Felix Moura: história do goiano que passou em 1º lugar na Faculdade de Direito do Largo do São Francisco
22 agosto 2026 às 21h00

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Jales Guedes Coelho Mendonça
O clássico livro de Erico Verissimo “O Tempo e o Vento”, que descreve ciclicamente a saga de algumas gerações de famílias radicadas no Rio Grande do Sul em diferentes contextos históricos, é a primeira associação que o leitor estabelece ao compulsar a alentada obra “Ancestrais e Vida de Felix de Moura: histórias e revelações”, de Ney Moura Telles. Essa inspiração extrai-se na medida em que a presente publicação resgata a trajetória de seis camadas geracionais da linhagem dos Moura Telles fixados em Goiás, desde o patriarca Manoel Antônio de Moura Telles, imigrante português do final do século XVIII, até chegar ao seu tetraneto Felix de Moura, personagem principal do enredo.
Temporalmente, o livro tem início em 1578 na batalha de Alcácer-Quibir, no Marrocos (norte da África), que marca um momento de inflexão no então poderoso império português ao acarretar a morte de seu rei Dom Sebastião. De outro lado, termina em 2009, na cidade de Formosa/GO, com uma outra batalha de caráter individual: Felix de Moura, à época um ancião quase centenário, luta por sua vida, dando os últimos suspiros de sua existência.
Manoel Antônio de Moura Telles participou ativamente do movimento liderado por Teotônio Segurado com o objetivo de desmembrar o Norte de Goiás, sonho que só se efetivaria plenamente muito tempo depois na Constituição de 1988 com a criação do Estado do Tocantins
Como dito, o autor abre sua escrita mobilizando o mencionado fracasso de Portugal no Marrocos com a intenção de referenciá-lo como a raiz principal do sucessivo enfraquecimento econômico e expansionista de Portugal dali por diante. Tal retrocesso impactou inclusive, mesmo dois séculos depois (1793), na decisão de Manoel Antônio de Moura Telles de cruzar o Atlântico, acompanhado de sua esposa Rita de Cássia, com destino ao Brasil, mais especificamente ao arraial de Cavalcante, na porção setentrional da imensa capitania mediterrânea de Goiás.

A viagem empreendida pelo casal dede a cidade do Porto até Cavalcante representa, ao mesmo tempo, um dos pontos culminantes do romance histórico e também a descrição de uma impressionante epopeia, talvez impossível de aquilatar-se em sua real dimensão com os olhos de hoje, anestesiados pelas facilidades dos meios de transporte disponíveis. A travessia do Atlântico durou exatos dois meses em uma nau com acomodações e víveres precários.
O percurso seguinte do Rio de Janeiro a Vila Boa, capital de Goiás, durou aproximadamente o mesmo período e com a idêntica frugalidade e ausência de conforto do trecho marítimo, sobretudo em razão de invariavelmente realizado sobre o dorso de mula ou cavalo.
Após vencerem inúmeras dificuldades, os portugueses Manoel e Rita se estabeleceram definitivamente em Cavalcante, fixando raízes profundas na região e desenvolvendo uma série de atividades relevantes para a sociedade local, a ponto de ele ter participado ativamente do movimento liderado por Teotônio Segurado com o objetivo de desmembrar o norte de Goiás, sonho que só se efetivaria plenamente muito tempo depois na Constituição de 1988 com a criação do Estado de Tocantins.
Varnhagen visitou Formosa, no afã de concretizar a ideia da interiorização da capital do país. Com o apoio de Manoel Abbadia, o estudo de Varnhagen influenciou bastante a Constituinte Federal de 1891 a acolher a tese da transferência da capital para o planalto central
O casal português teve quatorze filhos, sendo que o primogênito foi Manoel de Moura Telles, falecido precocemente aos 30 anos de idade por uma picada de cascavel, durante uma caçada às margens do rio Paranã. O roteiro prossegue com a geração seguinte, focalizando sobretudo a pessoa de seu filho Manoel Abbadia de Moura Telles, órfão de pai e mãe aos cinco anos e nascido no ano da independência (1822).
O autor explica que o pilar da economia brasileira era a mão de obra escrava enquanto o motor eram as mulas, o mais eficiente sistema de transporte dos oitocentos. Por isso, Manoel Abbadia abraçou o ofício de tropeiro, amealhando uma significativa tropa de muares para a circulação de mercadorias. Como conhecia muito bem o planalto central e a zona do chamado divisor de águas das três principais bacias hidrográfica brasileiras, o romance histórico descreve duas passagens interessantíssimas geradas por esse extraordinário conhecimento.
A primeira deriva da consulta prestada voluntariamente por Manoel Abbadia ao engenheiro inglês Jayme Bayliss, obcecado em conectar por meio do trem de ferro as águas das bacias do São Francisco e do Tocantins. Em outras palavras, ligar Belém do Pará à divisa de Alagoas e Sergipe, pelo interior do Brasil e não mais apenas pelo litoral.
A segunda refere-se à visita de Varnhagen, o Visconde de Porto Seguro, a Formosa (GO), em 1877, no afã de concretizar a ideia da interiorização da capital do país. Os criativos diálogos entre eles são verdadeiras aulas de geografia e logística e podem ser sintetizadas em duas orações supostamente enunciadas pelo Visconde a Abbadia: “O senhor conhecia estas terras. Eu apenas ajudei o Brasil a compreender o que elas significam.” O estudo de Varnhagen influenciou bastante a Constituinte Federal de 1891 a acolher a tese da transferência da capital para o planalto central.
A saga dos Moura Telles segue com o coronel Felix de Moura Telles, filho de Manoel Abbadia e o primeiro a ter assento no poder Legislativo provincial (na República passa a denominar-se estadual) e, posteriormente, com seu herdeiro Abneres, encerrando assim a primeira metade da obra que possui 10 capítulos.
Não havendo curso ginasial em Formosa, Felix se muda para Uberaba e de lá consegue ingressar, após aprovação em 1º lugar, na tradicional Faculdade de Direito do Largo do São Francisco em São Paulo, que acabara de ser estadualizada para ser incorporada à USP
A segunda parte, composta de 15 capítulos, é uma biografia necessária do filho de Abneres: Felix Pereira de Moura. Nascido em 1915, Felix cursou a instrução básica em Formosa sob a orientação do dominicano francês Frei Henrique d’Abadie, o mesmo que anos antes, na Cidade de Goiás, influenciara decisivamente o pensamento de Domingos Vellasco, um dos maiores políticos goianos e fundador do Partido Socialista Brasileiro (PSB) em 1946.
Não havendo curso ginasial em Formosa, Felix se muda para Uberaba/MG e de lá consegue ingressar, após aprovação em primeiro lugar no vestibular, na tradicional Faculdade de Direito do Largo do São Francisco em São Paulo, que acabara de ser estadualizada para ser incorporada à Universidade de São Paulo (USP).
Nas Arcadas, Felix vive o febril ambiente de polarização política que eclode no Brasil os levantes comunistas (1935) e integralistas (1938), antes mesmo da deflagração da 2ª Guerra Mundial. Ademais, ingressa na recém-criada Justiça Eleitoral como servidor, a despeito de logo após o golpe de estado de 1937 ser extinta e Felix exonerado. Ele ainda no período universitário conhece de perto a importância da solidariedade da “Bucha”, organização secreta de auxílio aos discentes da “Sanfran”.
No entanto, é na etapa de seu retorno a Goiás, já formado em Direito, que a obra se concentra, sobretudo no interregno que medeia dos anos de 1945 a 1950. Nesse lapso temporal de grande intensidade, Felix se alista nas hostes da União Democrática Nacional (UDN), sucessora da UDB armandista – organização política criada para sustentar a campanha presidencial do Governador de São Paulo Armando Salles de Oliveira em 1937 –, e caracterizada como uma frente ampla que congregava socialistas, liberais e conservadores insatisfeitos com a ditadura brasileira vigente, incompatível com os novos ares democráticos do pós-guerra.
Eleito em 1947 deputado estadual conjuntamente com o Governador Jerônimo Coimbra Bueno, Felix é guindado à elevada condição de relator da Constituinte Estadual daquele ano. Divergindo do aludido chefe do poder Executivo Estadual, abre dissidência juntamente com o deputado Wilmar Guimarães e lança um manifesto muito debatido na ocasião. Sobre este tema e outros correlatos à atuação parlamentar de Felix, o leitor terá acesso a fontes valiosas e difíceis de serem encontradas.
Após malograr a tentativa de reeleição de Felix de Moura nas eleições de 1950 e a ocorrência de uma nova desilusão no mundo dos negócios públicos, em Goiânia, ele resolve regressar a Formosa, onde então passa a desenvolver, até a sua morte em 2009, intensa militância na advocacia e nas horas vagas na política local, sem prejuízo dos afazeres exigidos em suas propriedades rurais.
O autor Ney Moura Telles é filho do deputado Felix de Moura e assumiu para si o encargo nobre e trabalhoso de biografar adequadamente seu genitor, bem como resgatar a relevância da família Moura Telles radicada em Goiás desde o final do século XVIII.
Ney já é bastante conhecido no campo jurídico tanto como advogado militante quanto como escritor de cinco livros. Sócio titular do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG) desde o ano passado, entra agora com força e autoridade no mundo literário e ostentando um estilo próprio de frases curtas, por vezes de apenas um vocábulo, o que dá agilidade à sua narrativa.
O nome Ney foi uma homenagem ao famoso Marechal de Napoleão, alcunhado de “o mais bravo dos bravos”. O nosso Ney Moura Telles também é bravo, embora sua bravura não decorra da destreza provada nos campos de batalha, mas sim do manejo de palavras que sacodem a poeira do tempo e ajudam a empurrar o conhecimento histórico da humanidade para frente.
Jales Guedes Coelho Mendonça é promotor de justiça, doutor em História/UFG, presidente do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás (IHGG), sócio correspondente brasileiro do IHGB, membro da AGL e autor do livro “A Invenção de Goiânia — O Outro Lado da Mudança” (UFG). O texto acima é o prefácio do livro, publicado pelo Jornal Opção com autorização de Ney Telles e Jalles Mendonça.


