A participação dos jovens na política enfrenta um cenário de perda de espaço nas urnas e dentro das estruturas partidárias. Enquanto novas lideranças tentam conquistar postos de poder, o número de candidaturas juvenis diminuiu nos últimos anos e transformar uma candidatura em mandato continua sendo mais difícil para quem está no início da trajetória política. Em Goiás, o movimento também aparece entre os eleitores: o estado perdeu mais de 6 mil jovens de 16 e 17 anos entre as eleições de 2024 e 2026.

É nesse contexto que o estudante de odontologia Samuel Mendes Tavares de Souza, de 23 anos, candidato a deputado estadual pelo PSB, e a estudante de Direito Maria Júlia Ferrari, de 20 anos, candidata a deputada federal pelo PT, entram na disputa eleitoral. Em entrevistas ao Jornal Opção, os dois defendem maior participação da juventude na política e relatam as barreiras enfrentadas por quem tenta ocupar, ainda jovem, espaços de decisão.

O cenário descrito pelos candidatos encontra respaldo na pesquisa “Juventudes e Participação Partidária: o que dizem os jovens sobre os partidos?”, da Legisla Brasil. O levantamento combina dados do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) com a experiência de pessoas envolvidas diretamente com a política partidária. A etapa qualitativa contou com 94 jovens de 18 a 29 anos e 62 entrevistas em profundidade com integrantes de 16 partidos de diferentes correntes ideológicas. 

Os resultados contestam a explicação de que a baixa presença juvenil nos cargos eletivos decorra simplesmente da falta de interesse. Entre 2020 e 2024, as candidaturas de pessoas de 18 a 29 anos caíram 36%, mais que o dobro da redução de 15% observada entre as demais faixas etárias.

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A dificuldade continua depois que o jovem consegue entrar na disputa. Em 2024, a taxa de sucesso eleitoral das candidaturas de pessoas entre 18 e 29 anos foi de 11,9%, contra 14,4% entre os candidatos mais velhos. A desvantagem apareceu nos quatro ciclos analisados pela pesquisa, entre 2018 e 2024. 

Nas eleições municipais de 2020, os jovens representavam 8,7% das candidaturas e 6,8% dos eleitos. Em 2024, a participação dessa faixa etária entre os eleitos caiu para 5,6%. 

Goiás perde mais de 6 mil jovens eleitores

O recuo também aparece entre os eleitores mais novos de Goiás. Dados da Justiça Eleitoral mostram que 61.116 adolescentes de 16 e 17 anos estão aptos a votar nas eleições de 2026. Nas eleições municipais de 2024, eram 67.387. A diferença representa 6.271 jovens a menos, queda de 9,31%.

A redução foi mais intensa entre os adolescentes de 16 anos. O contingente passou de 26.044, em 2024, para 22.309 neste ano, recuo de 14,34%. Entre os eleitores de 17 anos, a queda foi de 6,13%, passando de 41.343 para 38.807.

Os jovens dessas duas idades correspondem a aproximadamente 1,2% dos 5.080.755 eleitores aptos a votar em Goiás. Para adolescentes de 16 e 17 anos, o voto é facultativo.

O cenário estadual se soma a uma tendência de redução da presença juvenil nas próprias legendas. Segundo a pesquisa da Legisla Brasil, cerca de 1% dos eleitores de até 24 anos é filiado a algum partido. Entre 2014 e 2024, o contingente passou de aproximadamente 415 mil para 180 mil, queda de cerca de 57%. No mesmo intervalo, o número total de filiados no país ficou praticamente estável, passando de 15,3 milhões para 15,4 milhões. 

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O estudo faz, porém, uma distinção: redução da participação partidária não significa necessariamente afastamento da política. Jovens continuam participando por meio de movimentos sociais, coletivos, associações e redes. O que diminuiu foi especificamente o vínculo com os partidos. 

Samuel critica descrédito relacionado à idade

Samuel Mendes afirma que decidiu disputar uma cadeira na Assembleia Legislativa de Goiás por acreditar que os jovens ainda não são levados a sério na política e foram, durante anos, tratados como “bobos” dentro desse ambiente.

Para ele, conquistar espaços de poder pode servir não apenas para transformar sua própria trajetória, mas também para ampliar oportunidades para outros jovens.

Mesmo sem mandato, Samuel afirma viver integralmente dedicado à política por meio da Casa da Juventude, projeto que fundou em Anápolis e que desenvolve ações de qualificação e inserção no mercado de trabalho.

“Entrar na política foi uma oportunidade de transformar a minha vida, mas também a vida de outras pessoas que não se sentiam levadas a sério”, afirmou ao Jornal Opção.

O candidato também critica a atenção destinada pelas candidaturas tradicionais às demandas da juventude. Segundo Samuel, Goiás nunca teve uma estrutura de juventude suficientemente expressiva, enquanto projetos destinados a esse público ainda seriam escassos e pouco efetivos.

“Sempre utilizam projetos sociais baratos, mas que não mudam a vida de ninguém. É só olhar os projetos que os deputados propõem para a juventude, é quase zero”, disse.

Entre os principais problemas enfrentados pelos jovens, Samuel aponta o descrédito relacionado à idade e a dificuldade de acesso à qualificação e ao emprego. Segundo ele, mesmo depois de capacitados, muitos não conseguem a primeira oportunidade profissional.

Para tentar enfrentar o problema, a Casa da Juventude firmou parceria com a Brainfarma e criou o projeto Brainfarma Qualifica. Segundo Samuel, a iniciativa já encaminhou 48 jovens aprendizes ao mercado de trabalho.

“Conseguimos resolver dois problemas de uma vez só: a falta de mão de obra qualificada e a ausência de oportunidades para os jovens”, explicou.

A aproximação de Samuel com a política começou ainda no ensino médio, quando participou de representações estudantis. Na universidade, segundo ele, a experiência reforçou a percepção de que a juventude permanece sub-representada.

“Estando dentro da universidade também me fez repensar a importância de estar mais próximo da política, porque continuamos tendo deficiência de representatividade”, afirmou.

Caso seja eleito, Samuel pretende priorizar pautas relacionadas à diversidade, direitos humanos, saúde, cultura e educação.

“Educação, cultura e diversidade são o que me norteiam como pessoa e como ser humano”, declarou.

Partidos reconhecem juventude, mas poder ainda é limitado

As dificuldades apontadas pelo candidato aparecem também na pesquisa nacional. O levantamento da Legisla Brasil conclui que as legendas reconhecem suas juventudes, criam estruturas partidárias e convocam jovens para campanhas, mas essa participação nem sempre é acompanhada de influência nas decisões, recursos eleitorais ou apoio das lideranças. 

Dos 18 partidos analisados preliminarmente, todos possuíam juventude organizada e 15 previam essa estrutura em seus estatutos. Apenas sete, entretanto, garantiam à juventude direito a voto na direção nacional. Somente um assegurava estatutariamente orçamento ao segmento e nenhum mantinha mecanismo específico para financiar candidaturas jovens. 

A percepção também aparece entre os próprios jovens ouvidos. Dos 79 que responderam sobre medidas que poderiam aumentar o engajamento, 51 indicaram maior espaço de decisão. Formação política foi mencionada por 43, apoio financeiro ou bolsa por 38 e mentoria de lideranças por 37. 

O financiamento é outro gargalo. Em 2020, 23,3% dos candidatos jovens receberam algum recurso partidário, ante 25,3% dos demais. A principal diferença estava no valor: enquanto uma candidatura jovem recebeu, em média, R$ 7.609, o montante entre os candidatos mais velhos chegou a R$ 15.019. 

Maria Júlia quer mostrar que jovem “tem que ocupar os lugares”

Aos 20 anos, Maria Júlia Ferrari surge como uma das vozes mais jovens da política goiana. Feminista e socialista, a estudante de Direito afirma que a candidatura também tem como objetivo mostrar a capacidade de sua geração para ocupar espaços de poder.

“Eu acho que a ideia aqui é de fazer essa campanha… Eu quero fazer uma campanha bonita, me projetar nessa carreira política, e mostrar a capacidade jovem. Mostrar que o jovem tem voz, ele pode ocupar lugares, ele tem que ocupar os lugares”, disse.

A trajetória partidária de Maria Júlia começou antes mesmo de ela atingir a idade mínima exigida para disputar uma cadeira na Câmara dos Deputados.

“Comecei no PT com 17 anos. Eu me filiei com 17 anos. Daí eu comecei a participar dos movimentos sociais. Eu sou secretária adjunta da JPT municipal, também sou multiplicadora do ‘Elas por Elas’, que é um programa da Secretaria Estadual das Mulheres do PT”, explicou ao Jornal Opção.

A candidata afirma que a participação em movimentos sociais ajudou a consolidar sua identificação com a política.

“Eu sempre fui uma militante, sempre participei dos movimentos sociais ali. Quando tinha evento, eu sempre estava presente. Eu estagiei na Câmara. Então era uma coisa que eu me sentia pertencente”, acrescentou.

Entre as propostas, Maria Júlia coloca a educação como uma das principais prioridades para a juventude.

“O principal problema que o jovem enfrenta hoje é acesso à educação de qualidade”, disse.

Além da educação, ela cita transporte público, meio ambiente e segurança das mulheres como pautas que pretende levar para a campanha.

“Goiás vem apresentando um aumento de feminicídio significativo em relação aos outros estados do país. Meio ambiente também é uma pauta importantíssima. Eu uso transporte público e eu sei como é difícil usar o transporte público”, afirmou.

Experiência na Câmara influenciou formação política

A passagem pela Câmara Municipal de Goiânia também teve influência na decisão de Maria Júlia de seguir na vida política. A estudante afirma que acompanhou de perto a rotina do Legislativo durante aproximadamente um ano.

“Eu estive acompanhando as sessões plenárias, eu participei de fazer os documentos. Eu sou estudante de direito. Eu estive muito presente durante um ano numa trajetória política. Eu cheguei uma pessoa crua na Câmara e quando eu estive presente lá dentro, eu aprendi o que que era política. Eu aprendi que era escutar o povo, eu aprendi que era participar, ter uma voz ativa”, contou.

Apesar de considerar a pouca idade um diferencial, Maria Júlia diz não querer que os 20 anos sejam o único argumento de sua candidatura.

“Minha idade é algo que chama atenção, talvez seja um diferencial, mas eu não quero que isso seja o único argumento. Eu quero também que o meu diferencial seja: eu sou uma pessoa muito aberta para escutar as pessoas e eu acho que um bom político tem que ter isso”, explicou.

A candidata relaciona parte de sua visão política à própria experiência na educação. Segundo ela, a mudança de uma escola pública para uma instituição particular durante o ensino médio expôs diferenças de oportunidades entre os estudantes.

“Eu estudei a minha vida toda em uma escola pública. E aí, quando eu entrei no ensino médio, eu fui para uma escola particular e eu tive um choque de realidade gigantesco. Foi quando eu percebi como as oportunidades vinham de maneira diferente para as pessoas. E eu comecei a ser uma pessoa muito crítica. O pensamento que eu mais me encaixei foi o pensamento progressista. Foi o partido que eu me encontrei, foi o PT. Foi o partido que me acolheu”, disse.

Primeiro mandato é um dos maiores obstáculos

A dificuldade de entrar pela primeira vez em um cargo eletivo é outro ponto destacado pela pesquisa. Entre os jovens que disputaram uma cadeira de vereador em 2024, os estreantes tiveram taxa de sucesso de 9,3%. Entre aqueles que já ocupavam a cadeira e buscavam a reeleição, 64,6% venceram. Apenas 3,9% dos candidatos jovens, porém, chegaram à eleição já ocupando um mandato. 

Os dados ajudam a dimensionar o desafio enfrentado por candidaturas como as de Samuel e Maria Júlia. A conclusão da pesquisa é que a baixa presença juvenil nos espaços de decisão não pode ser atribuída exclusivamente aos próprios jovens. Regras de composição das chapas, distribuição de recursos e o espaço concedido pelas legendas interferem no caminho entre a militância, a candidatura e a eleição. 

Para Maria Júlia, independentemente do desempenho eleitoral em 2026, a candidatura não deve representar o fim de sua trajetória na política.

“O meu objetivo com essa candidatura é me projetar politicamente. Eu quero continuar. Eu acho que a política é ajudar as pessoas, ouvir as pessoas, é uma coisa que me faz bem. Para mim é uma coisa que me deixa muito feliz. Então, independentemente do resultado, é uma coisa que eu vou continuar”, finalizou.

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