Os jenipapos e as caranhas
25 abril 2026 às 21h00

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Fernando Cupertino
Especial para o Jornal Opção
Uma fruta capaz de despertar sentimentos contraditórios, que vão do deleite à absoluta intolerância, é o jenipapo — hoje, infelizmente, cada vez mais raro de se encontrar.
O aroma do jenipapo maduro, quando sua casca adquire uma textura enrugada e macia, espalha-se rapidamente. Talvez, por isso mesmo, alguns o achem enjoativo.
Sua aparência toda encarquilhada foi inspiração para a expressão “mais enrugado (a) que jenipapo de tapera”, pois que a árvore costumava ser presença constante nas ruínas de velhas propriedades, comumente rotuladas de tapera.
Entre os pescadores, há a convicção de que o fruto maduro — talvez pelo aroma peculiar — é isca certeira e poderosa para se pegar caranha, peixe muito bom, que costuma travar um bom combate com o anzol.
Certa feita, um grupo de amigos que costumava, pelo menos uma vez ao ano, aventurar-se em pescarias pelo Rio Araguaia, soube que um bom cardume de caranhas estava presente num lugar onde as águas eram profundas, com o leito repleto de troncos e galhos de árvores que as cheias haviam roubado às margens e que, uma vez baixadas as águas, ali permaneciam como morada preferencial desses peixes, que neles encontravam providencial abrigo contra os predadores naturais.
Tão logo a notícia correu, começaram os preparativos para a excursão, porém com a preocupação de se encontrar as iscas apropriadas: coração de boi e, sobretudo, o jenipapo.

Indagando-se aqui e ali, alguém informou que lá pelas bandas do matadouro havia um jenipapeiro bem carregado. Com efeito; porém, lá chegando, constataram que já não havia mais tantos frutos assim. Colheram cerca de dez ou doze, verdolengos — ou “de vez”, como se diz. Porém, como amadureceriam em poucos dias e a pescaria prometia durar pelo menos uma semana, a coisa vinha mesmo a calhar.
Acondicionados em uma caixa de papelão, tiveram lugar especial na carga de um dos veículos, em razão de sua preciosidade.
A viagem transcorreu sem incidentes e a bendita caixinha com os jenipapos chegou sã e salva. Arrumaram um lugar fresco na areia da cozinha, à sombra do rancho de palhas de buriti, para que ali pudesse ocorrer a maturação dos danados.
Três dias depois, acampamento montado, prepararam-se para ir ao lugar onde deveriam estar os tão desejados peixes. Muita animação e grande azáfama para se embarcarem nas canoas com todos os apetrechos necessários.
— Traga a caixa com os jenipapos! — gritou alguém para o mais retardatário.
Lá veio ele com o objeto, porém adotando um semblante de espanto e desconsolo.
— O que foi que está com essa cara de quem comeu e não gostou, Zezinho? É que notei que a caixa está leve demais… fui olhar e só resta uma fruta.
Logo o chefe do grupo, esbravejando, quis saber o que ocorrera. Foi quando um dos mais velhos, coronel reformado do Exército, que há anos morava no Rio de Janeiro, com ar da mais absoluta candura e genuína inocência, disse com voz pausada e mansa:
— Eu comi!…
— Mas, coronel, era para as caranhas!
— Eu não sabia. Ninguém me disse nada, até porque cheguei de viagem à noite, na véspera de nossa partida para cá. Além disso, é uma fruta que não comia desde meus tempos de menino. E, querem saber de mais? Não acredito que caranhas tenham o paladar assim tão aguçado para distinguir uma coisa de outra.
Qualquer isca serve, ora bolas!
De repente, o espanto converteu-se em comédia e todos caíram na mais gostosa das risadas e foram à pesca. Com ou sem jenipapo, o resultado foi farto e generoso e, naquela noite, à beira do fogo, recordaram o caso, fazendo troça do acontecido, enquanto saboreavam os peixes.
Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.
(Em memória de meu sogro, Ednil Domingos de Souza, grande pescador e amante do Rio Araguaia)

