.

Enquanto esse dia não chega, ele continua acumulando jornadas.

Misaque de Lima fala sobre o sonho de conquistar uma chácara para criar bichos e sua família | Foto: Oyagy Vieira/Jornal Opção

Nem o cansaço consegue apagar o entusiasmo quando fala dos domingos de folga. São poucas horas dedicadas ao ciclismo ou às corridas de rua, esportes que pratica sempre que consegue encontrar tempo.

“Eu gosto de pedalar, participar das corridas. É quando consigo descansar a cabeça.”

Mas há situações que nem o esporte ajuda a esquecer.

Poucas horas antes da entrevista, Misaque havia sido impedido de usar um banheiro dentro de uma empresa onde buscava o equipamento utilizado pela equipe.

“Mandaram eu sair do banheiro. Disseram que, se continuasse assim, iam proibir a gente de entrar lá.”

Ele respondeu apenas que terminaria o que estava fazendo e iria embora.

“É constrangedor. A gente é ser humano igual qualquer outra pessoa.”

Mesmo assim, evita generalizações.

“Tem muita gente que acolhe a gente, oferece água, café, agradece pelo serviço. Isso também acontece.”

É justamente essa mistura de reconhecimento e invisibilidade que acompanha diariamente quem passa horas cuidando da cidade. Enquanto alguns moradores agradecem pelo trabalho, outros sequer percebem quem está por trás das ruas limpas.

“Gari é meio invisível”

Renato Rodrigues conhece bem essa sensação. Há 17 anos na Comurg, ele resume a experiência em uma frase curta, mas contundente.

Gari é meio invisível.

Renato aprendeu cedo que o uniforme desperta reações diferentes das que recebe quando está sobre um skate. Aos 37 anos, ele divide a vida entre duas paixões aparentemente distantes: durante o expediente, pinta meios-fios, participa da manutenção de praças e ajuda a manter Goiânia organizada. Quando o turno termina, veste o tênis, pega a prancha e volta a ser conhecido entre amigos e competidores como atleta de skate.

Eu me sinto duas pessoas. Ao mesmo tempo que sou gari, sou skatista.

Há quase duas décadas, ele participa de campeonatos, é filiado à federação goiana e continua treinando sempre que encontra tempo entre o trabalho, a família e alguns serviços como serralheiro. O sonho de viver do esporte ficou para trás, mas a paixão permanece intacta.

O skate me ensinou a insistir. Você cai, machuca, tenta de novo. É igual a vida.

A mesma persistência aparece quando fala da rotina na limpeza urbana. Renato trabalhou durante oito anos na coleta de lixo, uma das atividades mais pesadas da Companhia, antes de migrar para a pintura de meios-fios. Foi nesse período que percebeu como o gari costuma passar despercebido pela própria cidade.

Até parente, quando passa perto da gente e vê a gente de uniforme, finge que não conhece.

Renato Rodrigues é skatista fora do turno da Comurg e destaca o preconceito de quem veste o uniforme laranja e verde | Foto: arquivo pessoal

Ele sorri antes de completar.

Na verdade, nem é porque tem vergonha. É porque ninguém olha para o gari. A gente está ali, mas parece invisível.

Ao contrário do que muitos imaginam, diz que também coleciona boas lembranças. Moradores que oferecem café, crianças que acenam, comerciantes que agradecem pelo serviço. Pequenos gestos que tornam a rotina menos pesada.

Quando você termina um serviço e vê a praça limpa, vê o pessoal usando aquele espaço, dá orgulho. Você sabe que fez parte daquilo.

Baronesa foi uma das primeiras mulheres na coleta de lixo de Goiânia

Orgulho também é uma palavra que acompanha Silvana Costa Reis Mafra, embora sua rotina pareça pertencer a universos completamente diferentes.

Durante dez anos ela correu atrás dos caminhões de coleta de lixo. Foi uma das primeiras mulheres a ocupar a função na Comurg, enfrentando jornadas noturnas, chuva, períodos menstruais sem um banheiro por perto e o desafio diário de provar que mulheres também eram capazes de desempenhar aquele trabalho.

Hoje pinta meios-fios durante as madrugadas. Mas, quando o uniforme fica no armário, Silvana assume outra identidade.

Nas redes sociais, ela é conhecida como Baronesa.

Entre vídeos sobre alimentação saudável, exercícios físicos e mensagens de fé, reúne dezenas de milhares de seguidores. Todos os dias grava conteúdos, treina musculação, faz crossfit e responde — quando consegue — às centenas de mensagens enviadas por pessoas que dizem ter mudado de vida depois de conhecer sua história.

Meu maior sonho é levar para outras pessoas aquilo que Deus fez comigo.

Silvana Costa Reis Mafra foi uma das primeiras mulheres na coleta de lixo de Goiânia, mas, nas redes sociais, ela é a Baronesa | Foto: arquivo pessoal

Ela fala sobre Deus como quem descreve um companheiro de caminhada. “Tudo o que eu tenho hoje foi Deus que me deu. Eu não dou um passo sem a direção d’Ele.”

Apesar da projeção na internet, não esquece de onde veio.

Poderia viver só da internet. Já recebi propostas. Mas, se Deus não falar que é para ir, eu não vou.

As lembranças da época da coleta ainda estão vivas.

Eu trabalhava dez anos só com homens. Quando precisava trocar de roupa por causa da chuva ou do período menstrual, não tinha banheiro, não tinha apoio. A gente improvisava.

Mesmo convivendo com episódios de preconceito, prefere não guardar mágoas.

Eu sempre aprendi a lidar com isso. As pessoas olham diferente, mas eu sei quem eu sou.

Formada e prestes a realizar o sonho da casa própria

A experiência de enfrentar barreiras também acompanha Shirleides Oliveira, embora de uma perspectiva diferente.

Ela chegou à Comurg como jardineira. Com dedicação e quase duas décadas anos de trabalho, tornou-se encarregada e hoje ocupa um cargo de supervisão. Lidera equipes espalhadas por diferentes regiões da cidade e acredita que a autoridade se conquista de uma maneira simples.

Você ganha o servidor com atenção, com carinho.

A frase resume a forma como conduz dezenas de trabalhadores diariamente.

Às vezes, ele chega cheio de problemas de casa. Não precisa de alguém brigando. Precisa de alguém que escute.

Foi assim que construiu relações que ultrapassaram o ambiente de trabalho. Quando deixou uma das unidades onde atuava, viu servidores chorarem pela transferência.

Eu comecei a chorar junto com eles.

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Shirleides Oliveira começou como jardineira na Companhia e hoje lidera equipes que vão a campo | Foto: arquivo pessoal

Mãe de duas filhas, formada em Teologia e prestes a realizar o sonho da casa própria, ela faz questão de lembrar que todas as conquistas passaram pela Comurg.

Foi aqui que formei minhas filhas, comprei meu carro e agora estou realizando o sonho da minha casa.

Mesmo ocupando um cargo de chefia, conhece de perto as dificuldades enfrentadas pelos garis.

Conseguir banheiro em alguns bairros ainda é muito difícil. Mas também existem lugares em que o pessoal recebe a equipe com café, pão de queijo, um sorriso. Isso muda completamente o dia.

“Ele foi o primeiro da família a se formar.”

Entre tantos relatos, nenhum emociona tanto quanto o de Andreia dos Santos Andrade.

Há 20 anos na companhia, ela encontrou na varrição muito mais que um emprego.

No começo foi por necessidade. Depois fiquei por orgulho.

Todos os dias percorre o mesmo trajeto entre a Praça Cívica e a Marginal Botafogo. Conhece comerciantes, moradores em situação de rua, servidores públicos e trabalhadores que cruzam seu caminho. Alguns oferecem café. Outros fingem não vê-la.

Nada disso, porém, supera a lembrança de um dia específico.

Ao falar do filho Kauê, enfermeiro formado em universidade pública, Andreia interrompe a entrevista por alguns segundos.

As lágrimas chegam antes das palavras.

Ele foi o primeiro da família a se formar.

Respira fundo. “Na foto da formatura, ele fez questão de segurar meu chapéu de gari.”

A voz embarga novamente.

Foi muito orgulho… saber que meu filho nunca teve vergonha de mim.

Andreia dos Santos Andrade e o filho Kauê | Foto: Diulgação/Comurg

É nessa imagem que talvez esteja o verdadeiro retrato desses trabalhadores.

Antes do amanhecer, eles saem de casa para recolher resíduos, cortar a grama, pintar meios-fios, varrer avenidas e devolver à cidade uma paisagem que poucos percebem ter sido construída durante a madrugada. Enfrentam trânsito, acidentes, calor, chuva e, muitas vezes, o preconceito de quem fecha uma porta ou nega um copo d’água.

Mas voltam no dia seguinte.

Porque sabem que, quando Goiânia desperta e encontra ruas limpas, praças cuidadas e canteiros organizados, existe um pouco da história de cada um deles espalhada pela cidade — ainda que quase ninguém saiba seus nomes.

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