‘Má Educação’: reviravoltas gays e as muitas camadas de Almodóvar
29 agosto 2026 às 21h16

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O ano era 2004 quando Pedro Almodóvar lançava mais uma de suas obras inesquecíveis. Má Educação (La mala educación) conseguiu, à época de seu lançamento, incomodar conservadores religiosos e tradicionais ao fazer, de novo, aquilo que o cineasta espanhol sempre soube fazer muito bem, que é contar, sem pedir licença ou desculpas, uma história essencialmente queer.
Mas, reduzir Má Educação à uma mera provocação seria uma injustiça (Almodóvar, aliás, nunca pareceu se importar muito com o furor causado por seus filmes). Por trás das cenas de sexo, da exposição de abusos cruéis cometidos dentro de um colégio católico, de identidades embaralhadas e dos desejos pouco comportados, o diretor constrói quase um quebra-cabeça cinematográfico onde nada é exatamente aquilo que parecia ser alguns minutos antes.
Na trama, conhecemos Enrique (Fele Martinez), um cineasta que, na década de 80, recebe a visita (inesperada) de um homem que se apresenta como Ignacio, seu amigo e primeiro amor dos tempos de colégio. O reencontro ressuscita lembranças de uma infância marcada pela descoberta do desejo entre os dois e, principalmente, pelos abusos cometidos pelo padre Manolo, diretor da escola católica onde os meninos estudavam.

Ignacio, aliás, chega ainda com um conto inspirado naquele passado e a esperança de que Enrique o transforme em filme. É a partir de então que Almodóvar começa a embaralhar com maestria as cartas, e oque inicialmente parece ser uma história sobre o reencontro de dois antigos amantes, ganha contornos de suspense, vingança, desejo e acerto de contas (e que acerto de contas!).
Enrique percebe que há algo estranho naquele homem e começa a investigar seu passado, enquanto o espectador descobre que aquilo que vê pode ser lembrança, ficção, encenação ou uma mistura das três coisas. A estratégia é pra lá de engenhosa, uma vez que Má Educação funciona como uma cebola narrativa: Almodóvar apresenta uma camada, depois outra, depois outra.
Há a história de Enrique e Ignacio, há o conto entregue ao cineasta, há a infância dos dois no colégio religioso, há o filme produzido a partir daquele relato e há, ao final disso, a realidade que começa a desmontar aquilo que o espectador acreditava ter entendido.
O filme Má Educação, provavelmente, mesmo depois de anos, permanece como uma joia na já pesada coroa de Almodóvar como um dos grandes reis da cinematografia queer.
Seu cinema nunca parece preocupado em perguntar até onde pode ir sem incomodar alguém: ele vai e vai sem amarras ou pudores, porque entende algo que muita produção pretensamente “ousada” ainda não entendeu: representar personagens queer não é transformá-los em exemplos edificantes. Eles também podem ser cruéis, contraditórios, sexuais, egoístas, apaixonados e desastrosos.
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