Jales Guedes Coelho Mendonça

O clássico livro de Erico Verissimo “O Tempo e o Vento”, que descreve ciclicamente a saga de algumas gerações de famílias radicadas no Rio Grande do Sul em diferentes contextos históricos, é a primeira associação que o leitor estabelece ao compulsar a alentada obra “Ancestrais e Vida de Felix de Moura: histórias e revelações”, de Ney Moura Telles. Essa inspiração extrai-se na medida em que a presente publicação resgata a trajetória de seis camadas geracionais da linhagem dos Moura Telles fixados em Goiás, desde o patriarca Manoel Antônio de Moura Telles, imigrante português do final do século XVIII, até chegar ao seu tetraneto Felix de Moura, personagem principal do enredo.

Temporalmente, o livro tem início em 1578 na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos (norte da África), que marca um momento de inflexão no então poderoso império português ao acarretar a morte de seu rei Dom Sebastião. De outro lado, termina em 2009, na cidade de Formosa/GO, com uma outra batalha de caráter individual: Felix de Moura, à época um ancião quase centenário, luta por sua vida, dando os últimos suspiros de sua existência.  

Manoel Antônio de Moura Telles participou ativamente do movimento liderado por Teotônio Segurado com o objetivo de desmembrar o Norte de Goiás, sonho que só se efetivaria plenamente muito tempo depois na Constituição de 1988 com a criação do Estado do Tocantins

Como dito, o autor abre sua escrita mobilizando o mencionado fracasso de Portugal no Marrocos com a intenção de referenciá-lo como a raiz principal do sucessivo enfraquecimento econômico e expansionista de Portugal dali por diante. Tal retrocesso impactou inclusive, mesmo dois séculos depois (1793), na decisão de Manoel Antônio de Moura Telles de cruzar o Atlântico, acompanhado de sua esposa Rita de Cássia, com destino ao Brasil, mais especificamente ao arraial de Cavalcante, na porção setentrional da imensa capitania mediterrânea de Goiás.

Felix Moura capa de biografia 500

A viagem empreendida pelo casal dede a cidade do Porto até Cavalcante representa, ao mesmo tempo, um dos pontos culminantes do romance histórico e também a descrição de uma impressionante epopeia, talvez impossível de aquilatar-se em sua real dimensão com os olhos de hoje, anestesiados pelas facilidades dos meios de transporte disponíveis. A travessia do Atlântico durou exatos dois meses em uma nau com acomodações e víveres precários.

O percurso seguinte do Rio de Janeiro a Vila Boa, capital de Goiás, durou aproximadamente o mesmo período e com a idêntica frugalidade e ausência de conforto do trecho marítimo, sobretudo em razão de invariavelmente realizado sobre o dorso de mula ou cavalo.

Após vencerem inúmeras dificuldades, os portugueses Manoel e Rita se estabeleceram definitivamente em Cavalcante, fixando raízes profundas na região e desenvolvendo uma série de atividades relevantes para a sociedade local, a ponto de ele ter participado ativamente do movimento liderado por Teotônio Segurado com o objetivo de desmembrar o norte de Goiás, sonho que só se efetivaria plenamente muito tempo depois na Constituição de 1988 com a criação do Estado de Tocantins.

Varnhagen visitou Formosa, no afã de concretizar a ideia da interiorização da capital do país. Com o apoio de Manoel Abbadia, o estudo de Varnhagen influenciou bastante a Constituinte Federal de 1891 a acolher a tese da transferência da capital para o planalto central

O casal português teve quatorze filhos, sendo que o primogênito foi Manoel de Moura Telles, falecido precocemente aos 30 anos de idade por uma picada de cascavel, durante uma caçada às margens do rio Paranã. O roteiro prossegue com a geração seguinte, focalizando sobretudo a pessoa de seu filho Manoel Abbadia de Moura Telles, órfão de pai e mãe aos cinco anos e nascido no ano da independência (1822).

O autor explica que o pilar da economia brasileira era a mão de obra escrava enquanto o motor eram as mulas, o mais eficiente sistema de transporte dos oitocentos. Por isso, Manoel Abbadia abraçou o ofício de tropeiro, amealhando uma significativa tropa de muares para a circulação de mercadorias. Como conhecia muito bem o planalto central e a zona do chamado divisor de águas das três principais bacias hidrográfica brasileiras, o romance histórico descreve duas passagens interessantíssimas geradas por esse extraordinário conhecimento.  

A primeira deriva da consulta prestada voluntariamente por Manoel Abbadia ao engenheiro inglês Jayme Bayliss, obcecado em conectar por meio do trem de ferro as águas das bacias do São Francisco e do Tocantins. Em outras palavras, ligar Belém do Pará à divisa de Alagoas e Sergipe, pelo interior do Brasil e não mais apenas pelo litoral.

A segunda refere-se à visita de Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro, a Formosa (GO), em 1877, no afã de concretizar a ideia da interiorização da capital do país. Os criativos diálogos entre eles são verdadeiras aulas de geografia e logística e podem ser sintetizadas em duas orações supostamente enunciadas pelo Visconde a Abbadia: “O senhor conhecia estas terras. Eu apenas ajudei o Brasil a compreender o que elas significam.” O estudo de Varnhagen influenciou bastante a Constituinte Federal de 1891 a acolher a tese da transferência da capital para o planalto central. 

A saga dos Moura Telles segue com o coronel Felix de Moura Telles, filho de Manoel Abbadia e o primeiro a ter assento no poder Legislativo provincial (na República passa a denominar-se estadual) e, posteriormente, com seu herdeiro Abneres, encerrando assim a primeira metade da obra que possui 10 capítulos.

Não havendo curso ginasial em Formosa, Felix se muda para Uberaba e de lá consegue ingressar, após aprovação em 1º lugar, na tradicional Faculdade de Direito do Largo do São Francisco em São Paulo, que acabara de ser estadualizada para ser incorporada à USP

A segunda parte, composta de 15 capítulos, é uma biografia necessária do filho de Abneres: Felix Pereira de Moura. Nascido em 1915, Felix cursou a instrução básica em Formosa sob a orientação do dominicano francês Frei Henrique d’Abadie, o mesmo que anos antes, na Cidade de Goiás, influenciara decisivamente o pensamento de Domingos Vellasco, um dos maiores políticos goianos e fundador do Partido Socialista Brasileiro (PSB) em 1946.

Não havendo curso ginasial em Formosa, Felix se muda para Uberaba/MG e de lá consegue ingressar, após aprovação em primeiro lugar no vestibular, na tradicional Faculdade de Direito do Largo do São Francisco em São Paulo, que acabara de ser estadualizada para ser incorporada à Universidade de São Paulo (USP).

Nas Arcadas, Felix vive o febril ambiente de polarização política que eclode no Brasil os levantes comunistas (1935) e integralistas (1938), antes mesmo da deflagração da 2ª Guerra Mundial. Ademais, ingressa na recém-criada Justiça Eleitoral como servidor, a despeito de logo após o golpe de estado de 1937 ser extinta e Felix exonerado. Ele ainda no período universitário conhece de perto a importância da solidariedade da “Bucha”, organização secreta de auxílio aos discentes da “Sanfran”.

No entanto, é na etapa de seu retorno a Goiás, já formado em Direito, que a obra se concentra, sobretudo no interregno que medeia dos anos de 1945 a 1950. Nesse lapso temporal de grande intensidade, Felix se alista nas hostes da União Democrática Nacional (UDN), sucessora da UDB armandista – organização política criada para sustentar a campanha presidencial do Governador de São Paulo Armando Salles de Oliveira em 1937 –, e caracterizada como uma frente ampla que congregava socialistas, liberais e conservadores insatisfeitos com a ditadura brasileira vigente, incompatível com os novos ares democráticos do pós-guerra.

Eleito em 1947 deputado estadual conjuntamente com o Governador Jerônimo Coimbra Bueno, Felix é guindado à elevada condição de relator da Constituinte Estadual daquele ano. Divergindo do aludido chefe do poder Executivo Estadual, abre dissidência juntamente com o deputado Wilmar Guimarães e lança um manifesto muito debatido na ocasião. Sobre este tema e outros correlatos à atuação parlamentar de Felix, o leitor terá acesso a fontes valiosas e difíceis de serem encontradas.

Após malograr a tentativa de reeleição de Felix de Moura nas eleições de 1950 e a ocorrência de uma nova desilusão no mundo dos negócios públicos, em Goiânia, ele resolve regressar a Formosa, onde então passa a desenvolver, até a sua morte em 2009, intensa militância na advocacia e nas horas vagas na política local, sem prejuízo dos afazeres exigidos em suas propriedades rurais.

O autor Ney Moura Telles é filho do deputado Felix de Moura e assumiu para si o encargo nobre e trabalhoso de biografar adequadamente seu genitor, bem como resgatar a relevância da família Moura Telles radicada em Goiás desde o final do século XVIII.

Ney já é bastante conhecido no campo jurídico tanto como advogado militante quanto como escritor de cinco livros. Sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) desde o ano passado, entra agora com força e autoridade no mundo literário e ostentando um estilo próprio de frases curtas, por vezes de apenas um vocábulo, o que dá agilidade à sua narrativa.

O nome Ney foi uma homenagem ao famoso Marechal de Napoleão, alcunhado de “o mais bravo dos bravos”. O nosso Ney Moura Telles também é bravo, embora sua bravura não decorra da destreza provada nos campos de batalha, mas sim do manejo de palavras que sacodem a poeira do tempo e ajudam a empurrar o conhecimento histórico da humanidade para frente. 

Jales Guedes Coelho Mendonça é promotor de justiça, doutor em História/UFG, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), sócio correspondente brasileiro do IHGB, membro da AGL e autor do livro “A Invenção de Goiânia — O Outro Lado da Mudança” (UFG). O texto acima é o prefácio do livro, publicado pelo Jornal Opção com autorização de Ney Telles e Jalles Mendonça.