Sobre o tempo
08 julho 2026 às 14h27

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Acho bonito ver a vida acontecendo com calma.
Nesses dias meio turbulentos, ver as pessoas fazendo as coisas com pressa me deixava um tanto mais nervosa. E nesses momentos, gosto de lembrar Annie Ernaux, na sua quieta observância do mundo.
As coisas pelas quais Ernaux presta atenção, nessas pequenezas do cotidiano, que formam o nosso tecido da vida corriqueira, é bonito demais. Mas gosto ainda mais, como ela faz a escrita de registro de vivência, como comprovação de que os fatos ocorreram e que pelas palavras podem permanecer.
Em comum, gosto de Elena Ferrante, essa acidez em também observar a vida, ao mesmo tempo em que nos lança em uma espiral de sinceridade doída das relações humanas.
Gosto do olhar demorado para a rotina. E acho que ninguém faz isso melhor do que as duas. Afinal, eu não acho o cotidiano nada pequeno.
Mas nessa de gostar da vida acontecendo com calma, de ver as pessoas as conduzindo assim, me pego pensando demais na correria das pessoas a minha volta.
O que essa constante pressa revela sobre nós?Esses gestos, essas pequenas pressas?
Eu não sei, mas acredito nos pequenos hábitos, manias, costumes de uma vida. Acredito por vezes, – e muitas vezes – que são eles que nos ajudam a manter a sanidade em meio ao caos.
Acordar, fazer o café, comer o mesmo tipo de preparo do ovo, as mesmas frutas, dia após dia, me mostra que a repetição também pode ser uma inovação da manutenção da vida diária.
Em “Dias de abandono”, da Elena Ferrante, talvez o que leve a personagem ao seu total estado de “abandono”, é a perda de seu suporte emocional. Não é, quem sabe, a percepção do fim de uma rotina tão bem estabelecida? A estrutura invisível que acaba por sustentar seus dias?
A rotina, esse tecido da vida que é feito de horários, cuidados, tarefas, expectativas – supridas ou frustradas – acaba por organizar, mediar e tecer nossos dias e vida. Assim, com Ferrante, eu vi que quando tudo acaba, até o modo de viver pode ir junto.
E talvez seja isso, nesses pequenos gestos do dia a dia, que vejo a beleza se infiltrando, porque mesmo no repetitivo, nada precisa ser igual.
E aí vem a minha vontade de reter a vida através da escrita. Esse impulso de entender – ou lidar – com a morte através das palavras, é o mesmo sentido que eu uso para tentar segurar e acalmar (?) o tempo. Ou tentar entender. Afinal, o que é a escrita? Não seria essa tentativa de fingir a existência?, de tentar deter ou reter o tempo?
Talvez nesse gostar tanto da vida acontecendo com calma, sem nada grandioso, venha meu gosto por livros “onde nada acontece”.
Na coluna passada, eu falei um pouco sobre o livro que lemos no Clube Palavrear de Literatura Contemporânea ano passado, que foi o “Memória de ninguém”, da Helena Machado. Foi uma leitura muito interessante, e que apesar de não ter nada de tão excepcional, mexeu bastante comigo.
Talvez porque eu goste muito dessas digressões que o luto cause e que ela trouxe como principal condutor da narrativa, ou talvez pela possibilidade de uma leitura que não teria acontecido se não fosse o clube.
Mas gosto muito quando a autora diz nesse livro que a “hercúlea simplicidade da vida está no ser sem pensar o que se é, o estar apenas, agora e passageiro. Mas se a gente fica estando e estando do mesmo jeito, o estar vira ser, e se o ser é igual o tempo inteiro, lascou-se.”
E talvez seja isso que goste tanto nessas escritoras como Annie Ernaux, Elena Ferrante e Helena Machado: onde nada parece acontecer, elas nos lembra de que a vida acontece o tempo todo, no café preparado todas as manhãs, nas pequenas manias, na repetição dos dias, naquilo que parece insignificante, até desaparecer.
E que o mundo não desmorona tanto, quando prestamos atenção.



