Ercília Macedo- Eckel

Patrona e 1ª titular da Cadeira 10 da AFLAG

Fanaticus = inspirado, cheio de entusiasmo; delirante, exaltado, louco, furioso; supersticioso, fanático. Fanum = lugar consagrado, templo onde se recitam fórmulas de consagração. A palavra fanático foi empregada a partir do século XVIII, com o significado de entusiasmado ou exaltado para aquele que se crê possuído por Deus e imune ao erro e ao mal. Isto é, para aquele que não admite refutação de suas ideias e comportamento. Esse entusiasmo é próprio de quem fala em nome do Absoluto, imaginando que suas palavras têm poder de arrebatar o espírito, como no sentido original do termo, usado pelos antigos.

Assim, o fanatismo leva à intolerância, inflexibilidade e atos violentos que “passam do ponto” e põem o convívio familiar e social em risco. Essa adesão cega a um partido ou doutrina exibe um comportamento disfuncional, que não admite refutação, como já foi dito, nem espaço para ideias contrárias. Com o tempo pode transformar-se em distúrbio psiquiátrico, dependendo do prejuízo na vida pessoal e de outras pessoas.

Sinais de fanatismo:

  • reunião ou ajuntamento de pensamentos semelhantes;
  • orações, jejuns, pensamentos mágicos, discursos do tipo monólogo, sacrifícios e até morte para salvar os ignorantes das trevas e do maligno (fanatismo religioso);
  • nacionalismo exacerbado, banalização dos símbolos e cores nacionais, cuidados para salvar o país do caos (fanatismo político);
  • liberdade de expressão deturpada e aviltada, valendo somente para o fanático;
  • resposta única, já estabelecida, para questões polêmicas, pois a ideologia e a crença do fanático são irrefutáveis;
  • pretensão de fazer o que quiser, ainda que seus atos prejudiquem outras pessoas moral, financeira e fisicamente;
  • violência física, com discriminação, ironia e agressões verbais que transcendem os limites do bom senso;
  • possível sintoma de hipomania, transtorno bipolar, esquizofrênico e outros transtornos psicóticos;
  • religiosidade é o único sentido da vida, uma vez que todas as ações do fanático giram em torno da religião e da guerra espiritual, a guerra santa do Bem contra o Mal (fanatismo religioso).

O fanatismo religioso pode levar a delírios paranoicos, delírios de grandeza (eu posso, eu sei tudo), de ser profeta, etc.: “Deus vai punir quem…” “Eu profetizo que…” “O demônio está me seguindo, não tenho paz”. Ou: “Deus me ungiu para ser o escolhido, não preciso de remédios, nem de vacinas”. “Escuto uma voz me dizendo sem parar que um dragão vermelho, da legião de Lúcifer, está sobrevoando o Brasil para ocupar o trono do Absoluto. Organizemos uma multidão permanente para combater esse animal repugnante, inimigo da divindade e do Bem”.

Para esses fanáticos psicóticos não há delírio, nem transtornos mentais. Há muita fé e poder sobrenatural, vindo do Absoluto, sem qualquer relação de limite ou restrição. Portanto poder ilimitado ou infinito, como o do próprio Deus, a Realidade Suprema, o criador do mundo. Assim, os fanáticos se realizam por si mesmos, de modo necessário e infalível. Identificam-se com o Absoluto: seu Eu é como Deus.

Dessa forma, o fanático não reconhece seus excessos, causa problemas para si mesmo, para quem convive com ele e para a sociedade. Torna-se perigoso: reúne grupos para combater “o outro lado” e “exterminar” quem pensa diferentemente dele. O fanático delirante não escuta a família, nem pessoas próximas, e o distúrbio pode acentuar-se com o tempo, provocar o enrijecimento de ideias descabidas e agressivas, disfarçadas no eufemismo liberdade de expressão cujo conteúdo é, na realidade, um disfemismo.

Assim, a radicalização está por trás dos crimes de ódio, de ataques terroristas com armas em punho, bombas, e intervenções malucas organizadas na internet e nas redes sociais. Vejamos algumas consequências:

“O não tratamento (não buscar ajuda) pode fazer com que a pessoa se isole e tenha outros transtornos, como piorar a ansiedade, ou desenvolver depressão, além do risco de uso de substâncias”, afirma Luan Diego Marques, médico psiquiatra da UnB.

De outro lado, segundo o psiquiatra Luiz Fernando, o problema começa quando um grupo de pessoas da mesma fé (ou ideologia), munido de uma suposta superioridade moral e de saber, acredita ter o direito e o dever de dizer ao outro grupo (ou indivíduo) o que ele pode ou não fazer. Uma verdadeira “falta de cerimônia” em intervir na vida do outro e impor seus valores, como uma missão a ser cumprida no mundo (do Bem contra o Mal) – em confronto com dados e fatos incontestáveis da realidade vivida por todos os cidadãos.

Ademais, parece não haver cura para o fanatismo. Ele vem de longe. Desde a degola daqueles que não iam às missas na Noite de São Bartolomeu (1572), antecedida pela santa Inquisição iniciada em 1478, passando pelo nazismo do século XX, pela destruição das Torres Gêmeas (11 set./2001), motivada pela inimizade entre fundamentalistas islâmicos da Al-Qaeda e os Estados Unidos. E, mais recentemente, a morte de Mahsa Amini, de 22 anos (16 set./22) – por violar o código de vestimenta islâmico, quanto ao uso inadequado (solto) do véu.

Outrossim ou também, há de se considerar aqui os sinais religiosos e ideológicos, desde o tempo mais remoto. No Antigo Testamento, as pragas, castigos, livramentos e alianças eram revelados por sinais.

Exemplo de sinal a favor, positivo:

(Disse Deus): “Porei nas nuvens o meu arco; será o sinal da aliança entre mim e a terra.” (Gênesis 9: 13. /Arco = arco-íris)

(Disse o SENHOR a Moisés e a Arão) – “executarei juízo sobre todos os deuses do Egito: Eu sou o SENHOR. O sangue (o vermelho) vos será por sinal nas casas em que estiverdes (…) e não haverá entre vós praga destruidora”.

(Êxodo 12: 12-13, por volta do século V a. C., baseado nas tradições escritas e orais mais antigas.)

No Novo Testamento:

“… e eis que a estrela que (os magos) viram no Oriente os precedia, até que, chegando, parou sobre onde estava o menino (Jesus).” (Mateus 2: 9.)

Sinal contra e negativo, mais contemporâneo e atual:

A “estrela de judeu”, de seis pontas, sobre fundo amarelo, nos peitos e nas residências semitas, constituiu-se sinal ou símbolo de discriminação e morte de aproximadamente seis milhões de judeus na Alemanha nazista, entre 1933 e 1945.

No entanto, essa “estrela de judeu” tem sua origem na estrela de Davi que, desde 1948, figura na bandeira de Israel.

Mas, voltando ao penúltimo parágrafo, quase metade dos eleitores brasileiros não aceitou ou não aceita o resultado das urnas para presidente, nesse ano de 2022. Então, nesse contexto e analogamente ao comportamento nazista, alguns erguem o punho fechado para o alto e muitos cantam o hino nacional com a mão estendida à altura do rosto. Também solicitam que os empresários, eleitores de Lula, coloquem a estrela vermelha do partido nas fachadas das lojas e empresas – notícia vinda de Casca, Rio Grande do Sul.

Tal sugestão de boicote lembra o boicote surgido na Alemanha, em que os próprios comerciantes judeus eram obrigados a exibir cartazes com os dizeres: “Não compre de judeus”. O Brasil já aderiu a essa ideia e redigiu o seu cartaz, onde li:

“A partir de hoje veja onde você vai gastar seu dinheiro. Vamos comprar e usar serviços somente de quem pensa como nós.” (=“Não compre de lulistas.”)

Também e previamente, há de se eleger um inimigo comum em momento de crise. Um bode expiatório – os judeus, como no surto psicótico coletivo da Alemanha. Quem no Brasil? Os nordestinos. Mas também podem ser os negros e presidiários, gays, deficientes físicos e mentais, ciganos, comunistas, e Testemunhas de Jeová. Esses últimos por se recusarem a prestar o serviço militar.

Enfim, o fanatismo exalta e diviniza ideologias políticas e os líderes que as representam. Entretanto, em alguns casos, a palavra fanatismo perdeu a conotação negativa da Antiguidade e passou a significar fidelidade a toda prova, ignorando objeções e limites que ela (fidelidade) implica.

Dessa forma e como já foi dito, o fanatismo político se assemelha ao fanatismo religioso, uma vez que o indivíduo, ou líder, com sua ideologia, assume o lugar de Deus, detentor da sabedoria e da verdade absolutas. Então, o fanatismo político passa a ser uma virtude, com sua fidelidade forte, pois ignora limites e pensamentos opostos. Contudo, essa fidelidade aparentemente forte é na realidade muito frágil. No primeiro aperto a enfrentar, ou diante de oportunidades e vantagens oferecidas, ela (fidelidade) se transforma em seu contrário, isto é, em traição: Judas Iscariotes trocou Jesus por trinta moedas de prata, o preço de um escravo. (Mateus 26: 14-25 e 48). Pedro negou Cristo três vezes, próximo ao Sinédrio, o Supremo Tribunal dos antigos judeus: Não sei o que dizes. Não conheço tal homem. Não conheço esse homem. (Mateus 26: 69-75). Caso fosse hoje, logo apareceriam fotos e vídeos de Pedro abraçado com o Mestre ou ao lado dele, em várias situações. E nos quatro evangelhos.

Realmente a fidelidade é muito frágil, e o fanatismo político e religioso dela decorrente, perigoso e vulnerável.

Nasceu, por acaso, em Palmeiras de Goiás, Goiás. Considera-se Vilaboense

Aprendeu a ler aos cinco anos, na fazenda, com a avó materna. Mestre em Letras e Literatura Brasileira e professora por vocação, lecionou em Anápolis, Goiânia e Curitiba, no ensino fundamental, colegial e universitário.

ATIVIDADES CULTURAIS – Tomou posse na AFLAG, em 9 de novembro de 1970. Seu currículo e trabalho de apresentação como acadêmica estão publicados no Anuário 1970. Freqüenta regularmente a Academia; tem poemas e crônicas publicados em todas os anuários e nas últimas revistas da Entidade. Tem palestras e poemas gravados no MIS da AFLAG. Teve um de seus poemas dramatizado no Teatro Guaíra, de Curitiba. Publica seus textos (poesias, crônicas, ensaios) nos periódicos locais e no jornal O Vilaboense.

São seus livros Um contista goiano, estudo pioneiro sobre os contos de Bernardo Élis – 1968, e Maíra: reescrita e dessacralização do mito, 2000, ensaio sobre o romance Maíra, do antropólogo Darcy Ribeiro. É verbete em enciclopédias e dicionários biobibliográficos de escritores goianos e brasileiros. É também membro da UNIÃO BRASILEIRA DE ESCRITORES – SEÇÃO DE GOIÁS e Professora contratada da UEG, unidade de Caldas Novas.

Obras publicadas:

Um contista goiano, estudo pioneiro sobre as obras de conto de Bernardo Élis, 1968; Maíra: um ensaio e dessacralização do mito, ensaio parodístico do sacrifício indígena no Brasil pela catequese, 2000; Quarta dimensão, poesia, 2005; Portais da viagem: contos, crônicas, reflexões, 2019; Redação passo a passo, 2023; Gaveta Literária apontamentos e seminários esquecidos, 2025. Ercília também é autora de ensaios, crônicas e poemas publicados na internet, em jornais, revistas, antologias de Goiás e de outros estados.

A coluna Prosas em Artes é uma colaboração de Andréa Luísa Teixeira e Dani de Brito.

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