Nelly Alves de Almeida

Patrona e 1ª titular da cadeira 31 da AFLAG

… E surgiu o livro, com força de premiar-se.

Na estrutura sadia, no aspecto formal,

na mensagem que retrata o quadro social

de uma época longínqua

o valor que o fez maior.

Para confirmar-lhe a grandeza

basta evocar-lhe, na beleza estilística,

na pureza de uma linguagem sadia,

as figuras que o enredo animam,

e que, embora ” elos da mesma corrente”,

são tão diversas, tão contraditórias!

Da presença digna de Alfredo Vilhem — o pai

à de Ângela, mãe – modelo, vai

um desfilar imenso de personalidades várias

vivendo cada qual a sua sorte…

da altivez de tia Eugênia, a conselheira,

passamos ao amor de Arabela,

entremeado de ciúme e de ternura

por seu Antônio rebelde e inteligente,

ansioso pelo fascínio da mucama — mulher.

Assistimos ao fim de Maria Clara, a frágil rival,

levada pela crueza da morte

como um sonho que se quebra ante o impossível.

Passeando o pensamento pela vastidão de Santa Lúcia,

vemos a relva de pelúcia,

as pastagens, o gado, a gruta

onde o orgulho da filha predileta, Isabel,

(que a própria vida encheu de fel),

ia chorar, baixinho, o amargor das desilusões…

e donde teve a visão dolorosa

do beijo alucinante de Marcelo e Carolina.

É doce a presença da capela, sempre bela,

de flores perfumadas enfeitada.

Trazendo alegria constante à juventude feliz

de Cristina, Ruth, Judith, Valéria, Tereza, Madalena,

(esta lutando por Mário, no fogo de uma paixão que alucina)

Sente-se até um cheiro estranho de banzo

no agir,

no sentir,

no falar

de Anastácia, Custódia, Chica, Teodora,

(Hilário traindo,

Zenóbia roubando

o amor de Sinhá),

Quina, Mariinha, Pupi

que escravos nasceram.

Depois, de Vila Boa a lembrança viva,

das noites de gala

no Palácio do Conde dos Arcos…

as valsas românticas, os ricos vestidos ,

as moças garbosas,

as festas ruidosas…

Da angústia crucial de Juliana,

alucinada, sofrendo e amando

ao marido temperamental,

o grito de ponto final

à vida de martírio e de dor.

E o livro caminha para a cena alarmante

do mundo chegando ao fim…

Lavínia, a orfã querida, se indo…

Marcelo morrendo,

ilusões se acabando,

realidade surgindo,

mas Santa Lúcia de pé! Isabel

sozinha, forte, desafiando a vida

e aguardando a chegada

sonhada de Alfredo Vilhem!

Rosarita:

“Elos da mesma corrente”

Trouxe-lhe triunfo, trouxe-lhe glória.

Prêmio também de Goiás,

suas páginas ficarão retidas no tempo

num testemunho de seu valor

que se inunda da essência pura

das conquistas serenas e eternas!

Nelly Alves de Almeida


Natural da fazenda Cachoeira, no município de Jaraguá, Goiás, nascida em 1º de outubro de 1916. Faleceu em Goiânia, em 5 de dezembro de 1999. Fez os primeiros estudos no Colégio Santana de Goiás. Bacharelou-se em Línguas Neolatinas pela UCG, dedicando-se ao magistério. Membro titular e co-fundador desta Academia, tomou posse na AFLAG em 9 de novembro de 1970. Seu currículo e um trabalho, em área literária, estão publicados no Anuário 1970. Acadêmica atuante, participou de quase todos os anuários, com crônicas ou trabalhos de análise filológica, atividade em que se especializou, ao longo de sua vida. Faz parte do Museu de Imagem e Som da AFLAG. Foi vice-Presidente da Academia até 1994, quando, por problemas de saúde, afastou-se da Diretoria. Foi membro da União Brasileira de Escritores, Seção de Goiás, da Academia Goiana de Letras, da Associação Goiana de Imprensa e do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Recebeu inúmeros diplomas, medalhas e troféus, que se encontram em seu memorial, na AFLAG. Emprestou seu nome a auditórios, salas e bibliotecas.

Obras publicadas:

  • Estudo sobre quatro regionalistas, 1968, com 2ª edição, 1985;
  • Hugo de Carvalho Ramos, ensaios;
  • Bernardo Elis, ensaios;
  • Carmo Bernardes, ensaios;
  • Mário Palmério, ensaios;
  • Presença literária de Bernardo Elis, 1970;
  • Estudo sobre a crase, 1970;
  • Estudo sobre lingüística, 1970;
  • Estudo sobre análise sintática, 1970;
  • Análise literária de Jurubatuba,1972;
  • Tempo de Ontem, 1972;
  • Análise de Homens de Palha, 1973;
  • A fala Roseana, 1973;
  • Análises e Conclusões, 2º vol., 1988.

A coluna Prosas em Artes é uma colaboração de Andréa Luísa Teixeira e Dani de Brito.

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