A influência do Rubaiyat na obra do poeta português Fernando Pessoa
25 abril 2026 às 21h00

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Marina T. S. Canedo
Especial para o Jornal Opção
As literaturas oriental e ocidental não estão tão compartimentadas a ponto de não haver intercâmbio e influências entre elas. Principalmente quando surge um literato, cientista ou poeta excepcional, seu fascínio extrapola os hemisférios Ocidental e Oriental.
Apesar da complexidade dos diferentes idiomas e alfabetos, o saber rompe o Meridiano de Greenwich. Assim, aconteceu importante interação entre a obra de dois grandes poetas, apesar da distância temporal e geográfica: a poesia de Omar Khayyam, escritor persa, foi acolhida e processada pelos admiradores ocidentais e, de forma especial, pelo maior poeta português do século XX, Fernando Pessoa.

Foi na Pérsia do século XI, na cidade de Nishapur, hoje Irã (“Rubaiyat”, Omar Khayyam, Editora Garnier, 144 páginas), que nasceu Omar Khayyam (1048-1131). Foi famoso por sua erudição como matemático, geômetra, físico, astrônomo, médico e filósofo, um verdadeiro polímata, daqueles que se dedicavam a várias áreas do conhecimento, na sede de entender a vida e o universo e seus vários porquês.
A ciência estava em expansão e sendo desenvolvida e o Oriente já tinha, há muito, tradição no estudo científico, da poesia e da filosofia.

Seu contemporâneo e também cidadão persa, Avicena (980-1037), nome latinizado de Abu Ali Huceine ibne Abedalá ibne Sina, é o único sábio considerado superior a Omar Khayyam.
Mas o que o tornou famoso, fama essa que atravessou os séculos e penetrou nos diversos rincões do planeta, foi uma obra literária, poética, e que teve ressonância nos corações dos leitores devido à sua singeleza, verdades e dúvidas, que sempre estiveram e ainda estão presentes na condição humana. Esta obra foi o “Rubaiyat”.

Rubaiyat é o plural de rubai, que significa quadra ou quarteto. Eram poemas muito populares, bem típicos da cultura persa. Khayyam colecionava rubaiyat e, por admirá-los, passou também a produzi-los. Dizem que ele escreveu 101 poemas, outros carregam na cifra, que indica 200 ou muito mais poemas ou quadras. Foram originalmente escritos em persa (farsi).
No século XIX, em 1859, um escritor inglês, chamado Edward FitzGerald (1809-1883), traduziu e deu o nome de “Rubaiyat” aos poemas de Omar Khayyam.

O sucesso de sua obra foi imediato. As traduções para o português, no Brasil, foram feitas, na maioria, a partir da tradução de Edward FitzGerald mas também do francês Toussaint. Octavio Tarquinio de Souza, Eno Theodoro Wanke e Manuel Bandeira são os tradutores brasileiros mais conhecidos.
Os poemas do poeta clássico iraniano exerceram enorme sedução nos meios literários de vários países. Seu teor constituía-se de ilações filosóficas de cunho hedonista e de uma visão melancólica da vida. O poeta louva o vinho e o cultivo do presente, o carpe diem, o não se preocupar com o porvir.

Ele não exprime preocupações metafísicas e aconselha o leitor a desfrutar dos prazeres que a vida oferece. O prazer pelo vinho é a tônica em suas quadras. A efemeridade da vida e a insegurança pelo que virá após a morte dão o tom em seus versos.
Fernando Pessoa inspirado pelo Rubaiyat
Fernando António Nogueira Pessoa, ou simplesmente Fernando Pessoa (1888-1935), conheceu o Rubaiyat através da tradução de Edward FitzGerald e encantou-se com a obra, principalmente por ela exprimir os mesmos anseios e preocupações sentidos por ele. Esse livro, pleno de anotações a lápis feitas pelo bardo português, encontra-se na Casa Fernando Pessoa, em Portugal.

Talvez o primeiro contato de Pessoa com a tradução de FitzGerald tenha sido em Durban, África do Sul, em sua juventude, no período em que lá morou.
Três de seus “rubai” foram publicados em vida, em 1926, na revista “Contemporânea” n. 3. Eles obedeceram ao esquema métrico da maneira possível, em decassílabos, pois na escrita farsi existiam as sílabas longas e curtas, algo parecido com o hexâmetro grego. Quanto ao esquema rimático dos rubaiyat, a fórmula era, quase sempre, AABA:

Essas quadras, escritas pelo ortônimo e à moda de Omar Khayyam, o são na forma e na essência.
O vinho, a finitude da vida e a incerteza do viver estão presentes nelas. A melancólica desilusão do poeta português está bem expressa no verso “A mesma esperança que não deu se escombra”.
Pessoa, tal como Khayyam, era um degustador de vinho, e o fazia sempre em um bar muito frequentado por ele. Possivelmente, como em seus versos, várias eram as motivações para beber, e entre elas a alegria (porque é festa) e o sofrimento (porque há dor). O “longo e inútil dia” professa seu desalento e apatia perante a falta de perspectivas, assim como a prolixidade da vida, cujo dia demora a chegar ao fim.
Na segunda estrofe o poeta declara que “Dormimos o universo. A extensa massa da confusão das cousas nos enlaça”, o que sugere seu descompasso com a vida social e a necessidade de se isolar do mundo e de todos.

“Não sei o que trará o amanhã”
Como atestado por seus biógrafos e críticos e pelo subjetivismo de seu poemário, Fernando Pessoa tinha um temperamento melancólico, enigmático e introvertido. Ele mesmo diz: “toda a minha vida tem sido de passividade e sonho” (Fernando Pessoa — “Quando fui outro”, página 17, Alfaguara, 221 páginas).
Num texto seu, nesse mesmo livro, ele declara que “não choro por nada que a vida traga ou leve. Há, porém, páginas de prosa que me têm feito chorar”, e segue anunciando seu amor extremado pela palavra e pela língua portuguesa: “Não tenho sentimento nenhum político ou social. Tenho, porém, num sentido, um alto sentimento patriótico. Minha pátria é a língua portuguesa. Nada me pesaria que tomassem ou invadissem Portugal, desde que não me incomodassem pessoalmente. Mas odeio a página mal escrita, a sintaxe errada…….”

Sua icônica frase “minha pátria é a língua portuguesa”, repetida e aclamada nos países lusófonos, é interpretada pela maioria dos críticos como sendo uma metáfora. Porém, se nos ativermos ao que se segue a essa declaração do autor, concluímos que a língua portuguesa é, sim, a sua verdadeira pátria, no sentido lato da palavra. Mesmo porque, em um outro momento, ele se declara um tanto quanto arrependido pela publicação de Mensagem, livro no qual exalta ufanisticamente Portugal e suas conquistas ultramarinas. Fica claro que, para Fernando Pessoa, a língua portuguesa é o seu refúgio, um porto seguro onde sua excêntrica personalidade encontra suas raízes.
Seu gosto pelos heterônimos começou cedo. Aos seis anos já escrevia a um amigo inexistente o qual lhe mandava respostas (ele mesmo), e seu nome era Chevalier de Pas. Acreditam alguns que os rubaiyat de Fernando Pessoa representem a obra de mais um heterônimo, que seria Omar Khayyam.
Muito se poderia dizer sobre a personalidade incomum, sui generis, de Fernando Pessoa. Mas, termino dizendo suas últimas palavras, escritas em 29 de dezembro de 1935, no hospital em Lisboa: “I know not what tomorrow will bring” (Não sei o que trará o amanhã). No dia seguinte ele falece, às oito horas da noite. Deixou, como herança, sua poesia e uma personalidade exótica e enigmática que ainda intriga seus leitores.
Marina T. S. Canedo, escritora e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.

