Vozes Femininas — Lena Castello Branco: historiadora, cronista e intelectual das humanidades
11 julho 2026 às 21h01

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Elizabeth Abreu Caldeira
Natural de Parnaíba (PI), Lena Castello Branco Ferreira de Freitas nasceu em 1929. Fixou-se em Goiânia no final da década de 1940, consolidando uma trajetória marcada pela docência, pela pesquisa histórica e pela reflexão literária. Doutora em História e professora titular da Universidade Federal de Goiás, destacou-se não apenas como historiadora e pesquisadora, mas como intelectual orgânica no sentido gramsciano (Gramsci, 2001), atuando em múltiplas frentes institucionais e culturais.
Exerceu cargos de relevância acadêmica e administrativa, como a Direção do Instituto de Ciências Humanas e Letras da UFG; a assessoria do reitor da mesma universidade; a atuação junto ao Ministério da Cultura e ao Iphan; coordenando o Projeto Alcântara (MA); além de ter sido Diretora-Geral do INEP/MEC. Sua inserção em instituições culturais e científicas foi igualmente expressiva: membro da Academia Goiana de Letras; da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás; do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás; da Sociedade Brasileira de Pesquisa Histórica; da Sociedade Brasileira de Educação Comparada (da qual foi sócia-fundadora); da Sociedade Brasileira de História da Medicina (também, sócia-fundadora), além de integrar a Associação Nacional de Professores Universitários de História.

Sua obra acadêmica e literária articula História, Literatura e Memória, revelando um olhar interdisciplinar que, como observa Ercília Macedo-Eckel (2010), inscreve-se na tradição da escrita que “mescla a narrativa histórica com a literária, explorando a ficção sem perder o rigor da investigação” (p. 87). Tal perspectiva encontra ressonância na concepção de Paul Ricoeur (2007), para quem a memória e a narrativa são dimensões indissociáveis da experiência histórica.
Entre suas publicações, destacam-se “Arraial e Coronel — Dois Estudos de História Social” (1979), premiado com o Clio de História Social; e “Poder e Paixão — A Saga dos Caiado”, que recebeu menção honrosa do prêmio Pedro Calmon do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.
A obra acadêmica e literária da doutora em História Lena Castello Branco articula história, literatura e memória, revelando um olhar interdisciplinar que se inscreve na tradição da escrita que “mescla a narrativa histórica com a literária”
Segundo o doutor em história Nasr Fayad Chaul (2015), o estudo sobre os Caiado, desenvolvido ao longo de mais de uma década, “recupera não apenas a trajetória de uma família, mas ilumina dimensões fundamentais da vida política, cultural e social de Goiás, assegurando a abertura para a memória do outro” (p. 134). Tal afirmação dialoga diretamente com Halbwachs (2006), ao tratar da memória coletiva como espaço de reconstrução social e simbólica.

A cronista do cotidiano
Sua atuação foi igualmente reconhecida em vida: recebeu o título de Cidadã Goiana (2015) e seu nome figura em antologias e dicionários biobibliográficos nacionais. Em 2018, estreou como cronista em “O Popular”, inaugurando sua colaboração com a crônica “Recomeçando”, em que reflete sobre o ato de escrever e sobre a função da crônica como gênero híbrido, “alimentando-se em parte da verdade, em parte da imaginação e, outro tanto, da emoção”. Ao fazê-lo, retomava uma linhagem de cronistas brasileiros que, como Antonio Candido (1992) assinala, dão voz ao cotidiano, preservando fragmentos da experiência coletiva.
O impacto de sua trajetória foi sintetizado por diferentes críticos e intelectuais. Dentre eles, destacamos: Ercília Macedo-Eckel (2010) afirmou que Lena Castello Branco transita com naturalidade entre a História e a Literatura. Afiança que em sua obra há o compromisso com a interdisciplinaridade de forma fecunda. Já Nasr Fayad Chaul (2015), professor e doutor em História, pontua a consistência que fundamenta suas pesquisas. Destaca a importância de seu trabalho para que a história política e social de Goiás seja compreendida. Quanto ao enfoque da construção e da preservação da memória goiana, Lincoln Tejota (2023) acrescenta a importância de sua “atuação como guardiã de tradições e processos históricos regionais”.

Por mais de seis décadas, em efervescente criação e pesquisas, Lena Castello Branco construiu um legado que ultrapassa o domínio da historiografia. Como cronista, inscreveu-se no espaço da sensibilidade e da memória pessoal e, como historiadora, deu rigor e densidade à compreensão da história regional e nacional. Sua obra, ao mesmo tempo, científica e literária, confirma a observação de Michel de Certeau (1982): “A escrita da história é sempre também uma escrita do tempo vivido”.
Doutora em História, Lena Castello Branco Ferreira de Freitas faleceu em 23 de outubro de 2023. Deixou uma contribuição duradoura à história, à literatura e à cultura goiana e brasileira. Heranças perenes que hão de ultrapassar a cal de nossos dias, nossa contemporaneidade.

Publicações de Lena Castello Branco
1
“Arraial e Coronel — Dois Estudos de História Social” (1978).
2
“Uma Família na História” (1967).
3
“A Educação no Brasil” (1981).
4
“Perspectiva Histórico-Cultural do Idoso no Brasil no Século XXI” (1996).
5
“Saúde e Doença em Goiás — A Medicina Possível: Contribuição à História da Medicina em Goiás” (1999).
6
“Goiânia: Locus Privilegiado de Saúde” (1999).
7
“Mulheres: sombras tênues da história” (1998).
8
“Médicos Europeus na Província de Goiás” (2000).
9
“Poder e Paixão — A Saga dos Caiado”, vol. 1 e vol. 2 (2009).
10
“Novilha de Raça e Outros Contos” (2009).
11
“Antes do Pôr do Sol — Entre a Ficção e a Realidade” (2019).
Elizabeth Abreu Caldeira Brito, psicóloga e escritora, é mestra em Letras e Críticas Literárias. Vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e ex-presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag). É colaboradora do Jornal Opção.



