Amartya Sen e Uma Casa no Mundo: o economista da Índia que venceu o mercado
11 julho 2026 às 21h01

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Salatiel Soares Correia
Especial para o Jornal Opção
Amartya Sen nasceu em 3 de novembro de 1933, na Índia, em um ambiente familiar marcado pelo estímulo intelectual e pela valorização do conhecimento. Oriundo de uma família de classe média, teve no pai, doutor em Química, e no avô materno, profundo conhecedor da filosofia hindu e da tradição cultural indiana, duas influências decisivas para sua formação. A combinação entre o rigor científico herdado do pai e a reflexão humanista transmitida pelo avô ajudou a moldar uma personalidade inquieta, sensível e aberta ao conhecimento.
Não é exagero afirmar que essa dupla influência lançou as bases que permitiriam ao jovem estudante destacar-se, posteriormente, na prestigiosa Universidade de Cambridge. Ali, Sen desenvolveu uma trajetória acadêmica brilhante, marcada pela originalidade de suas pesquisas e pelo interesse em compreender as causas da pobreza, da fome e das desigualdades sociais.
Ao longo de décadas, suas investigações ampliaram os horizontes da ciência econômica, aproximando-a de questões éticas e humanas. Seus estudos sobre desigualdade de renda, bem-estar social, pobreza, fome e desenvolvimento humano transformaram-se em referências mundiais, culminando com a conquista do Prêmio Nobel de Economia em 1998.
Trata-se de um dos intelectuais mais influentes do século XX e do início do século XXI: Amartya Sen. É a partir de seu livro de memórias, Uma Casa no Mundo, que convido o leitor a fazer um voo panorâmico sobre a vida desse grande humanista.
Mais que um livro de memórias
Mais do que um simples livro de memórias, Uma Casa no Mundo constitui uma fascinante viagem pela história, pela cultura e pelas contradições da Índia. Ao percorrer suas páginas, o leitor encontra não apenas a trajetória pessoal de um dos maiores intelectuais do século XX, mas também um amplo retrato de uma civilização milenar, rica em tradições, conhecimento e diversidade, embora marcada por profundas desigualdades sociais.

Nascido em um ambiente familiar fortemente influenciado pela vida acadêmica, Amartya Sen teve sua formação moldada por personagens decisivos. Seu pai, Ashutosh Sen, respeitado professor universitário e pesquisador com sólida formação científica, estimulou desde cedo o desenvolvimento do pensamento analítico e da curiosidade intelectual do filho. Seu avô materno, Kshiti Mohan Sen, renomado estudioso da cultura indiana, exerceu influência igualmente marcante ao direcionar o neto para o estudo do sânscrito, idioma clássico da Índia, com mais de três mil anos de história, responsável por preservar parte significativa da herança filosófica, literária e religiosa do país.
Essa formação ocorreu em Santiniketan, uma das mais tradicionais instituições educacionais da Índia, fundada pelo poeta e Prêmio Nobel de Literatura Rabindranath Tagore. Concebida como alternativa ao ensino rígido herdado do período colonial britânico, Santiniketan valorizava o contato com a natureza, o diálogo entre culturas, o humanismo e a liberdade intelectual. Mais tarde, a instituição daria origem à Universidade Visva-Bharati, tornando-se um dos mais importantes centros de difusão da cultura indiana moderna.
Foi nesse ambiente singular que o jovem Amartya Sen absorveu valores de tolerância, pluralismo e respeito à diversidade cultural, princípios que marcariam profundamente sua produção intelectual.
Ao reconstituir sua infância e juventude, o autor conduz o leitor por alguns dos episódios mais dramáticos da história do sul da Ásia. Entre eles, destacam-se as tensões entre hindus e muçulmanos, a partição do antigo domínio britânico e os acontecimentos que, décadas mais tarde, culminariam na criação de Bangladesh. Esses conflitos provocaram uma das maiores tragédias humanitárias do século XX, resultando na morte de centenas de milhares de pessoas e no deslocamento de milhões de habitantes.
As memórias de Sen também oferecem uma oportunidade singular para compreender a longa dominação do Império Britânico sobre a Índia. Com olhar crítico e humanista, o autor analisa os impactos econômicos, sociais e culturais do colonialismo, revelando como a exploração colonial contribuiu para aprofundar a pobreza e as desigualdades que marcariam o país por gerações.
Mais do que narrar acontecimentos pessoais, Uma Casa no Mundo permite compreender como a convivência com a riqueza cultural indiana, o incentivo intelectual de Ashutosh Sen, a formação humanista transmitida por Kshiti Mohan Sen e a experiência educacional em Santiniketan moldaram a visão de mundo do futuro economista.
A observação direta da fome de Bengala, das desigualdades sociais, dos conflitos religiosos e dos desafios enfrentados pela Índia durante a transição para a independência forneceu a matéria-prima de suas reflexões acadêmicas.
Dessa combinação entre experiência de vida, sólida formação cultural e rigor intelectual nasceram as ideias que transformariam a economia do desenvolvimento. Ao longo de sua trajetória, Amartya Sen demonstrou que a verdadeira riqueza das nações não pode ser medida apenas pela renda, mas também pela liberdade e pelas oportunidades disponíveis às pessoas. Essas contribuições o transformaram em uma das maiores referências mundiais nos estudos sobre pobreza, desenvolvimento humano e justiça social.
Celso Furtado, Amartya Sen e o Nobel
Antes de prosseguirmos neste voo panorâmico sobre a vida desse notável intelectual indiano, parece oportuno estabelecer uma breve comparação entre dois dos mais importantes economistas do século XX: o brasileiro Celso Furtado e o indiano Amartya Sen.
Ambos passaram pela prestigiosa Universidade de Cambridge, um dos mais influentes centros de formação de economistas do mundo. Celso Furtado, sem dúvida o economista brasileiro de maior projeção internacional, tornou-se referência obrigatória quando o tema é desenvolvimento e subdesenvolvimento econômico. Seu pioneirismo foi decisivo para a compreensão dos mecanismos que perpetuam o atraso econômico na América Latina. Sua obra mais conhecida, Formação Econômica do Brasil, permanece como um dos grandes clássicos das ciências sociais brasileiras.
Convém recordar que Furtado foi ministro do Planejamento no governo de João Goulart e destacou-se internacionalmente por suas contribuições originais à teoria do desenvolvimento. Durante décadas, seu nome figurou entre aqueles que poderiam alcançar o Prêmio Nobel de Economia, distinção que nunca veio, embora seu prestígio acadêmico tenha ultrapassado fronteiras.

Amartya Sen, por sua vez, foi laureado com o Prêmio Nobel de Economia em 1998 pelos excepcionais trabalhos desenvolvidos ao longo de sua carreira. Suas pesquisas contribuíram para transformar a compreensão do desenvolvimento econômico. Para Sen, crescimento econômico e desenvolvimento não são sinônimos. Uma sociedade pode enriquecer e, ainda assim, manter parcelas significativas de sua população privadas de educação, saúde, liberdade e oportunidades.
Foi a partir desse novo olhar que surgiu uma das mais importantes mudanças conceituais das últimas décadas. Em colaboração com o economista paquistanês Mahbub ul Haq, Sen ajudou a inspirar a criação do Índice de Desenvolvimento Humano — IDH —, instrumento adotado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento para medir o progresso das nações para além da simples renda per capita.
Se Celso Furtado revelou ao mundo os mecanismos históricos que produzem o subdesenvolvimento, Amartya Sen ampliou a discussão ao demonstrar que o verdadeiro desenvolvimento consiste na expansão das capacidades humanas e das liberdades individuais. São contribuições distintas, mas complementares, que continuam a influenciar economistas, formuladores de políticas públicas e estudiosos em todo o mundo.
Cambridge e a economia como ciência moral
No livro de memórias “Uma Casa no Mundo”, Amartya Sen não aparece apenas como um economista em formação, mas como um intelectual que atravessou mundos culturais distintos: a Índia marcada pela tradição milenar, pela pobreza, pela fome e pela divisão política; e a Inglaterra universitária, onde encontrou uma das atmosferas intelectuais mais fecundas do século XX. Cambridge, naquele período, não era simplesmente uma universidade de prestígio. Era um verdadeiro laboratório mundial de ideias econômicas, políticas, filosóficas e históricas.
Ao chegar a Cambridge, Sen encontrou um ambiente raro, formado por professores e pensadores que não tratavam a economia como mera técnica de mercado. A economia ali era discutida como ciência social, como reflexão sobre produção, distribuição, pobreza, justiça, liberdade e desenvolvimento.
Era o lugar de Piero Sraffa, economista brilhante, crítico da tradição marginalista e responsável por uma renovação profunda do pensamento clássico. Era também o ambiente de Nicholas Kaldor, um dos grandes nomes do keynesianismo e da teoria do crescimento; de Joan Robinson, intelectual poderosa, crítica e heterodoxa, uma das maiores economistas do século XX; e de Maurice Dobb, marxista sofisticado, estudioso do capitalismo, da planificação e da história econômica.

A esse grupo podem ser acrescentados Richard Kahn, colaborador próximo de Keynes e importante formulador do conceito de multiplicador, e James Meade, economista de enorme prestígio, que também receberia o Prêmio Nobel de Economia. Cambridge reunia, portanto, tradições diversas: keynesianos, marxistas, neoclássicos críticos, historiadores econômicos e estudiosos do desenvolvimento. Era uma universidade onde a divergência intelectual não empobrecia o debate; ao contrário, dava-lhe densidade.
Nesse mesmo ambiente circulava o notável historiador Eric Hobsbawm, uma das grandes inteligências do século XX. Hobsbawm ajudava a ampliar o horizonte interpretativo de uma geração que compreendia que a economia não podia ser separada da história, da política, das classes sociais, das revoluções, das desigualdades e dos impérios. Para um jovem vindo da Índia, país recém-saído da dominação britânica e profundamente marcado pela fome, pela pobreza e pela pluralidade cultural, Cambridge ofereceu a Sen não apenas instrumentos teóricos, mas também um campo de confronto entre diferentes formas de compreender o mundo.
Sen não chegou a Cambridge como uma mente vazia. Levava consigo a experiência indiana: Santiniketan, Tagore, a cultura bengali, a percepção da fome, da violência comunitária, da desigualdade e dos limites de uma economia que mede riqueza sem medir sofrimento humano. Cambridge deu a essa experiência uma poderosa formação teórica ocidental. Ali, Sen pôde amadurecer uma pergunta decisiva: de que vale o crescimento econômico se ele não amplia as liberdades concretas das pessoas?
Essa pergunta atravessaria toda a sua obra. Por isso, o reconhecimento da Academia Sueca, em 1998, não foi um prêmio a um economista convencional. Foi o reconhecimento de uma obra que renovou a economia do bem-estar, a teoria da escolha social, os estudos sobre pobreza, desigualdade e fome. A própria Fundação Nobel destacou que Sen contribuiu de maneira decisiva para problemas fundamentais da economia do bem-estar, da distribuição, da pobreza e das fomes coletivas.
Nesse ponto, sua trajetória mostra a força da combinação entre vivência histórica e rigor analítico. Sen não estudou a pobreza como quem observa números frios em uma planilha. Ele a compreendeu como experiência humana, como privação de capacidades, como negação de oportunidades reais. Sua economia nasce da matemática, da filosofia moral, da teoria social e da observação concreta do sofrimento humano.
É interessante lembrar que, nesse universo intelectual de Cambridge, também esteve o brasileiro Celso Furtado. Segundo a Academia Brasileira de Letras, Furtado realizou estudos de pós-graduação em Cambridge em 1957, como fellow do King’s College. O Senado brasileiro registra que ele passou o ano letivo de 1957-1958 no King’s College, a convite de Nicholas Kaldor, período em que escreveu Formação Econômica do Brasil.
Celso Furtado foi, sem dúvida, um dos maiores economistas do desenvolvimento no século XX. Como Sen, recusou uma economia reduzida ao mercado. Como Sen, compreendeu que desenvolvimento envolve cultura, história, estrutura produtiva, desigualdade e transformação social. A diferença é que Amartya Sen recebeu o Prêmio Nobel; Celso Furtado, embora tivesse grandeza intelectual para figurar entre os laureados, não recebeu essa distinção. Daí a imagem feliz: Amartya Sen marcou o gol; Celso Furtado bateu na trave.
Essa comparação não diminui Furtado. Ao contrário, engrandece os dois. Sen levou ao centro da economia mundial a questão das capacidades humanas e das liberdades substantivas. Furtado levou ao centro do pensamento latino-americano a compreensão histórica do subdesenvolvimento. Ambos pertencem à linhagem dos economistas que perceberam que a economia, quando perde contato com a vida humana, transforma-se em contabilidade sem alma.
Por isso, Cambridge foi decisiva na trajetória de Amartya Sen. Não porque tenha fabricado artificialmente seu talento, mas porque ofereceu a ele o ambiente ideal para transformar intuição moral, experiência histórica e formação cultural em teoria econômica rigorosa. Naquele clima de extraordinária fertilidade intelectual, Sen consolidou o conhecimento teórico da economia ocidental sem abandonar a sensibilidade adquirida em sua Índia natal. O resultado foi uma obra original, humanista e tecnicamente poderosa, capaz de convencer a rigorosa Academia Sueca de que a economia também deve ser julgada por sua capacidade de compreender e enfrentar a miséria humana.
A economia do subdesenvolvimento
O ambiente intelectual de Cambridge, tão fértil quanto conflituoso, foi decisivo para a formação de Amartya Sen. A universidade não lhe ofereceu apenas aulas formais, mas um verdadeiro campo de batalha teórico, no qual se discutiam desenvolvimento, desigualdade, planejamento, liberdade econômica, justiça social e o papel do Estado. A convivência com pensadores de posições tão distintas ajudou Sen a construir uma visão própria, distante tanto do liberalismo puro quanto do marxismo dogmático. Foi nesse cruzamento de ideias que amadureceu sua reflexão original sobre pobreza, fome, escolha social, liberdade e desenvolvimento humano.
Sen chegou à Inglaterra trazendo uma ampla experiência intelectual e humana adquirida na Índia, onde havia convivido de perto com a pobreza, a fome, a desigualdade e os efeitos sociais do subdesenvolvimento. Essa vivência o levou a se interessar por temas que ainda não despertavam grande entusiasmo em parte do ambiente acadêmico de Cambridge. Ao tentar desenvolver sua tese doutoral em torno de questões sociais inovadoras, encontrou resistências. Em suas memórias, relata que não conseguiu convencer o corpo docente de Cambridge a se interessar pela escolha social ou a incentivá-lo a trabalhar em algo relacionado a esse tema.
Até mesmo Joan Robinson, economista brilhante e de renome mundial, com quem Sen mantinha boas relações pessoais, mostrou-se cética diante de seu interesse. Segundo ele relata, Robinson teria reagido de forma taxativa, afirmando que aquele era um “assunto morto”. A frase revela o quanto a originalidade de Sen ainda não encontrava pleno reconhecimento naquele ambiente intelectual. O jovem economista, contudo, não se deixou intimidar. Ao contrário, persistiu no caminho que julgava essencial para compreender os dilemas mais profundos das sociedades pobres.
Recusa das simplificações ideológicas
Amartya Sen não aceitava a ideia simplista de que crescimento econômico e desenvolvimento fossem a mesma coisa. Para ele, era um equívoco imaginar que primeiro se deveria fazer a economia crescer para somente depois distribuir os frutos desse crescimento. Esse argumento, tão repetido em países subdesenvolvidos, inclusive no Brasil, ficou conhecido pela fórmula de “fazer o bolo crescer para depois dividi-lo”. Sen via nessa concepção uma falácia perigosa, pois justamente nos países pobres a necessidade de boa saúde, boa educação e oportunidades sociais se torna mais urgente.
Em outras palavras, esperar o enriquecimento nacional para só depois investir nas pessoas significa condenar gerações inteiras à exclusão. A pobreza não é apenas falta de renda; é também falta de capacidades, de oportunidades, de acesso à educação, à saúde, à participação social e à liberdade de escolha. Por isso, Sen insistia que o desenvolvimento deveria ser pensado a partir da vida concreta dos seres humanos, e não apenas por meio de indicadores abstratos de produção e renda.
Essa independência intelectual também se manifestou em sua postura diante do ambiente ideológico de Cambridge. Embora estivesse cercado por debates intensos entre economistas de direita e de esquerda, Sen não se deixou aprisionar por nenhum dos dois campos. Não desejava ser apenas mais um combatente no velho embate entre liberalismo e marxismo, nem pretendia reduzir os problemas do subdesenvolvimento a fórmulas ideológicas previamente estabelecidas.
Sua preocupação era outra. Sen queria compreender, com rigor intelectual e sensibilidade humana, por que sociedades pobres permaneciam presas à fome, à desigualdade, à exclusão educacional e à ausência de oportunidades. Para ele, a economia não poderia ser apenas uma disputa entre escolas rivais, nem um exercício abstrato de modelos matemáticos afastados da vida concreta das pessoas. A economia deveria servir para iluminar os dramas reais da existência humana.
Visão própria do desenvolvimento
Foi nesse contexto que Amartya Sen se aproximou de um dos mais importantes economistas da área do desenvolvimento: o professor Peter Bauer. Embora Bauer fosse identificado com posições liberais e crítico das políticas convencionais de ajuda ao desenvolvimento, Sen não o tratou como adversário ideológico. Ao contrário, reconheceu nele um intelectual de extraordinário talento, capaz de pensar os problemas do desenvolvimento com originalidade, independência e profundidade.

Em suas memórias, Sen expressa admiração e respeito por Peter Bauer. Ao se referir a ele, afirma que Bauer era, “de longe, o mais talentoso professor de economia do desenvolvimento do mundo”. Essa frase revela muito da grandeza intelectual de Sen. Mesmo discordando de Bauer em vários pontos, ele não deixou que as diferenças ideológicas impedissem o reconhecimento do mérito intelectual do outro. Para Sen, o verdadeiro pensamento nasce justamente desse confronto respeitoso entre ideias distintas.
A importância de Peter Bauer na formação de Amartya Sen não se deu apenas em salas de aula ou em textos acadêmicos. Ela ocorreu também em inúmeros encontros informais, em conversas prolongadas, muitas vezes acompanhadas de um simples café. Esses diálogos ajudaram Sen a refinar suas próprias posições. Bauer, com sua visão crítica em relação ao planejamento estatal excessivo e às políticas de desenvolvimento conduzidas de cima para baixo, obrigava Sen a examinar com mais cuidado suas próprias convicções.
A grandeza de Amartya Sen está no fato de que ele soube aprender com quem pensava diferente. Sua humildade intelectual permitiu-lhe ouvir Bauer com atenção, sem abdicar de suas preocupações sociais. Sen não se converteu ao liberalismo econômico de Bauer, mas também não ignorou suas críticas. Ao contrário, incorporou ao seu pensamento a necessidade de avaliar com cuidado os limites do Estado, os riscos da burocracia, a importância da iniciativa individual e o papel das liberdades econômicas.
Desse modo, a convivência com Peter Bauer contribuiu para afastar Sen das simplificações ideológicas. Ele percebeu que o desenvolvimento não poderia ser reduzido nem ao mercado absoluto nem ao Estado absoluto. O mercado podia ser importante, mas não bastava. O Estado podia ser necessário, mas não era infalível. Entre esses dois polos, Sen construiu uma interpretação mais sofisticada: o desenvolvimento deveria ser entendido como ampliação das liberdades humanas.
Essa posição revela a originalidade de seu pensamento. Amartya Sen não se contentou em repetir os dogmas da direita nem os dogmas da esquerda. Sua obra nasceu da tensão criativa entre diferentes tradições intelectuais. De um lado, aprendeu com os críticos do mercado que a desigualdade, a fome e a pobreza não podem ser ignoradas em nome do crescimento econômico. De outro, aprendeu com pensadores liberais, como Peter Bauer, que a liberdade individual, a iniciativa e a crítica ao paternalismo estatal também são dimensões importantes da vida social.
Foi exatamente essa capacidade de dialogar com pensamentos opostos que permitiu a Sen construir uma das mais influentes teorias do desenvolvimento do século XX. Em vez de perguntar apenas quanto uma economia cresce, ele passou a perguntar que tipo de vida as pessoas podem realmente viver. Em vez de medir apenas renda, produção e riqueza, passou a examinar capacidades, oportunidades, saúde, educação, participação social e liberdade.
Assim, a experiência de Cambridge, longe de aprisioná-lo no confronto ideológico entre direita e esquerda, serviu para ampliar seu horizonte intelectual. Amartya Sen saiu desse ambiente com uma convicção ainda mais forte: o desenvolvimento verdadeiro não se resume ao crescimento do produto interno bruto, nem à simples expansão do mercado, nem à ação isolada do Estado. Desenvolvimento é, acima de tudo, a criação de condições para que os seres humanos possam viver com dignidade, escolher seus caminhos e realizar suas potencialidades.
O economista que derrotou o mercado
Ao final da leitura de “U”ma Casa no Mundo”, livro de memórias de Amartya Sen, fica a impressão de que estamos diante de um intelectual que, de certo modo, venceu o mercado. Mas é preciso compreender bem o sentido dessa afirmação. Sen não venceu o mercado porque o tenha negado por completo, nem porque tenha defendido sua eliminação da vida econômica. Ele o venceu porque recusou a ideia de que o mercado pudesse ser transformado em medida absoluta da vida humana.
A grandeza de Amartya Sen está justamente nessa recusa. Para ele, o desenvolvimento de uma sociedade não pode ser avaliado apenas pela renda, pelo crescimento do produto interno bruto, pela eficiência econômica ou pela expansão da produção material. Esses elementos são importantes, mas insuficientes. Uma sociedade pode crescer economicamente e, ainda assim, manter milhões de pessoas presas à fome, à ignorância, à doença, à exclusão e à ausência de oportunidades reais.
É nesse ponto que Sen ultrapassa a visão estreita do mercado. Em sua trajetória, narrada em “Uma Casa no Mundo”, a economia aparece sempre ligada à vida concreta das pessoas. Sua infância na Índia, sua formação em Santiniketan, sua convivência com a pobreza, sua percepção da fome e das desigualdades sociais fizeram dele um economista diferente. Antes de ser um teórico dos números, Sen tornou-se um pensador da condição humana.
A conclusão mais importante que se pode extrair do livro é que a vida intelectual de Amartya Sen nasceu do encontro entre experiência e reflexão. Ele não chegou às suas ideias apenas por abstração acadêmica. Chegou a elas porque viu de perto o sofrimento produzido pela desigualdade, pela fome, pelo colonialismo e pela falta de liberdade. Sua economia não nasce de uma planilha fria, mas de uma pergunta moral: que tipo de sociedade permite que seres humanos sejam privados das condições mínimas para viver com dignidade?
Por isso, Sen desloca o centro da discussão econômica. O essencial deixa de ser apenas o funcionamento do mercado e passa a ser a ampliação das capacidades humanas. Desenvolver uma sociedade significa ampliar as liberdades reais das pessoas: liberdade para estudar, trabalhar, alimentar-se, cuidar da saúde, participar da vida pública, escolher seus caminhos e construir uma existência com sentido. Nesse aspecto, sua obra se afasta tanto do liberalismo econômico simplificador quanto do estatismo autoritário. Sen não troca um dogma por outro. Ele procura construir uma visão mais humana, mais complexa e mais justa do desenvolvimento.
Ao longo do livro, percebe-se também que Sen não se deixou aprisionar pelo velho confronto ideológico entre direita e esquerda. Em Cambridge, conviveu com economistas liberais, keynesianos, marxistas e críticos da economia ortodoxa. Ouviu, dialogou, discordou e aprendeu. Mas sua originalidade consistiu em não se tornar prisioneiro de nenhuma dessas correntes. Sua obra nasce justamente dessa independência intelectual. Ele não queria servir a uma ideologia; queria compreender os problemas reais da humanidade.
Nesse sentido, dizer que Amartya Sen venceu o mercado significa reconhecer que ele venceu uma forma empobrecida de pensar. Venceu a ideia de que a riqueza material basta para definir o progresso. Venceu a crença de que a liberdade econômica, sozinha, resolve as injustiças sociais. Venceu a ilusão de que o ser humano pode ser reduzido a consumidor, produtor ou agente racional interessado apenas em maximizar vantagens individuais.
Sen recolocou o ser humano no centro da economia. Essa talvez seja a maior conclusão de Uma Casa no Mundo. A economia, para ele, só tem sentido quando serve à vida. O mercado pode produzir bens, estimular trocas e gerar riqueza, mas não pode substituir a ética, a justiça, a educação, a saúde, a democracia e a liberdade. Quando o mercado se apresenta como senhor absoluto da sociedade, Sen lhe impõe um limite: acima da eficiência econômica está a dignidade humana.
Ao final do livro, o leitor compreende que Amartya Sen não foi apenas um economista premiado com o Nobel. Foi um pensador formado pela Índia, amadurecido em Cambridge e projetado para o mundo por uma obra originalíssima. Seu pensamento ajudou a mudar a maneira de medir e compreender o desenvolvimento, influenciando diretamente uma visão mais ampla do progresso humano, na qual indicadores como saúde, educação e qualidade de vida passaram a ter importância decisiva.
A grande lição de “Uma Casa no Mundo” é que o verdadeiro desenvolvimento não se resume ao crescimento da economia, mas à expansão da vida. Uma sociedade desenvolvida não é apenas aquela que produz mais, exporta mais ou acumula mais riqueza. É aquela que permite que seus cidadãos tenham oportunidades reais de viver melhor.
Por isso, ao terminar a leitura dessas memórias, permanece a imagem de um homem que atravessou fronteiras geográficas, culturais e intelectuais sem perder de vista os dramas fundamentais da humanidade. Amartya Sen venceu o mercado porque mostrou que o mercado deve ser instrumento, nunca finalidade. Venceu porque demonstrou que a economia, quando separada da ética, torna-se incompleta. E venceu, sobretudo, porque fez da liberdade humana o verdadeiro critério do desenvolvimento.
Salatiel Soares Correia é engenheiro, administrador de empresas, mestre em energia pela Unicamp. É membro titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás. Autor de 10 livros relacionados aos temas energia, economia e desenvolvimento regional. É colaborador do Jornal Opção.
Esclarecimento ao leitor
O autor da resenha fez uso da inteligência artificial em dois momentos: na correção do texto e na reconstituição do ambiente acadêmico encontrado por Amartya Sem quando chegou à Universidade de Cambridge para realizar seus estudos de graduação e pós-graduação — mestrado e doutorado — naquela prestigiada instituição de ensino e pesquisa.



