Romance de Carlos Magno Melo é um salto no abismo da imaginação

Escritor leva o leitor a mergulhar em um universo fantástico e maravilhoso, em que as etapas da vida de seus personagens se transformam em realidades plausíveis

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

A história da índia Guaibimpará e do náufrago apelidado Caramuru, baseada em fatos lendários, está situada no Brasil a partir de 1531, quando Martim Afonso de Souza e sua expedição encontraram o português Diogo Álvares Correia (1475-1557) na Baía de Todos os Santos vivendo entre os índios.

Carlos Magno de Melo e seu romance | Foto: Facebook

Segundo consta, Diogo Álvares viveu com os tupinambás, no sul da Bahia, pelo período de 22 anos e já estava totalmente adaptado à cultura daqueles índios. Calcula-se que tenha nascido em Viana do Castelo e, em uma embarcação portuguesa, teria naufragado em costas brasileiras, junto com mais oito companheiros, em 1509. Mas isso tudo pode ser verdadeiro, embora não haja registro oficial para negar a veracidade dessa e de outras histórias sobre a sua retenção no nosso país. O fato é que sua vivência com os índios acabou por facilitar consideravelmente o contato entre os primeiros viajantes europeus e os povos nativos do Brasil, beneficiando sobremaneira os portugueses na sua tentativa de subjugar os habitantes autóctones da recém-nascida colônia de Vera Cruz.

Diogo Álvares foi o único sobrevivente entre os tripulantes do naufrágio que com ele alcançaram as praias e foram devorados por índios canibais. As versões para explicar por que Caramuru foi poupado são as mais variadas. Uma delas diz que ele teria imposto respeito aos índios ao disparar a arma de fogo que trazia consigo, daí o novo nome que significaria homem do fogo, filho do trovão. Outra versão afirma que ele era magro demais e, sem carnes fartas, não teria apetecido aos canibais — que não estariam assim tão dispostos a comer peles e ossos… Segundo informações outras, pouco se sabe sobre a sua vida pregressa e principalmente sobre a sua infância. Já no Brasil, consta que se apaixonou pela índia Guaibimpará, a filha mais velha do cacique Taparica, da tribo dos tupinambás. Mas namorou também a irmã dela, Moema — que morreu grávida, numa tentativa desesperada de segui-lo a nado para a Europa.

De qualquer modo, o náufrago poupado por furiosos e famintos canibais angariou a confiança e o aval da tribo inteira para casar-se com a índia Guaibimpará, que ficou conhecida como Paraguaçu (“mar grande”, segundo informa Santa Rita Durão no épico poema “Caramuru”). Com ela, Diogo teve quatro filhas, que, casadas com colonos portugueses, deram origem a algumas das mais tradicionais famílias baianas, como os Moniz, os da Torre e os Garcia d’Ávila.

Além dessas filhas com sua índia predileta, o Filho do Trovão ainda teve outros filhos, dos dois sexos, com outras índias; nove, ao todo. Caramuru morreu em Salvador em 1557 e Catarina Paraguaçu sobreviveu a ele por mais 26 anos, sempre destemida e solitária, até que, já bem velha para a época, veio a falecer aos 80 anos de idade. Diogo Álvares Correa é considerado — por mais de uma fonte — o fundador do município de Cachoeira, hoje cidade próspera e de grande importância cultural da Bahia, por seus inúmeros museus e movimentos populares.

Carlos Magno de Melo: seu romance é narrado com mestria, com a narrativa ficcional reinventando a história do Brasil | Foto: Facebook

A fantasia faz a festa e outras peraltices

O romance “Guaibimpará Caramuru — Das Areias Às estrelas”, de Carlos Magno de Melo, também baseado em fatos reais, tem início em Portugal, bem antes do descobrimento do Brasil, quando é descrito o período das grandes navegações marítimas mostrando a sagacidade e determinação dos portugueses movidos pelo espírito aventureiro da época. Em primeira mão, é narrada a infância de Diogo Álvares Correia, com riqueza de detalhes, o que envolve sua figura excêntrica e sua vida humilde mas cheia de perspectivas, em Viana do Castelo, cidadezinha do interior de Portugal. Depois dá um salto para o Brasil, logo após o descobrimento. A história prossegue, com descrições sobre Diogo, o Caramuru (nome do peixe moreia, na linguagem dos indígenas), e Guaibimpará, a famosa índia Paraguaçu, e é narrada com mestria por Carlos Magno de Melo de maneira ficcional e repleta de atrativos os mais diversos. É uma verdadeira viagem ao mundo da fantasia. E um salto no abismo da imaginação.

Numa linguagem contida, Carlos Magno nos leva a mergulhar em um universo fantástico e maravilhoso, em que as etapas da vida de seus personagens se transformam em realidades plausíveis, a exemplo de um novo casamento entre Caramuru e Guaibimpará — numa cerimônia tradicional realizada ao estilo dos brancos bem dotados financeiramente. O que nos parece, à primeira vista, um capricho da exigente e determinada esposa de Caramuru. E essa passagem fica patente quando são narradas as aventuras e desventuras do casal junto aos guerreiros da tribo tupinambá e também quando, mais por conveniência dele que por insistência dela, viajam até Paris para, sob a proteção e simpatia da Rainha, receberem de um padre as bênçãos matrimoniais, com direito a fraque, vestido de noiva e tudo mais que caracterizava a cerimônia de um casamento tradicional. O baile em que a noiva dança abraçada com o rei é outro momento de espetacular invenção e picardia do autor de “Uma Canção de Ninar para o Diabo”. É ler para crer.

Carlos Magno, por outro lado, não deixa de exaltar o caráter arrojado de Caramuru, quando nos conta de seus namoros com outras índias da tribo, tendo deixado muitas mulheres apaixonadas e gerado filhos em várias delas. Ou seja, descreve as travessuras do português e suas peripécias sexuais como se ele vivesse num mundo todo construído à imagem e semelhança dos costumes de seus patrícios nas terras do velho mundo…

Outros momentos impagáveis que pululam pelas páginas do romance e que podem ser facilmente identificados no texto são as descrições dos entreveros políticos e comerciais entre brancos (portugueses, franceses, holandeses, etc.) e índios; nesse terreno, pode-se confirmar que ninguém é realmente ingênuo nem tão bobo a ponto de deixar-se enganar com galanteios, mentiras e promessas vãs. As pessoas mal intencionadas sabem disso, e procuram ignorar. “Mas um dia a casa cai”, diz a voz da experiência popular. E, assim sendo, pode-se concluir que o simplório sempre paga o devido preço por suas atitudes. E o espertalhão também.

Mas, assim que a narrativa vai chegando ao fim, podemos encontrar ainda uma espécie de ‘profissão de fé’ do escritor e médico Carlos Magno de Melo que, à maneira de Federico Fellini em um de seus documentários mais elucidativos e completos, só faltou lapidar como epígrafe do livro a famosa frase do cineasta italiano: “Sou um grande mentiroso” — em referência à arte de fazer o público rir, chorar e, eventualmente, pensar. Confissão que pode ser aplicada às demais artes, sobretudo à Literatura. “Non è vero?”

Micro biografia de Carlos Magno de Melo

Carlos Magno de Melo é médico e escritor. Sua trajetória literária teve início em 2000 com “Bar Castelo”, romance em que homenageia o estabelecimento comercial de seu pai na cidade goiana de Piracanjuba, que significa um tipo de peixe muito conhecido na região (atualmente a espécie está quase extinta em todo o Brasil).

Nascido em 1948, Carlos Magno é filho de Jair de Melo e Maria Elias de Melo. A família do escritor mudou-se para Goiânia, quando ele tinha 7 anos. Na capital do Estado, cursou o primário, o ginasial e concluiu os três anos do científico prestando provas no exame de madureza. Aos 13 anos, deixou um poema na portaria do jornal “Folha de Goiaz” para ser publicado pelo suplemento literário. O referido poema, dias depois, saiu na primeira página com ilustração do grande pintor Tancredo de Araújo.

Após passar no vestibular, Carlos Magno mudou-se para a cidade inventada por Lucio Costa em 1972, para estudar medicina na Universidade de Brasília (UnB). Tendo-se formado em 1978, deu início à sua carreira médica e viveu por mais 34 anos na capital do país. Membro da Academia Valenciana de Educação, Letras e Artes, da Academia do Brasil de Letras e Música, da Academia de Letras do Brasil e da Associação Nacional de Escritores, viajou para Portugal e Romênia, países em que participou de encontros e eventos literários sobre a Língua Portuguesa.

Depois de residir por dez anos em Valença, no Estado da Bahia, onde criou no jornal “Valença Agora” a coluna “O Canto da Crônica”, voltou para Brasília. Lá atuou como médico e empresário, tendo participado do projeto “O Livro na Rua”, do editor e acadêmico Victor Alegria. Em 2015, retornou ao Estado natal e hoje mora em Goiânia, onde praticamente tudo começou para o discípulo de Hipócrates e operário das palavras. Seu novo livro “Guaibimpará Caramuru — Das Areias às Estrelas”, lançado no Instituto Camões da Embaixada de Portugal em Brasília, está concorrendo ao Prêmio Jabuti neste ano de 2020. Cidadão Brasiliense e Comendador da República Romena, o filho de Piracanjuba foi escolhido pela Academia Pegasus, de Tirana, na Albânia, como o escritor destaque do Brasil em 2019.

Em 20 anos de carreira, Carlos Magno publicou 12 livros, que se classificam entre o romance e o conto: “Bar Castelo” (Thesaurus, 2000); “O Espírito do Rabo do Fogão” (Thesaurus, 2002); “Mata Serena” (Thesaurus, 2003); “Relatório Mandaras” (LGE Editora, 2004); “Longe da Mão do Rei” (Thesaurus, 2006); “Livramento Pentecostes” (Thesaurus, 2007); “O Manuscrito de Madri” (Thesaurus, 2008); “Canção da Água” (Thesaurus, 2010); “Uma Canção de Ninar para o Diabo” (Thesaurus, 2012); e “Guaibimpará Caramuru — Das Areias às Estrelas” (Thesaurus, 2019) — romances; e “Casos em Três Tempos” (Pórfiro Editora, 2002); “Bom Dia, Armagedom!” (LGE Editora, 2005) — contos.

João Carlos Taveira, poeta e crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.

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