Mulheres presidem apenas quatro dos 30 partidos em Goiás e ainda enfrentam resistência
11 julho 2026 às 21h00

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Mesmo com as mulheres representando 53% do eleitorado brasileiro e 47% das filiações partidárias, segundo dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) referentes a junho deste ano, a presença feminina nas posições de comando dentro dos partidos políticos ainda é escancaradamente pequena.
Para se ter uma ideia, das 30 legendas partidárias com registro ativo na Justiça Eleitoral, apenas quatro são presididos nacionalmente por mulheres: o Democrata, presidido por Suêd Haidar; Psol, por Paula Coradi; Podemos, por Renata Abreu, e PCdoB, liderado interinamente por Nádia Campeão.
Em âmbito regional, o cenário se repete. Em Goiás, apenas quatro partidos têm uma presidente mulher: Adriana Accorsi, do PT; Aava Santiago, do PSB; Cíntia Dias, do Psol e Lilia Monteiro, da Rede Sustentabilidade.
O retrato da baixa participação feminina no poder decisório interno das siglas partidárias se revela ainda mais preocupante quando algumas dessas mesmas presidentes, mesmo tendo o partido nas mãos, vêm a público denunciar um questionamento interno de suas lideranças possivelmente motivado pelo machismo.
É o caso, por exemplo, de Adriana Accorsi, hoje deputada federal e pré-candidata à reeleição. Em nota divulgada à imprensa no final de junho deste ano, a presidente estadual do PT, considerada um dos nomes de maior destaque da esquerda em Goiás e no Brasil, denunciou o que chamou de “grupo de homens” que tentava forçá-la a desistir da reeleição a deputada federal. Sem citar nomes, Adriana apontou que esse grupo “se incomoda com a liderança feminina no partido e com protagonismo de uma mulher parlamentar.”
A declaração, na ocasião, foi uma resposta dura à pressão que Adriana vem enfrentando para recuar da pré-candidatura à reeleição, já lançada, e entrar na corrida ao Palácio das Esmeraldas, o que viabilizaria um palanque forte para o presidente Lula da Silva, pré-candidato à reeleição, em Goiás.

Conforme já noticiado pelo Jornal Opção, Lula chegou a manifestar, em um encontro com a deputada em Brasília, sua vontade de que ela lançasse sua candidatura na chapa majoritária, mas teria dado espaço para que a própria tomasse decisão. Adriana manteve sua posição e, segundo apurado pela reportagem, informou ao presidente nacional do PT, Edinho da Silva, que se manteria na corrida à reeleição.
Ao Jornal Opção, Adriana Accorsi vinculou o episódio ao debate sobre a presença e o protagonismo na política que, segundo ela, está no centro das reivindicações sobre os direitos das mulheres. “A subrepresentação feminina na política é uma violação dos princípios democráticos que dificulta a inclusão de temas essenciais para as mulheres na agenda pública”.
Nós ainda enfrentamos muitas dificuldades com falta financiamento efetivo para campanhas competitivas. Também sofremos com o preconceito e o machismo estrutural, que fazem com que muitos questionem nossa liderança
Segundo ela, isso é um problema inerente as todos os partidos. A diferença, de acordo com a deputada, é que no PT a questão é discutida. “Homens e mulheres, lutamos contra isso e vamos em frente buscando superar as diferenças”, emendou.
Adriana afirmou ainda que o ex-deputado Luis César Bueno é, hoje, o pré-candidato do PT ao governo de Goiás, e que existe uma “grande aliança de partidos progressistas na Frente Democrática para derrotar a extrema-direita, reeleger o presidente Lula e ampliar a bancada” no Congresso.
“Precisamos provar mais, explicar mais e reafirmar nossa capacidade”
Hoje presidente do PSB, a vereadora e pré-candidata a deputada federal Aava Santiago foi filiada e militou por quase duas décadas no PSDB, partido que deixou neste ano de maneira nada amigável.
Após anunciar a saída da legenda tucana sem uma carta de anuência, mas com, segundo ela, “a palavra” do ex-governador e líder do partido, Marconi Perillo, a parlamentar virou alvo de um processo na Justiça Eleitoral por infidelidade partidária, movido pelo próprio PSDB, que pode lhe custar o mandato.
Assim como Adriana, Aava levou a questão para o conhecimento do público. Em um vídeo publicado em março, a vereadora confrontou os tucanos e disse que “no mês em que celebramos as mulheres, um pequeno grupo de homens se reuniu e decidiu que vai tentar tirar o mandato da mulher mais votada da história de Goiânia”.
Mais de três meses depois do vídeo, ao Jornal Opção, Aava reafirmou que a experiência de Adriana Accorsi e a sua revelam que mulheres em posições de liderança “ainda são frequentemente mais questionadas, têm sua capacidade mais colocada à prova e, muitas vezes, enfrentam tentativas de deslegitimação.”

“Nós somos duas mulheres que ocupam espaços de liderança partidária em Goiás e sabemos que chegar a esses lugares ainda exige enfrentar desafios que não deveriam existir. O que eu acredito é que o machismo é uma estrutura presente na sociedade como um todo e a política, infelizmente, reproduz muitas dessas barreiras. Ele não desaparece automaticamente porque estamos em partidos progressistas ou em campos políticos que historicamente defendem mais igualdade”, avaliou.
Ainda de acordo com a parlamentar de Goiânia, a resposta para isso é justamente ampliar a presença feminina nos espaços de decisão. Mas lembrou: liderar um partido é sempre um grande desafio, mas ser mulher em uma posição de comando ainda traz camadas adicionais.
Muitas vezes, nós precisamos provar mais, explicar mais e reafirmar uma capacidade que, para homens em posições semelhantes, costuma ser presumida. Existe uma cobrança permanente sobre a forma como uma mulher se posiciona: se é firme demais, é vista como dura; se busca diálogo, pode ser interpretada como menos forte. Essa régua desigual ainda existe
Contudo, Aava Santiago diz ver que estamos vivendo um momento de transformação. A própria construção do PSB em Goiás, com uma presença feminina cada vez maior, segundo ela, mostra que mulheres estão ocupando espaços de formulação e decisão. “O meu compromisso como presidente é que o partido seja um espaço em que mulheres não estejam apenas presentes, mas tenham voz, autonomia e poder de decisão”, concluiu.
Falta espaço
Presidente da Rede Sustentabilidade em Goiás, Lilia Monteiro, pré-candidata a deputada federal, revela já ter sofrido ataques abertos e outros silenciosos relacionados à questão de gênero. “No próprio contexto das relações com os partidos tivemos um trabalho forte para quebrar a barreira para minha representatividade, inclusive por outras mulheres. Na Rede a participação da mulher esta no DNa do partido, não como coadjuvante mas como protagonista da história política”, diz.
Segundo ela, a própria estrutura política não oferece oportunidade, uma vez que o modelo de política de hoje é “hostil, beligerante e agressivo”. A porta-voz da Rede acredita que tem-se, hoje, uma “política obsoleta”.

“A partir do momento que adotamos uma política de serviço focado na resolução de problemas, as mulheres se sentirao mais atraidas pra este ambiente. Entrar na política pela política não é uma proposta atrativa para nós”, avalia.
Para Lilia Monteiro, para a mudança de cenário é preciso de participação ativa feminina. “3. Não existe outro caminho para aumentar nossa presença. Este foi o caminho que trilhei. Esse espaço não nos será dado gratuitamente. Será resultado de empenho das mulheres para ocupa-lo”.
“Se eu não brigasse, ninguém ia reconhecer o trabalho que estava sendo feito por uma mulher”
Fundadora do Psol em Goiás e presidente estadual reeleita da legenda, Cíntia Dias afirma, em entrevista à reportagem, que precisou enfrentar resistência interna para ter seu trabalho reconhecido. Segundo ela, a dificuldade não desaparece nem mesmo em um partido de esquerda.
“Eu entendi que, se eu não brigasse, ninguém ia reconhecer o trabalho que estava sendo feito por uma mulher. Porque não era por ninguém mais”,diz.
Cíntia relembra que, quando disputou a presidência do partido pela primeira vez, chegou a ser pressionada por lideranças masculinas. “Vários homens, inclusive, me ameaçaram de sair do Psol se eu fosse eleita. Eu fui eleita presidente, e eles ficaram”, contou.
Reeleita para um segundo mandato, ela diz que a resistência persistiu. Segundo a dirigente, mesmo buscando diálogo com diferentes correntes internas para construir sua reeleição, encontrou portas fechadas. “Os homens que são lideranças da maioria não quiseram conversar comigo”, relatou.

Apesar das dificuldades, Cíntia afirma que nunca cogitou desistir. Para ela, mulheres que assumem posições de liderança precisam estar preparadas para enfrentar desafios, inclusive dentro da esquerda.
Eu estou firme, forte, porque acho que as lideranças femininas precisam saber que não é uma tarefa fácil. Nem dentro da esquerda. Mas não é uma tarefa da qual a gente pode desistir. Isso não é uma opção. Para ser mais fácil para as próximas, nós precisamos fazer essa resistência
Na avaliação da presidente do Psol, ter uma mulher à frente do partido também influencia diretamente a formação das chapas eleitorais. Segundo ela, ao longo de todo o período entre eleições, a legenda trabalha para atrair mais mulheres para a militância e para as candidaturas.
“Eu acho que elas se sentem mais seguras, representadas e com a possibilidade de ocupar esses espaços”, afirmou.
Cíntia também destacou que o partido adota critérios de distribuição de recursos voltados à ampliação da diversidade. Como exemplo, explicou que mulheres, pessoas negras e integrantes da comunidade LGBT recebem percentuais adicionais na distribuição dos recursos eleitorais, como forma de incentivar uma representação mais diversa nas candidaturas.
Uma quase-cassação de mandato feminino em nome do incentivo das mulheres na política
Em junho deste ano, a deputada estadual e pré-candidata à reeleição pelo Republicanos, Vivian Naves, teve seu mandato na Assembleia Legislativa ameaçado em um processo de fraude na cota de gênero que tramitou na Justiça Eleitoral.
No entanto, no julgamento de um recurso da ação, o presidente do TSE, Nunes Marques, rejeitou o argumento de fraude. Com um duro discurso contra a falta de mulheres na política, o ministro da Corte disse que não se mostrava razoável ou proporcional a pretexto de fazer valer o incentivo das mulheres na política, fossem cassados os mandatos das poucas candidatas legitimamente eleitas pelo DRAP [demonstrativo de regularidade de atos partidários] investigado sem qualquer relação com o lançamento das candidaturas consideradas fraudulentas.

Vivian, que comemorou a decisão na época, disse à reportagem que ainda há desafios a serem superados no que tange à baixa presença da mulher na política e fez coro às presidentes dos partidos: “é preciso ampliar oportunidades, incentivar novas lideranças e garantir mais participação das mulheres nos espaços de decisão”.
Apesar de não presidir seu partido, o Republicanos – que é liderado por seu marido, Roberto Naves, a deputada afirmou que a participação feminina tem crescido na legenda e destacou sempre ter sido respeitada e valorizada pelo seu trabalho. “As conquistas vieram pelo trabalho e competência, superando desafios comuns da política”, pontuou.
Nem tudo está perdido
Para a advogada, professora universitária e presidente do Podemos Mulher em Goiás, Larissa Lafaiete, apesar da ainda tímida participação da mulher em movimentos e cargos de decisão partidários, o cenário é otimista.
Filiada a um partido considerado de centro-direita, Larissa, afirma ter uma visão muito otimista da participação da mulher na política, e destacou sua própria legenda, presidida nacionalmente por uma mulher, a deputada Renata Abreu. “No nosso partido, a gente já tem um exemplo, um espelho de uma voz feminina muito forte, muito empenhada em fazer políticas públicas para as mulheres. E nós temos uma Secretaria Nacional da Mulher que empodera essas mulheres”.

A presidente do Podemos Mulher também comentou o crescimento do movimento ultraconservador, em democracias como a do Brasil e a de outros países, contra os direitos das mulheres. Correntes da extrema-direita, com representantes na política e na comunicação têm adotado discursos que romantizam a submissão feminina e criticam avanços das mulheres em áreas essenciais da sociedade.
Contudo, para Larissa Lafaiete, a tendência é que o espaço desse tipo de discurso machista diminua com o passar do tempo. “A participação da mulher na política tem crescido muito e ela tem conquistado cada vez mais espaços de decisão. Isso acontece pela união das próprias mulheres, do próprio grupo. A mulher tem se unido para conquistar esse espaço, para conquistar essa voz”, pontuou.
“A gente sabe que hoje as mulheres representam mais de 50% do eleitorado e que a opinião da mulher é decisiva. Então, eu não vejo esse movimento [ultraconservador] como algo que vá crescer. É simplesmente um movimento de preconceito misógino. Não vejo plausibilidade para que cresça, diante do quanto a mulher tem se demonstrado importante no processo democrático”, arrematou.



