Delicioso e hilário, filme ‘O Convite’ parece a materialização de uma crônica de Luis Fernando Verissimo
15 agosto 2026 às 21h14

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Dois casais, um apartamento, um convite e uma deliciosa e hilária sátira da vida privada. Está posta a premissa do maravilhoso ‘O Convite’, filme de Olivia Wilde, filme que apesar da pouca divulgação, tornou-se um fenômeno de crítica e público justamente por trazer uma história bem contada e no melhor estilo da comédia do constrangimento. Com a própria Olivia no elenco, a mais nova produção da A24 só estreou na grande tela (o plano inicial era de o filme estrear direto no streaming) após insistência de Olivia. E que bom que ela insistiu.
A história começa nos trazendo Joe (Seth Rogen) e Angela (Olivia Wilde), um casal que, como inúmeros outros, enfrenta o desgaste silencioso de uma relação longa… e que caiu no tédio da rotina. Rotina essa em que a intimidade passa a faltar, e aquela espécie de acomodação vai se instalando até chegar em um nível insuportável, mas que conta com o consentimento silente dos dois.
Após mais uma aula, Joe, um professor de música que se enxerga como um fracassado, chega em casa e é informado por Angela que eles receberão um casal de vizinhos para o jantar. É quando o espetáculo do constrangimento começa.
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Moradores do andar de cima, Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz) são um casal aparentemente muito mais disposto a experimentar a vida, o desejo e os prazeres que Joe e Angela parecem ter esquecido pelo caminho. Joe e Angela os invejam, e não é para menos. Hawk e Piña parecem ser a materialização do hedonismo, da beleza e da originalidade. Um jantar entre os quatro, tão diferentes uns dos outros, logo, é tudo menos um mero jantar.
Mas o convite, que poderia parecer uma gentileza, logo vira uma batalha social de exposição, constrangimento e revelações. Ao longo de quase duas horas, ‘O Convite’ consegue algo que parece cada vez mais raro nas comédias: ele entretem continuamente. Na sala de cinema em que tive o prazer de assisti-lo, acompanhei a plateia nas risadas por praticamente o filme todo. Não existe a sensação de que o filme espera a próxima grande piada pra voltar a funcionar, os diálogos são afiados, perspicazes e funcionam com uma precisão arrebatadora. Um depois da outra.

A trilha sonora, sofisticada, entra justamente quando precisa entrar, e as piadas ácidas têm sempre o timing perfeito. O filme sabe quando acelerar, quando deixar o silêncio constranger e, principalmente, quando não explicar a graça. As risadas ininterruptas do espectador são autoexplicativas. É uma comédia, em suma, que confia na inteligência de quem está assistindo.
As atuações, leia-se, são um espetáculo à parte. Seth Rogen, Olivia Wilde, Edward Norton e Penélope Cruz parecem ter entendido que, em uma história como essa, a graça está texto e na maneira como cada personagem reage ao absurdo crescente da situação. O espectador só acompanha a história na tela, mas a sensação é de estar lá – e de querer sair correndo de lá. Esse é o “pulo do gato” de Olivia Wilde, que aposta na intimidade e da identificação com a história de quem a assiste.
Há, também, uma espontaneidade particularmente boa no quarteto. Parte das cenas, aliás, nasceu do improviso, algo que se nota na naturalidade das interações e na sensação de que, em determinados momentos, os atores estão genuinamente descobrindo uns aos outros diante da câmera. Wilde contou, inclusive, que uma das cenas improvisadas com Penélope Cruz a fez quebrar completamente a quarta parede, em uma reação que acabou permanecendo no filme.
A impressão que se tem, em determinados momentos, é a de estar diante de um conto de Luis Fernando Veríssimo. Não necessariamente porque ‘O Convite’ tente reproduzir seu estilo, longe disso, mas porque existe ali a mesma capacidade de transformar uma situação banal em uma pequena tragédia doméstica, ou melhor, em uma comédia da vida privada.
Olivia Wilde e os roteiristas Will McCormack e Rashida Jones fazem algo eficiente e com talento ao colocar quatro adultos em uma sala, fechar a porta e deixá-los falar. O resultado é uma comédia de costumes espirituosa, sexy, desconfortável e, sobretudo, muito, mas muito engraçada. Assisti, assistirei novamente e recomendo que o caro leitor faça o mesmo.


