“Once”: quantas vezes você encontra a pessoa certa?
31 julho 2026 às 22h18

COMPARTILHAR
Na última quarta-feira, 29, Glen Hansard nos deixou após sofrer um acidente de motocicleta em Dublin, na Irlanda. Ele tinha 56 anos. Mas Glen ainda tinha 36 quando, em 2007, foi lançado o filme ‘Once’ (Apenas uma Vez), e o mundo inteiro o conheceu como um músico que tocava violão pelas vielas irlandesas e se apaixonava por uma vendedora de flores.
A morte de Glen, inevitavelmente, fez ‘Once’ voltar aos holofotes e, agora, uma geração inteira está conhecendo uma das mais belas e singelas histórias de amor já contadas no cinema.
No longa, filmado em menos de 20 dias com uma câmera de mão e dirigido por John Carney, o cara (Glen Hansard) ajuda o pai em uma loja de conserto de aspiradores de pó durante o dia e toca suas próprias canções pelas ruas à noite, sonhando em gravar um disco e viver de sua música.
Em uma dessas noites de voz e violão pela bela e fria Dublin, o cara conhece a garota (Markéta Irglová), uma vendedora de flores de quem começa a se aproximar.
Repare, leitor, que não cito nomes, porque os próprios personagens não têm nomes. E nem precisam. O que realmente importa é a relação inebriante, regada a música, sonhos e uma paixão platônica, que eles constroem.
Devido ao formato “amador”, a história é contada quase como um documentário. Os diálogos são gentis, profundos, mas cotidianos. As interações são doces. É como se estivéssemos assistindo a um verdadeiro casal se apaixonando aos poucos diante de nossos olhos. E, de certa forma, foi exatamente isso. Glen e Markéta realmente tiveram um relacionamento amoroso após o filme.

Mas o maior brilho de ‘Once’ está em suas canções. Todas, com exceção de uma, foram compostas por Glen Hansard e Markéta Irglová, que chegaram a formar um duo na vida real, o Swell Season.
Cada verso, cada letra, parece ter sido escrito visualizando a cena em que é interpretado. São canções tão belas e melodiosas que arrancam suspiros até dos espectadores mais frios.
Os acordes e dedilhados parecem se casar de forma quase cósmica com as estonteantes paisagens irlandesas, das altas montanhas aos velhos e tradicionais pubs.
Na história, descobrimos que Markéta já tem alguém em sua vida: seu marido, pai de sua filha pequena, de quem estava temporariamente separada. A essa altura, o cara já está perdidamente apaixonado pela garota.
Há uma cena, que considero uma das mais geniais do filme, em que ele, ciente da existência do marido dela, pergunta: “Você o ama?”. Ela, propositalmente, responde em tcheco. E o filme, propositalmente, não traduz sua resposta.
O nome do filme, ‘Once’, é uma resposta à pergunta que também serve como seu slogan: quantas vezes você conhece a pessoa certa? “Apenas uma vez”, como ficou traduzido. Mas os caminhos e as escolhas do casal, muitas delas puxadas pelas pesadas responsabilidades da vida adulta, nos levam a crer que essa talvez não seja uma resposta literal.
Não é a quantidade de vezes que você conhece a pessoa certa, mas a qualidade do esforço que faz para tornar AQUELA pessoa a certa.


