A infância como último refúgio em Projeto Flórida
24 agosto 2026 às 14h43

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Projeto Flórida é um daqueles filmes que parecem simples até percebermos, depois dos créditos, o tamanho daquilo que acabou de ser contado. Dirigido por Sean Baker, o longa acompanha Moonee, uma menina de seis anos que vive com a mãe, Halley, em um motel barato nos arredores da Disney World, na Flórida. É um cenário curioso: a poucos quilômetros do lugar que vende a promessa de felicidade permanente, existe uma comunidade de pessoas tentando simplesmente sobreviver. Esse contraste mostra a força do filme.
Moonee não sabe que é pobre. Para ela, o mundo é feito de aventuras, brincadeiras, sorvetes, árvores, prédios coloridos e lugares proibidos. O motel onde mora não é, aos seus olhos, um símbolo de precariedade. É sua casa. O estacionamento é seu playground. Os outros moradores são seus vizinhos. A infância transforma um ambiente marcado pela dificuldade econômica em um território de descobertas.
E Baker entende que esse olhar infantil é fundamental.
O diretor poderia ter feito um drama social pesado, repleto de discursos sobre pobreza, desigualdade e abandono. Em vez disso, escolhe acompanhar a vida dessas pessoas com uma câmera quase documental e uma delicadeza impressionante. O resultado é ainda mais doloroso justamente porque o filme não força a emoção.
Moonee, interpretada por Brooklynn Prince, é o coração da obra. Sua atuação é extraordinária porque parece não existir uma separação entre a atriz e a personagem. Ela corre, grita, inventa histórias e apronta com os amigos com uma espontaneidade que faz o espectador esquecer que está diante de uma criança atuando.
A amizade com Jancey, vivida por Valeria Cotto, é especialmente bonita. As duas constroem um universo próprio, no qual os problemas dos adultos parecem distantes. Elas não precisam de brinquedos caros ou de viagens para criar aventuras. Basta um lugar abandonado, um terreno vazio ou um passeio pelo bairro.
É aí que The Florida Project se torna, ao mesmo tempo, um filme extremamente bonito e triste.
Porque o espectador sabe o que Moonee ainda não sabe.
Sabemos que sua mãe não consegue oferecer a estabilidade que ela precisa. Sabemos que o dinheiro é um problema constante. Sabemos que aquela infância aparentemente livre está cercada por circunstâncias que podem mudar sua vida a qualquer momento.
Halley, interpretada por Bria Vinaite, é uma personagem particularmente interessante. O filme não tenta transformá-la em uma mãe perfeita nem em uma vilã. Ela é jovem, impulsiva, irresponsável em diversos momentos e toma decisões questionáveis. Mas também ama profundamente a filha e tenta sobreviver dentro de possibilidades extremamente limitadas.
Essa ambiguidade é um dos maiores méritos do roteiro. Baker não julga seus personagens com facilidade. Ele permite que sejam contraditórios, como pessoas reais.
E então temos Bobby, interpretado brilhantemente por Willem Dafoe, gerente do motel. Inicialmente, ele poderia parecer apenas o funcionário responsável por manter a ordem. Aos poucos, porém, percebemos que existe uma relação de afeto entre ele e aquelas pessoas. Bobby é uma espécie de figura paterna para Moonee, alguém que tenta protegê-la sem assumir o lugar que não lhe pertence.
Dafoe entrega uma atuação magnífica justamente porque não exagera. Seu personagem poderia facilmente cair no sentimentalismo, mas o ator entende que pequenos gestos são suficientes para demonstrar sua preocupação.
O motel, aliás, é quase um personagem. Sua arquitetura colorida parece saída de um parque de diversões, mas esconde quartos apertados, famílias em situação de vulnerabilidade e pessoas vivendo em uma espécie de limbo social. O nome The Magic Castle ganha uma ironia ainda maior quando percebemos que, para quem mora ali, aquele lugar está muito distante de qualquer conto de fadas.
A proximidade com a Disney World é talvez a metáfora mais poderosa do filme. De um lado, existe o maior símbolo da fantasia infantil americana. Do outro, crianças que precisam inventar sua própria fantasia para suportar a realidade.
E talvez seja exatamente isso que Moonee esteja fazendo durante todo o filme.
Ela transforma a pobreza em aventura porque ainda não possui as ferramentas para compreendê-la de outra maneira.
É impossível não pensar em como a infância protege, durante algum tempo, as pessoas das crueldades do mundo. Crianças podem viver situações difíceis sem necessariamente compreender toda a dimensão delas. Moonee consegue rir, brincar e imaginar porque ainda não sabe que deveria estar preocupada.
O final, por isso, é tão poderoso. Sem entrar em detalhes, Baker rompe momentaneamente com o realismo que construiu ao longo de todo o filme e nos leva para dentro da perspectiva infantil de Moonee. É uma escolha que pode dividir opiniões, mas, para mim, funciona justamente porque representa uma fuga da realidade que se tornou insuportável.
Projeto Flórida não é um filme sobre pobreza. Pelo menos não apenas.
É um filme sobre infância.
Sobre o momento da vida em que uma criança ainda consegue encontrar beleza em lugares onde os adultos enxergam apenas problemas. Sobre mães que tentam proteger seus filhos enquanto lutam para sobreviver. Sobre pessoas invisíveis que vivem ao lado de uma das maiores indústrias de entretenimento do mundo.
E sobre como, às vezes, a felicidade não está em ter uma vida perfeita, mas em conseguir encontrar um pouco de magia dentro de uma realidade que está longe de ser mágica.
Talvez seja isso que torne Projeto Flórida tão especial. Sean Baker não pede que tenhamos pena de Moonee. Ele nos pede para enxergá-la.
E, quando finalmente conseguimos enxergar aquela menina correndo pelo estacionamento do motel, percebemos que o filme nunca esteve interessado apenas em mostrar uma criança vivendo na pobreza. Estava interessado em mostrar uma criança sendo criança, mesmo quando o mundo ao redor dela não permitia.
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