Mariza Santana

No início de maio último, a operação da primeira turbina da usina hidrelétrica de Belo Monte, no Rio Xingu, no Pará, completou dez anos. O desvio do curso do rio para a construção da barragem da usina causou danos ambientais à região e decretou o fim de um estilo de vida para populações indígenas e ribeirinhos, além de pescadores artesanais. Todos foram fortemente afetados em nome da produção de energia elétrica e do progresso.

Localizada no município de Altamira, no noroeste paraense, a usina de Belo Monte é a maior usina totalmente brasileira, de acordo com a empresa concessionária Norte Energia. No romance “Maria Altamira”, a escritora goiana Maria José Silva relata como foi o impacto da construção da hidrelétrica na vida das pessoas que moravam em Altamira e região, por meio de duas protagonistas femininas.

A peruana Alelí é vítima de um desastre natural que destruiu sua aldeia local, causando a morte de todos os seus familiares, inclusive da filha pequena. Os fantasmas dessa tragédia passam a persegui-la e ela se torna uma andarilha errante, passando pela Bolívia, Chile, Argentina e Brasil, testemunhando um período de ditaduras latino-americanas, perseguições política e mortes. Nesses encontros e desencontros da vida, conhece Manuel Juruna, que a leva para morar em uma aldeia indígena no Pará, à beira do rio Xingu.

No entanto, seu companheiro estava marcado para morrer, ao militar na resistência contra os madeireiros que atuavam na região. Grávida e sozinha, Alelí foge para a cidade de Altamira, onde é acolhida por dona Chica, uma humilde auxiliar de enfermagem. Mas, tomada por uma vida de dores e com a certeza de que só traz infortúnio para aqueles a quem ama, a peruana deixa sua bebê aos cuidados da amiga, que lhe dá o nome de Maria Altamira e a cria como filha.

A partir desse ponto, a obra de Maria José Silveira se divide em dois relatos: o de Maria Altamira criança, depois jovem e sua mudança para a cidade de São Paulo; e o de Alelí, errante pelos rincões da Amazônia brasileira, acompanhada de músicos em alguns momentos, de desvalidos em outros, arrastando sua tristeza pela filha que perdeu no Peru e pela outra, cujo rosto não conhece, que abandonou no Pará. Como recurso extra, os capítulos de Maria Altamira são impressos na cor normal, enquanto os capítulos de Aleli são impressos em folhas negras, reforçando a intensidade do sofrimento da peruana.

Maria José Silveira capa de Maria Altamira 1
Romance da escritora Maria José Silveira | Foto: Jornal Opção

“Maria Altamira” vai contando como desde o anúncio do projeto da construção da usina hidrelétrica de Belo Monte a vida dos moradores de Altamira e região vai se modificando. Muitos perdem a casa onde moravam, situada à beira do rio. Perdem também a identidade, a história e a dignidade. Com a formação da barragem, as tribos indígenas não encontram mais peixe e caça para sobreviver. A compensação financeira da concessionária não resolve os problemas que se avolumam. A cidade fica mais movimentada, e também mais violenta.

A personagem Maria Altamira, depois de alguns anos morando na grande metrópole, sente saudade de casa e volta para a casa da mãe adotiva, só para constatar como tudo mudou para pior. Ela só vê desalento e um grande lago que mudou as características das águas do Xingu e a maneira de viver dos indígenas da aldeia do seu pai. Alelí, por sua vez, continua sua vivência errante, acompanhada de seus fantasmas.

O desfecho do romance é de uma beleza impressionante, por isso mesmo é melhor não revelar nada, além do muito que já foi revelado aqui nesta resenha literária. “Maria Altamira” é uma obra elaborada com sensibilidade, mas contém um forte teor de denúncia social e ambiental, demonstrando a força da literatura.

Maria José Silveira é escritora, tradutora e editora. Natural de Jaraguá (GO), tem dez livros editados, sendo que “Maria Altamira” é seu oitavo, publicado em 2020. A primeira obra “A mãe da mãe de sua mãe e suas filhas”, de 2002, teve a resenha elaborada por mim e publicada pelo Jornal Opção (https://tinyurl.com/yjpa6mt8).

Mariza Santana é jornalista e crítica literária.

(Email: marizassantana@gmail.com).