Tempos Ásperos: o último romance do rebelde Vargas Llosa
25 abril 2026 às 21h00

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Salatiel Soares Correia
Especial para o Jornal Opção
Ser latino-americano sempre foi um sentimento particularmente forte entre os povos de origem hispânica do continente. No campo do desenvolvimento, essa consciência ganhou forma institucional com a criação da Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe (Cepal), uma das mais criativas agências vinculadas à Organização das Nações Unidas. Sediada no Chile, a CEPAL reuniu intelectuais de diversos países com o propósito de pensar o desenvolvimento América Latina de maneira integrada, formulando políticas públicas voltadas para um projeto de desenvolvimento mais autônomo.
Foi nesse ambiente de intensa elaboração intelectual que nomes como Raúl Prebisch e Celso Furtado construíram reflexões decisivas sobre os caminhos do desenvolvimento latino-americano. A preocupação central desses pensadores era romper a dependência histórica em relação aos países centrais e criar estratégias que permitissem às nações periféricas alcançar maior autonomia econômica. No caso brasileiro, uma das expressões mais conhecidas desse esforço foi o modelo de substituição de importações, voltado ao fortalecimento da indústria nacional e à redução da dependência externa.
Paralelamente a esse movimento no campo econômico, a construção do “ser latino-americano” encontrou na literatura uma de suas formas mais poderosas de expressão. O chamado Boom Latino-Americano representou a afirmação cultural do continente, projetando seus escritores no cenário internacional e conferindo visibilidade às suas complexas realidades sociais e políticas.
Esse movimento foi liderado por quatro grandes nomes: Julio Cortázar, Carlos Fuentes, Gabriel García Márquez e Mario Vargas Llosa. Por meio de suas obras, esses autores inovaram nas formas narrativas e deram voz às tensões históricas, políticas e culturais do continente, contribuindo decisivamente para a construção de uma identidade latino-americana compartilhada.

É importante notar que o Brasil, por razões linguísticas e pela relativa distância dos circuitos editoriais hispano-americanos, não participou diretamente desse movimento, embora tenha produzido uma literatura de igual densidade e relevância.
Se a Cepal buscava pensar a América Latina como um projeto econômico integrado e autônomo, o Boom literário desempenhou papel equivalente no plano cultural, ajudando a consolidar uma consciência continental. Economia e literatura, cada qual em seu domínio, convergiram, assim, para um mesmo objetivo: oferecer à América Latina instrumentos — materiais e simbólicos — para compreender a si mesma.
Terra em transe na vida de Vargas Llosa
O ainda recente falecimento de Mario Vargas Llosa encerrou, em certa medida, esse ciclo notável. Com ele, desaparece um dos últimos representantes de uma geração que deu ao continente não apenas reconhecimento internacional, mas também uma voz própria, capaz de interpretar, com profundidade e universalidade, os dilemas de sua história.Antes de adentrar o romance Tempos Ásperos, convém destacar um traço fundamental da trajetória de Vargas Llosa: a rebeldia — eixo estruturante de sua vida e de sua obra.
Desde cedo, sua biografia revela esse traço. Ainda jovem, enfrentou um pai autoritário que, ao considerar a literatura uma atividade “imprópria”, o enviou ao colégio militar Leoncio Prado. Dessa experiência nasceu “A Cidade e os Cachorros”, obra que se transformaria numa crítica contundente ao autoritarismo militar peruano.
Na juventude, protagonizou outro gesto de ruptura ao casar-se com uma mulher mais velha, ex-esposa de seu tio — a chamada “tia política”, na tradição peruana. O episódio, além de pessoalmente controverso, evidencia a disposição do autor em desafiar convenções sociais.

No campo ideológico, sua rebeldia manifestou-se ao romper com o entusiasmo inicial que nutria pelo regime cubano — posição predominante entre intelectuais latino-americanos de sua geração. Esse afastamento custou-lhe resistências no meio intelectual e, segundo alguns analistas, teria retardado o reconhecimento da Academia Sueca, responsável pela concessão do Prêmio Nobel, Ainda assim, a força de sua obra prevaleceu, e Vargas Llosa foi laureado com tamanha honraria.
No plano literário, sua ousadia foi igualmente decisiva. Influenciado por William Faulkner, desenvolveu uma narrativa complexa, marcada pela fragmentação temporal e pela sobreposição de planos psicológicos e sociais. Essa técnica, sofisticada e exigente, está ao alcance de poucos escritores.
Por fim, sua vida pessoal também foi atravessada por episódios que refletem esse temperamento indômito. O rompimento com Gabriel García Márquez, ocorrido após um episódio de agressão em um cinema no México, encerrou uma das amizades mais emblemáticas da literatura latino-americana. Anos depois, já maduro, Vargas Llosa voltaria a desafiar convenções ao romper um casamento de décadas com sua prima, Patricia Llosa, movido por uma nova paixão.
Assim, vida e obra se entrelaçam em uma mesma linha de força: a recusa em aceitar limites impostos — sejam eles familiares, sociais, políticos ou literários. É sob essa chave que Tempos Ásperos deve ser lido: não apenas como um romance histórico, mas como a expressão final de um espírito que fez da inconformidade o seu método e da liberdade o seu destino.
Logo que concluí a leitura de “Tempos Ásperos”, percebi que o romance se apresenta como uma espécie de continuidade histórica e temática de outro grande marco do legado de Mario Vargas Llosa: “A Festa do Bode”. Há, contudo, uma diferença essencial entre as duas obras.
Em “A Festa do Bode”, a narrativa concentra-se na figura do general Rafael Trujillo, senhor absoluto do destino da República Dominicana, que construiu seu regime com base na violência, no medo e na repressão.
Já em “Tempos Ásperos”, ambientado nos acontecimentos de 1954, o autor amplia significativamente o campo de análise ao situar a narrativa no contexto do golpe ocorrido na Guatemala, que depôs o presidente Jacobo Árbenz. Esse episódio, decisivo para a história latino-americana, insere o romance no cenário mais amplo da Guerra Fria.
A partir desse marco histórico, o livro deixa de focalizar apenas a figura de um ditador para explorar uma engrenagem mais complexa, que envolve interesses de grandes corporações multinacionais, estratégias de intervenção externa e a disputa ideológica entre Estados Unidos e União Soviética.
Assim, enquanto “A Festa do Bode” disseca o funcionamento interno de uma ditadura personalista, “Tempos Ásperos” revela como a queda de um governo na Guatemala, em 1954, foi resultado de forças que ultrapassavam as fronteiras nacionais, evidenciando a profunda inserção da América Latina no tabuleiro geopolítico da Guerra Fria.
O chamado romance histórico, quando mal compreendido, limita-se a descrever fatos, datas e eventos, sem penetrar nas complexidades do ser humano. Essa redução incomodava visivelmente Mario Vargas Llosa, que, em diversas entrevistas, demonstrava irritação ao ver sua obra rotulada como meramente histórica. O autor de “A Guerra do Fim do Mundo” sabia exatamente o que estava fazendo: sua literatura nunca se restringiu à reconstituição de épocas, mas se afirmou como uma investigação profunda das paixões, contradições e misérias humanas.
Quem percorre os grandes livros de Vargas Llosa reconhece que seus personagens, ainda que inseridos em contextos históricos bem definidos, são construídos com densidade psicológica rara. Sob a aparência de narrativas lineares, o autor vai, pouco a pouco, desnudando suas criaturas — expondo virtudes, fraquezas e, sobretudo, zonas obscuras da condição humana.
O exemplo mais emblemático talvez seja a personagem Urania, de “A Festa do Bode”. Desde as primeiras páginas, o leitor é capturado por um enigma: por que ela retorna à sua terra natal, carregando um ressentimento tão profundo? A narrativa, conduzida com precisão cirúrgica, avança lentamente pelos subterrâneos da memória da personagem até revelar, no desfecho, a origem de seu ódio: ainda jovem, foi entregue pelo próprio pai ao ditador Rafael Trujillo, tornando-se vítima de suas práticas degradantes. A história, portanto, deixa de ser apenas política para se tornar profundamente humana — e trágica.
É nesse ponto que reside a grandeza de Vargas Llosa. Sua obra ultrapassa a fronteira do histórico para alcançar o território da condição humana. Diferentemente de Jorge Amado — inegavelmente um talentoso contador de histórias —, Vargas Llosa constrói personagens que não apenas habitam a narrativa, mas a tensionam, revelando conflitos morais e psicológicos de grande complexidade.
Os personagens de “Tempos Ásperos” confirmam esse traço distintivo. Ambientado no contexto do golpe de 1954 na Guatemala, o romance não se limita ao jogo geopolítico da Guerra Fria, envolvendo interesses de multinacionais e das grandes potências. Ele avança além, explorando as motivações íntimas, as ambiguidades e os dilemas morais de seus personagens — reafirmando que, em Vargas Llosa, a história é apenas o palco; o verdadeiro drama se desenrola no interior do homem
O chamado romance histórico, quando mal compreendido, limita-se a descrever fatos, datas e eventos, sem penetrar nas complexidades do ser humano. Essa redução demonstrava irritação ao ver sua obra rotulada como meramente histórica. O autor de “A Guerra do Fim do Mundo” sabia exatamente o que estava fazendo: sua literatura nunca se restringiu à reconstituição de épocas, mas se afirmou como uma investigação profunda das paixões, contradições e misérias humanas.
Interior do ser humano denúncia de atrocidades
Quem percorre os grandes livros de Vargas Llosa reconhece que seus personagens, ainda que inseridos em contextos históricos bem definidos, são construídos com densidade psicológica rara. Sob a aparência de narrativas lineares, o autor vai, pouco a pouco, desnudando suas criaturas — expondo virtudes, fraquezas e, sobretudo, zonas obscuras da condição humana.
O exemplo mais emblemático talvez seja o de Roger Casement. Nascido na Irlanda, Casement gozava de elevado prestígio junto à Coroa britânica, sobretudo após suas célebres denúncias das atrocidades cometidas no Congo. No entanto, o chamado do movimento separatista irlandês falou mais alto. Sua adesão à causa nacionalista passou a ser vista como traição dele ao governo de Sua Majestade.
A partir daí, inicia-se um processo implacável de degradação pessoal e política. O mesmo Estado que outrora o exaltara passa a persegui-lo, prendê-lo e julgá-lo como inimigo. Essa trajetória descendente, magistralmente reconstruída por Mario Vargas Llosa, transcende o mero relato histórico.
Llosa não se limita aos fatos: ele penetra nos subterrâneos da alma do personagem, revelando suas contradições, angústias e dilemas morais. É nesse ponto que sua literatura se eleva muitos degraus acima da narrativa histórica convencional. A história deixa de ser apenas política e documental para se tornar profundamente humana — e, sobretudo, trágica, marcada pelo sofrimento íntimo de um homem esmagado pelas forças que ajudou a revelar.
É nesse ponto que reside a grandeza de Vargas Llosa. Sua obra ultrapassa a fronteira do histórico para alcançar o território da condição humana. Diferentemente de Jorge Amado — inegavelmente um talentoso contador de histórias —, Vargas Llosa constrói personagens que não apenas habitam a narrativa, mas a tensionam, revelando conflitos morais e psicológicos de grande complexidade.
Os personagens de “Tempos Ásperos” confirmam esse traço distintivo. Ambientado no contexto do golpe de 1954 na Guatemala, o romance não se limita ao jogo geopolítico da Guerra Fria, envolvendo interesses de multinacionais e das grandes potências. Ele avança além, explorando as motivações íntimas, as ambiguidades e os dilemas morais de seus personagens — reafirmando que, em Vargas Llosa, a história é apenas o palco; o verdadeiro drama se desenrola no interior do homem.
Tour pelos personagens do romance
Os personagens concebidos pela imaginação criativa de Mario Vargas Llosa obedecem a um propósito claramente delineado: revelar, por dentro, as engrenagens do autoritarismo e a fragilidade daqueles que ousam enfrentá-lo. Em Tempos Ásperos, essa lógica se materializa na figura de Jacobo Árbenz, um governante bem-intencionado que, ao propor a reforma agrária, colide frontalmente com os interesses do capital internacional — notadamente os da United Fruit Company.
Llosa constrói Árbenz como um reformista que subestima a dimensão geopolítica de suas ações. Sua derrota não decorre apenas de fragilidades internas, mas, sobretudo, da incapacidade de perceber que, no contexto da Guerra Fria, iniciativas nacionais eram rapidamente reinterpretadas como ameaças ideológicas de alcance global.
Em contraponto, Carlos Castillo Armas, que assume o poder após o golpe de 1954, é progressivamente desconstruído pela narrativa. Longe de se afirmar como um líder autônomo, surge como figura dependente, moldada por interesses externos e desprovida de densidade política própria. A arquitetura narrativa de Llosa o reduz à condição de instrumento — um agente circunstancial dentro de uma engrenagem que o ultrapassa.
Desse contraste emerge uma das teses centrais do romance: em contextos de elevada tensão ideológica, nem mesmo os protagonistas controlam plenamente seus destinos. São, antes, capturados por forças que os transcendem — econômicas, políticas e simbólicas.
Essa leitura se aprofunda quando se incorpora à análise a figura de Johnny Abbes García, personagem que transita entre “A Festa do Bode” e “Tempos Ásperos”. Braço executor da máquina repressiva de Rafael Trujillo, Abbes García representa a face mais visível do terror institucionalizado.
Em “Tempos Ásperos”, sua presença na Guatemala — sob a cobertura de um cargo diplomático — evidencia a existência de uma rede informal de cooperação entre regimes autoritários latino-americanos. Llosa sugere, com precisão, que havia uma espécie de solidariedade entre ditaduras, com Trujillo exercendo papel central como articulador desse sistema. Ao seu redor, figuras como Castillo Armas orbitam com menor protagonismo, mas integradas à mesma lógica de poder.
Ficaria incompleto esse percurso sem trazer à cena a personagem Marta Borrero Parra, a Miss Guatemala. Sua construção psicológica revela uma mulher moldada por um ambiente de violência política e doméstica. Aqui, Llosa atua como um verdadeiro “escultor de almas”: Marta não é apenas vítima de um sistema — ela também encarna suas distorções.
Ao se tornar amante do presidente, a personagem evidencia uma das mensagens mais sutis e perturbadoras do romance: o desejo pode ser instrumentalizado como mecanismo de poder. A relação íntima se converte, assim, em extensão da política, revelando como as ditaduras não apenas deformam instituições, mas também corrompem a esfera mais íntima da vida humana.
O resultado final desse “tour” é uma leitura inquietante: mais do que narrar episódios históricos, Llosa constrói um sistema de poder no qual líderes, agentes e indivíduos comuns são peças de um jogo maior — frequentemente invisível, mas decisivo.
América Latina sem o olhar do rebelde
De repente, aconteceu o inesperado: Mario Vargas Llosa morreu, aos 89 anos, em Lima, cercado pela família. Com sua partida, não apenas os parentes e amigos se entristecem. Também ficam órfãos este escriba que vos fala e milhões de leitores espalhados pelo mundo, que sempre nutriram por ele admiração, respeito e gratidão.
Vargas Llosa não foi apenas um grande escritor. Foi um dos raros romancistas capazes de transformar a literatura em instrumento de interpretação da América Latina. Em mais de meio século de produção intelectual, deixou uma obra vasta, sofisticada e inquieta, composta por romances, ensaios, peças teatrais e intervenções públicas que o consolidaram como uma referência universal. Obras como “Conversa na Catedral”, “Pantaleão e as Visitadoras”, “Festa do Bode” e “Tempos Ásperos” ajudaram a compreender, por dentro, os labirintos do poder, da violência, da corrupção e das ilusões políticas de nosso continente.
Sua grandeza literária também se revelou na capacidade de ultrapassar fronteiras nacionais. Ao mergulhar em outras realidades históricas e políticas, como fez em “O Sonho do Celta”, ou ao recriar, com extraordinária força narrativa, a tragédia de Canudos em “A Guerra do Fim do Mundo”, Vargas Llosa demonstrou que seu olhar era ao mesmo tempo peruano, latino-americano e universal. Sua literatura nunca se contentou com o pitoresco: buscou sempre a complexidade humana, o drama moral e o choque entre indivíduo e estruturas de dominação.
Homem de vasta cultura, transitou com desenvoltura entre a ficção, o teatro, o ensaio e o jornalismo. Mais do que isso: foi um intelectual no sentido forte da palavra, desses que não se limitam a escrever livros, mas entram no debate público, tomam posição e ajudam a iluminar seu tempo. Sua trajetória, às vezes polêmica, jamais diminuiu a dimensão de sua obra. Ao contrário: mostrou que sua literatura era inseparável de uma paixão intensa pela liberdade e de uma recusa obstinada a toda forma de servidão.
Pode-se dizer que “Tempos Ásperos”, romance centrado no golpe de 1954 na Guatemala, encerra simbolicamente um ciclo de sua obra: o ciclo do escritor rebelde, atento às engrenagens visíveis e invisíveis do poder na América Latina. Ali, como em tantos outros livros, Vargas Llosa voltou a demonstrar por que recebeu o Nobel de Literatura em 2010: por sua capacidade de cartografar as estruturas do poder e de revelar a resistência, a revolta e a derrota do indivíduo diante delas.
Com o passar do tempo, todos estaremos mortos. Mas nem tudo se perde com a morte. Há autores que desaparecem fisicamente, porém permanecem vivos na consciência dos povos. Mario Vargas Llosa pertence a essa categoria rara. Seu corpo se foi; seu legado, não. A América Latina fica mais pobre sem sua presença. Mas continua infinitamente mais rica porque teve, em sua história, a inteligência, a coragem e a arte de Mario Vargas.
Salatiel Soares Correia, escritor e crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.
P.S.: Este ensaio contou em alguns momentos com recursos de correção de texto da IA. Este instrumento também foi utilizado na correção ortográfica e de coesão do texto

