Thomas More, filósofo, escritor e humanista, foi decapitado em 1535 por se recusar a reconhecer o rei Henrique VIII como chefe supremo da Igreja da Inglaterra e a aprovar a anulação de seu casamento com Catarina de Aragão para se casar com Ana Bolena. A fidelidade à própria consciência lhe custou a vida; fato semelhante ao ocorrido com Sócrates quase dois mil anos antes de More: foi obrigado a tomar veneno. Dez meses depois, a nova esposa foi também decapitada por ordem do rei.

O teólogo, filósofo e matemático Giordano Bruno foi queimado vivo pela Inquisição, em 1600, por defender a infinitude do universo e a existência de outros mundos. Trinta e três anos mais tarde, o destino de Bruno ainda pairava no ar como um aviso funesto; diante do tribunal inquisitorial, Galileu Galilei preferiu renegar publicamente suas convicções científicas a terminar na fogueira. Ganhou pena de prisão perpétua, que foi comutada por prisão domiciliar; porém nada perto do conforto por que passa o ex-presidente Jair Bolsonaro em sua tramoia de golpe contra a democracia brasileira. O que entendo como mais gravíssimo do que não reconhecer a Terra como centro do universo.

Em 17 de fevereiro de 1600, Giordano Bruno foi queimado vivo em Roma; filósofo foi considerado herege pelo papa Clemente VIII | Foto: Reprodução

Mas basta apenas citar o milagre neste texto, o qual nem sei ao certo em que gênero acomodá-lo. Talvez seja uma crônica tingida por uma fábula. Ou uma fábula que tomou emprestado o corpo de uma crônica. Isso pouco importa. O carrapato do relato a seguir é alguém que conhecemos muito bem: eu e você, altaneiro leitor. Ele vive por aí, sempre sugando algum corpo. Isso, portanto, já é o início do relato do milagre.

Esse carrapato morava perto do ânus de um pato. Bem perto. Não era um lugar escolhido pela beleza da paisagem, mas pela fartura de alimento e pela segurança física ao parasita. Dali sugava o sangue da ave sem necessidade de se mover. O pato, vez ou outra, contorcia o pescoço, esticava o bico e tentava alcançar o aracnídeo que tanto lhe incomodava, mas seu bico não alcançava o parasita. O carrapato permanecia firme, agarrado ao corpo que explorava.

O preço daquela vida aparentemente farta era alto. O sangue nunca lhe faltava; as fezes tampouco. Permanecia coberto pelos excrementos do pato, respirando mau cheiro e vivendo na sujeira que aprendera a suportar. Às vezes tinha vontade de largar aquela vida imunda e se tornar uma borboleta e assim sair de flor em flor colhendo néctar. Enfim, viver de maneira mais digna.

Em seu sonho sem asas, o carrapato criava janela, mas não conseguia atravessá-la. Ser borboleta exigiria abandonar a segurança da pele quente do pato (apesar do local em que estava). Exigiria que ele procurasse flores, enfrentasse as incertezas e vivesse do próprio esforço. Permanecer carrapato era muito mais simples. Bastava-lhe continuar agarrado ao pato.

Assim, toda vez que a vontade de mudar surgia, era sufocada por mais uma refeição cômoda sem ter o trabalho das borboletas. Aos poucos, o sonho foi desaparecendo, até se tornar apenas um pensamento passageiro.

Os dias passaram. Um dia, a casa se encheu de gente. Havia risos, panelas ao fogo e o cheiro de festa no ar. O pato foi abatido e mergulhado em água quente para que lhe arrancassem as penas. Agarrado ao corpo que explorara durante toda a vida, o carrapato não teve outro destino. Morreu junto com o hospedeiro. Nunca conheceu uma flor. Nunca precisou procurá-la. Morreu alimentado. Morreu gordo. Morreu imóvel. Jamais soube que a comodidade também pode ser uma forma de prisão.

Sinésio Dioliveira é jornalista, poeta e fotógrafo da natureza

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