Ana Kelly Souto

De Portugal, especial para o Jornal Opção

Abecedário de Agostinho de Hipona: o P da Paz

O mundo volta a falar de paz enquanto reafirma, com igual intensidade, as condições da guerra. Declarações recentes do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, em tensão com a posição do papa Leão XIV, expõem não apenas divergências políticas, mas uma disputa sobre o que significa viver em paz.

Chamamos de paz aquilo que nos convém, mas Agostinho de Hipona nos convida a ir além, se a paz é ordem, de que ordem estamos falando?

Há mais de 1.600 anos, Agostinho formulou uma definição em que a paz de todas as coisas consiste na tranquilidade da ordem, disposição harmoniosa em que cada realidade ocupa o lugar que lhe corresponde, o corpo em relação aos seus membros, a alma em relação aos seus desejos, a cidade em relação aos seus cidadãos, o homem em relação ao seu Criador.

No Livro XIX de “A Cidade de Deus”, a cidade terrena é marcada pela violência, pela cobiça e pela desordem, desse modo, a paz experimentada na história é sempre precária, instável, ameaçada por aquilo que desordena o coração humano, quando o amor perde a medida. Por isso, ele admite até a guerra justa, não como ideal, mas como recurso trágico diante de uma ordem ferida, pois a paz verdadeira pertence à Cidade Celeste.

Hoje, quando falamos de ordem, muitos já não levantam os olhos para Deus, mas os fixam na tela. Como observa a escritora austríaca Claudia Paganini, em “Der Neue Gott” (sem tradução para o português), a inteligência artificial passa a ser buscada como se fosse um “novo deus”, não porque o seja, mas pela forma como é procurada, como presença constante, fonte de conhecimento imediato e resposta para tudo. Aquilo que antes se confiava à oração, orientação e sentido, desloca-se para sistemas com disponibilidade e respostas instantâneas. Ela se apresenta como uma instância capaz de produzir uma ordem correta por meio de algoritmos que determinam decisões e preveem reações. Mas essa ordem técnica produz verdadeira paz? Obediência sem justiça não é paz verdadeira. Para Agostinho de Hipona, uma ordem que não se orienta pelo Bem Supremo transforma-se em ídolo, e todo ídolo, ainda que eficiente, introduz uma forma mais apurada de desordem.

Santo Agostinho capa de a cidade de Deus 1

Ao mesmo tempo, como sugere Jean-Luc Nancy, o cristianismo não desapareceu, mas se abriu, perdeu o seu fechamento enquanto ordem única capaz de organizar o mundo. Aquilo que, em Agostinho, se estruturava sob a referência a um único Deus já não se sustenta como horizonte comum, não há mais uma obediência partilhada que unifique. E, no entanto, seus traços permanecem. No mundo tecnizado, eles reaparecem de forma difusa, sobretudo nas disputas identitárias e nas narrativas que opõem o bem ao mal, como se cada lado ainda reivindicasse para si a totalidade do justo. Foi diante de um mundo em dissolução que Agostinho de Hipona escreveu “A Cidade de Deus”, ao testemunhar o declínio do Império Romano, já consciente de que nenhuma ordem histórica se sustenta quando se fecha em si mesma e se afasta da medida do justo, de modo que a unidade se fragmenta e essa fragmentação, longe de dissolver o conflito, tende a intensificá-lo.

Há ainda um movimento mais silencioso. Muitos buscam hoje uma espiritualidade sem pertença, uma serenidade sem doutrina, uma mística sem altar. Como observa Gregor Maria Hoff, em “Ein anderer Atheismus — Spiritualität ohne Gott?” (sem tradução para o português), trata-se de uma espiritualidade que já não se organiza a partir da crença em Deus, mas que, ainda assim, conserva traços de experiência interior, admiração pelo mistério e desejo de sentido. Não é certo que Agostinho de Hipona rejeitaria de imediato essa busca. Ele reconhecia, na alma humana, um desejo de ordem que ultrapassa as estruturas visíveis. A paz da alma racional, o acordo entre razão, vontade e desejo indica essa direção.

Agostinho filósofo e teólogo 1
Agostinho: filósofo e teólogo | Foto: Reprodução

Paz não é ausência de pensamento e silêncio

“A paz que eu não quero é a paz que me cala.” O verso de O Rappa já diz o essencial. A paz não se confunde com ausência de pensamento e silêncio. Em Agostinho de Hipona, pensar é perguntar. Ele filosofa em confronto com outros e, nas Confissões, volta-se para si e para Deus. Questionar os deuses que usamos para justificar nossos conflitos, sejam eles religiosos, políticos ou tecnológicos, sem cair no vazio.

Agostinho de Hipona descreve a ordem de forma orgânica, como uma harmonia que se estende do corpo, na justa composição de suas partes, à alma, na ordenação dos apetites e no acordo entre conhecer e agir, do homem em relação a Deus, na obediência da fé, à casa e à cidade, na concórdia entre seus membros e cidadãos, até a Cidade Celeste, onde essa ordem se cumpre de modo pleno no gozo de Deus.

A paz começa no interior e aponta para além da história, permanecendo sempre tarefa, construída na família, nas relações e nas instituições, ainda que como antecipação imperfeita de uma ordem maior, pois, quando a ordem se rompe e a justiça cede ao interesse, resta apenas uma paz aparente, sustentada pela força.

Sem justiça, o governo deixa de ser ordem e se aproxima do que Agostinho de Hipona afirma em “A Cidade de Deus” (IV, 4): os reinos, privados do justo, não passam de grandes bandos de ladrões. Não por acaso, os homens combatem pela paz dos seus e buscam submeter os demais, preferindo uma paz própria, ainda que injusta, à paz justa. É nesse desvio que a paz se perde. Chamamos de paz o que nos convém. Mas ela só existe quando é justa.

Ana Kelly Souto é doutora em Ciências da Religião e em Filosofia, professora da PUC-Goiás e colaboradora do Jornal Opção.