Elizabeth Abreu Caldeira Brito

Especial para o Jornal Opção

[O dicionário contém cerca de 700 verbetes com uma análise crítica da obra de cada autora. Está disponível no formato online em https://abre.ai/diciovozesfemininasgo.]

A trajetória de Ana Lins dos Guimarães Peixoto Bretas (1889-1985), consagrada nacionalmente como Cora Coralina, fez de sua palavra um gesto de pertencimento e de lirismo. Nascida na Cidade de Goiás, no dia 20 de agosto de 1889, tornou-se, ao longo do século XX, um dos mais luminosos patrimônios culturais do Estado e do país. Sua poética, marcada pelo lirismo telúrico, pelos afetos comunitários e pelo olhar atento às margens, dialoga com teorias críticas que investigam o cotidiano como campo de potência estética à maneira de Walter Benjamin, que vê na vida miúda os rastros de uma história mais profunda, e de Theodor Adorno, que reconhece na arte a voz do humano que resiste às fissuras do mundo (Adorno, 1983) e ainda a Liev Tolstói sobre pintar sua aldeia para ser universal.

Iniciada na escrita ainda jovem, no jornal “A Rosa”, Cora colaborou, em 1910, com o “Anuário Histórico e Descritivo do Estado de Goiás”, demonstrando desde cedo a vocação para a observação sensível da sociedade à sua volta. Afastou-se de Goiás por 45 anos, retornando apenas em 1965, ano em que publicou “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais”, aos 75 anos. Sua inauguração revelou ao país sua voz poética singular. Houve em sua trajetória uma consagração que, apesar de tardia, não reduziu a grandiosidade de sua obra. Ela foi a primeira mulher a receber o Prêmio Juca Pato (1983), com “Vintém de Cobre – Meias Confissões de Aninha”.

A partir dos 90 anos de idade, contrariando expectativas sociais e biográficas, intensificou sua produção: publicou “Meu Livro de Cordel e Estórias da Casa Velha da Ponte”, sendo laureada em diversos estados brasileiros. Tornou-se membro fundador da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás – Aflag, em 1969; integrou o Museu da Imagem e do Som – MIS. Da instituição, recebeu o Troféu Jaburu, além do título de Doutora Honoris Causa pela UFG. Em 1984, tomou posse na Academia Goiana de Letras.

Cora Coralina faleceu em Goiânia, em 1985, aos 95 anos, deixando como herança uma obra que permanece viva. Sua casa, à beira do Rio Vermelho, converteu-se em museu, um espaço onde o tempo ainda respira.

Cora Coralina: retrato da poeta quando jovem | Foto: Casa de Cora Coralina na Cidade de Goiás

A voz poética de Cora Coralina é profundamente telúrica: evoca a Cidade de Goiás como paisagem espiritual e geográfica, fazendo dos becos, lugares antes marginalizados, depósitos de rejeito, espaços dos “sem classe”, uma metáfora social. Sua obra evidencia o princípio da sinédoque: o beco, pequeno e esquecido, torna-se metonímia das vidas igualmente pequenas aos olhos do poder.

Nesse sentido, a poetisa antecipa discussões contemporâneas sobre desigualdade, pertencimento e cartografias afetivas, como aquelas desenvolvidas por Almeida e Chaveiro (2008) ao analisarem a ressignificação do conceito de Cerrado no imaginário institucional e cultural brasileiro. Em “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais” (1965), seus versos livres e descompromissados com a métrica, mas carregados de lirismo, crítica e amor pela terra, transformam a rotina e a pobreza em matéria estética. Trata-se do que Drummond, seu grande divulgador, reconheceu como a poesia “da mulher que viveu e soube viver”, capaz de transfigurar a experiência ordinária em permanência simbólica.

Cora Coralina integra uma constelação de escritoras cuja produção, de Goiás para o mundo, desde meados do século XX, cultiva o telurismo como força estética e identitária. Nomes como Regina Lacerda, Guiomar de Grammont Machado, Indalícia Guedes de Amorim Coelho, Nice Monteiro e Célia Siqueira Arantes, todas incluídas neste Dicionário, demonstram que o gesto inaugural de Cora abriu caminhos para que o Cerrado se tornasse não apenas paisagem, mas categoria poética. Essa genealogia reafirma a importância da poeta como figura-matriz, aquela que, ao cantar o pequeno, reinstaura o grande; ao falar da terra, inaugura um cânone feminino e regional que persiste.

Elizabeth Abreu Caldeira Brito foto da capa de Dicionário Crítico das Vozes Femininas da Literatura em Goiás ok2

Doceira, cronista, poetisa e memorialista, a narrativa poética de Cora Coralina deu voz à tradição dos que escrevem para recuperar vidas anônimas. Sua obra celebra a coragem, a simplicidade e seu profundo enraizamento no território goiano. Valores que a tornaram eterna não apenas na literatura, mas no imaginário popular brasileiro.

Seu gesto poético realizou aquilo que Adorno descreve como aderência à voz da humanidade: a palavra que nasce da experiência vivida e resiste ao apagamento. Por isso, mais do que autora, Cora Coralina é paisagem, memória e símbolo, um nome que ecoa no coração telúrico do Brasil e leva ao longe o nome de Goiás e sua referência poética.

Publicações: “Poemas dos Becos de Goiás e Estórias Mais” (poesia, 1965); “Meu Livro de Cordel” (poesia, 1976); “Vintém de Cobre: Meias Confissões de Aninha” (poesia, 1983); “Estórias da casa Velha da Ponte” (contos, 1985); “Os Meninos Verdes” (infantil, 1980); “Tesouro da Casa Velha” (poesia, 1996 – obra póstuma); “A Moeda de Ouro Que um Pato Engoliu” (infantil, 1999 – obra póstuma); “Vila Boa de Goiás” (poesia, 2001 – obra póstuma); “O Prato Azul-Pombinho” (infantil, 2001 – obra póstuma).

Elizabeth Abreu Caldeira Brito, psicóloga e escritora, é mestra em Letras e Críticas Literárias. Vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) e ex-presidente da Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás (Aflag). É colaboradora do Jornal Opção.