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Poema de Akhmátova escrito no ano do assassinato de Nicolai Gumiliov

Astier Basílio

De Moscou

No dia 23 de junho, foi aniversário de nascimento de Anna Akhmátova. Nascida em 1889, em Odessa como Ana Gorenko, adotou o pseudônimo que a tornou conhecida mundialmente quando começou a escrever poemas. Ela teve como o seu primeiro mestre Nicolai Gumiliov, seu primeiro marido e idealizador do movimento literário acmeísmo, escola literária essencialmente russa que surgiu no modernismo em meio a tantas linhas estéticas inspiradas em tendências do estrangeiro como o simbolismo e o futurismo.

Além de Akhmátova e do marido, também fez parte do movimento o poeta Óssip Mandelstam. A poeta morreu em 5 de março de 1966.

Apresento aqui a tradução que fiz de um poema seu escrito no ano do assassinato de Gumiliov, em 1921, que, à época já era o seu ex-marido.

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Anna Akhmátova na pintura de Amadeo Modigliani | Foto: Reprodução

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Poema de  Anna Akhmátova

Tu pensavas também sou assim

Era só me esquecer, que eu já caio

Num suplício, num choro sem fim

Sob os cascos de um cavalo baio.

Ou que eu ia até curandeiras

Pedir água em raiz de feitiço,

E um presente bizarro te espera

O meu lenço com cheiro vivíssimo.

És maldito. Sem dor, sem olhar,

Sua alma em desgraça nem noto,

No jardim ao anjo eu vou jurar

E a um ícone a quem me devoto

Pela bruma ardente do ar

Para ti nunca mais é que eu volto.

[Julho de 1921, Tsarskoye Selo]

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Anna Akhmátova: poeta múltipla que nunca cedeu ao stalinismo | Foto: Reprodução

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Um poema da fase madura

Anna Akhmátova teve uma vida relativamente longa, se compararmos com os seus companheiros de geração. Morreu com 76 anos. Teve tempo ainda de ter ao lado de si um núcleo de jovens talentosíssimos, entre os quais Evguêni Rein e ninguém menos que o prêmio Nobel de Literatura Joseph Brodsky.

Compartilho aqui a tradução que fiz de um dos seus poemas da fase mais madura.

Jardim de verão

Àquele único jardim, ir ter com as rosas eu quero,

Onde fica neste mundo a mais bela cerca de ferro.

É onde as estátuas lembram de mim ainda mocinha

E eu lembro delas na água que no Nievá ia e vinha.

No silêncio perfumado em meio tílias reais

Mastros de nau me parecem que assombram em sons e ais

E o cisne, como antes, através dos séculos posa

Observando a beleza que está presente em seu sósia.

Dormem na morte mil passos, num mesmo espaço contíguo,

De amigos de inimigos, de inimigos e amigos.

E à procissão de sombras sem fim se alastra no espaço

Desde a urna de granito até o portão do palácio.

Lá as minhas noites brancas com os seus sussurros vêm

Falando sobre o amor grande e secreto de alguém.

E tudo em madrepérola e jaspe mantém sua forma acesa

Porém a fonte de luz secretamente está presa.

[1959]