Família Naves: uma longa viagem entre Minas Gerais e Goiás. E conheça a história dos irmãos Naves
22 agosto 2026 às 21h00

COMPARTILHAR
Salatiel Soares Correia
Especial para o Jornal Opção
A história da família Naves pode ser contada como uma longa viagem pelo interior do Brasil.
Uma viagem iniciada há mais de três séculos, atravessando montanhas, rios, garimpos, lavouras, estradas de terra e cidades que ainda estavam nascendo.
Seus descendentes partiram de São Paulo, alcançaram Minas Gerais e, mais tarde, avançaram para Goiás, Tocantins, Distrito Federal e outras regiões do país. Por onde passaram, trabalharam na mineração, na agricultura, na pecuária, no comércio, no magistério, no Direito, na comunicação e no serviço público.
Alguns integrantes da família Naves permaneceram ligados ao garimpo; outros se tornaram agricultores, pecuaristas e comerciantes. Assim, o sobrenome chegou a Bagagem, atual Estrela do Sul, Indianópolis, Santa Juliana, Uberlândia e Araguari. Depois, Goiás
A linhagem mais documentada começa com João de Almeida Naves, nascido em 1624, em Fornos de Algodres, Portugal. Ele teria chegado ao Brasil por volta de 1650 e, cinco anos depois, casou-se, em São Paulo, com Maria da Silva Leite. O casal fixou-se em Santana de Parnaíba, ponto de partida de uma descendência que se espalharia pelo território colonial.
Entre os primeiros nomes dessa trajetória aparece Florência da Silva Naves, personagem importante na preservação do sobrenome. Seus descendentes seguiram para Minas Gerais e se estabeleceram em regiões como Carrancas e Lavras, acompanhando a expansão da mineração e a formação de novas áreas agrícolas.
Em Lavras, João Naves Damasceno, casado em 1786 com Anna Vitória de São Thomé, formou um dos principais troncos da família. O casal teve numerosos filhos. Entre eles estavam Venâncio José Naves e José Francisco Naves, que seguiram em direção ao Alto Paranaíba e ao Triângulo Mineiro, onde novas terras prometiam oportunidades para quem estivesse disposto a recomeçar.

Era um tempo em que as famílias se deslocavam conforme as mudanças da economia.
Quando a mineração perdia força em determinada região, procuravam-se terras férteis, novas lavouras e áreas de criação.
Alguns integrantes da família Naves permaneceram ligados ao garimpo; outros se tornaram agricultores, pecuaristas e comerciantes. Assim, o sobrenome chegou a Bagagem, atual Estrela do Sul, Indianópolis, Santa Juliana, Uberlândia e Araguari.
Foi em Araguari, entretanto, que a família Naves viveu seu episódio mais dramático. A cidade, que poderia ter sido apenas mais uma parada naquela extensa marcha pelo interior, transformou-se no cenário de um dos maiores erros judiciários da história brasileira.
Sem cadáver, sem testemunhas confiáveis e sem provas, a polícia decidiu que os irmãos Sebastião e Joaquim Naves haviam cometido um assassinato. Em lugar de investigação, houve violência. Em lugar de provas, vieram as torturas. Os dois eram inocentes
Em 1937, os irmãos Sebastião José Naves e Joaquim Naves Rosa trabalhavam no comércio de cereais. Levavam uma vida simples, procurando sobreviver com os negócios realizados numa cidade movimentada pela estrada de ferro e pela produção agrícola. Tudo mudou quando Benedito Pereira Caetano, primo e sócio dos irmãos, desapareceu levando uma considerável quantia em dinheiro.
Sem cadáver, sem testemunhas confiáveis e sem provas materiais, a polícia decidiu que Sebastião e Joaquim haviam cometido um assassinato. Era o início do Estado Novo, período em que a força das autoridades frequentemente se colocava acima das garantias individuais. Em lugar de investigação, houve violência. Em lugar de provas, vieram as torturas.
Os irmãos foram presos e submetidos a agressões até confessarem um crime que nunca havia acontecido. As violências alcançaram também seus familiares. Ana Rosa Naves, conhecida como Dona Ana, mãe de Sebastião e Joaquim, foi presa, ameaçada e humilhada. Mesmo assim, permaneceu firme. Repetia que os filhos eram inocentes e pedia que eles jamais confessassem aquilo que não haviam feito.
Naquele momento, Dona Ana deixou de ser apenas a mãe de dois acusados. Tornou-se a consciência moral de uma família perseguida. Quando as instituições falharam, foi ela quem sustentou a verdade. Sua resistência contribuiu para que o advogado João Alamy Filho assumisse a defesa dos irmãos e passasse a enfrentar as irregularidades do processo.

Os anos correram lentamente. Joaquim morreu em 1948, carregando a marca de uma condenação injusta. Não viveu o suficiente para presenciar a cena que mudaria definitivamente aquela história. Em 1952, quinze anos depois do desaparecimento, Benedito Pereira Caetano foi encontrado vivo.
A notícia caiu sobre Araguari como uma verdade que já não podia ser escondida. O homem que teria sido assassinado estava diante de todos. Não havia crime, cadáver ou dinheiro roubado pelos irmãos. Existiam apenas dois inocentes destruídos pela violência policial e pela precipitação judicial.
A fundação de Goiânia, em 1933, atraía famílias do interior. Muitos descendentes dos Naves trocaram as propriedades rurais pela cidade em construção. Passaram a atuar na administração pública, no comércio, na educação, no Direito, na medicina e na comunicação
Sebastião ainda lutou pelo reconhecimento da inocência e pela reparação devida à família. O sofrimento dos irmãos atravessou gerações e se transformou em livros, estudos acadêmicos, peças teatrais e cinema. Em 1967, o diretor Luís Sérgio Person levou a história às telas no filme O Caso dos Irmãos Naves, uma das obras mais importantes do cinema político brasileiro.
Em maio de 2026, quase nove décadas depois do início daquela tragédia, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais lançou, em Araguari, o documentário Sob o peso da tortura: o caso dos irmãos Naves. Na cerimônia, representantes do Judiciário reconheceram o erro cometido e homenagearam os descendentes. Era um gesto tardio, incapaz de devolver os anos perdidos, mas necessário para reafirmar que nenhuma condenação pode ser construída sobre torturas, suposições e preconceitos.
Enquanto Araguari guardava essa dolorosa lembrança, outros ramos da família continuavam avançando pelo Brasil. Os Naves se estabeleceram em Minas Gerais, São Paulo, Goiás, Tocantins e Distrito Federal. Dos casamentos e das novas gerações surgiram ramificações como Naves de Oliveira, Naves de Ávila, Borges Naves, Soares Naves e Naves de Sousa.
No início do século XX, integrantes da família deixaram Minas Gerais e partiram para Goiás em busca de terras e oportunidades. O núcleo Borges Naves estabeleceu-se inicialmente em Buriti Alegre, Morrinhos e Caldas Novas. Entre os pioneiros estava Antônio Romão Naves, natural de Monte Santo de Minas, que encontrou na agropecuária o caminho para reconstruir a vida no território goiano.
A história da família Naves ajuda a compreender a própria formação do interior brasileiro. Em suas ramificações aparecem o declínio da mineração, a expansão agrícola, a ocupação do Triângulo Mineiro, a migração para Goiás e o crescimento de Goiânia
Com o passar dos anos, os descendentes avançaram para Anicuns, Firminópolis e São Luís de Montes Belos. Não havia estradas asfaltadas nem caminhões modernos. A produção rural seguia em carros de bois até os pontos de comércio e as estações ferroviárias. José Naves de Sousa e João Borges Naves ficaram lembrados como carreiros daquele tempo, homens que enfrentavam longas distâncias transportando o resultado das lavouras.
A fundação de Goiânia, em 1933, abriu uma nova etapa. A jovem capital atraía famílias do interior, comerciantes, servidores públicos, estudantes e profissionais liberais. Muitos descendentes dos Naves trocaram as propriedades rurais pela cidade em construção. Passaram a atuar na administração pública, no comércio, na educação, no Direito, na medicina e na comunicação.
Goiânia tornou-se um dos principais centros de encontro e preservação da memória familiar. Nessa tarefa destaca-se o jornalista, escritor e editor Jales Rodrigues Naves, que ajudou a reunir documentos, divulgar pesquisas e aproximar descendentes espalhados por diferentes estados.
Também tiveram papel fundamental as professoras Maria Helena Fernandes Cardoso, conhecida como Dorinha, e Vicentina Naves Fernandes. Durante anos, elas procuraram certidões, inventários, registros paroquiais, fotografias e relatos dos parentes mais velhos. Com a colaboração de Jales Naves, esse trabalho resultou na obra A história da família Naves no Brasil, abrangendo o período de 1655 a 1945.
O pesquisador Nilson N. Naves, por sua vez, identificou pelo menos treze gerações. Suas investigações ajudaram a substituir antigas lendas por documentos. Uma dessas histórias dizia que dois irmãos teriam vindo de Portugal num navio e, por isso, adotado o sobrenome Naves. Os registros indicaram, porém, que eles já haviam nascido em Minas Gerais e pertenciam a uma linhagem formada anteriormente no Brasil.
Ainda existem lacunas que recomendam prudência. O núcleo Borges Naves, por exemplo, apresenta pontos genealógicos que dependem de novas pesquisas, especialmente quanto à identificação dos pais de Maria Vitória Naves, provavelmente nascida por volta de 1820, em Lavras. A genealogia não deve ser construída apenas pela repetição de histórias familiares, mas pelo encontro entre a memória oral e a documentação histórica.
Araguari e Goiânia representam dois momentos marcantes dessa trajetória. Araguari preserva a lembrança da injustiça sofrida pelos irmãos Naves e da coragem de Dona Ana. Goiânia simboliza a continuidade, a reorganização dos descendentes e a transformação de uma família de raízes rurais em presença ativa na vida urbana, profissional e cultural de Goiás.
Entre as duas cidades existe mais do que uma distância geográfica. Há uma história de deslocamentos, recomeços e resistência. Os Naves deixaram os antigos centros mineradores, abriram lavouras, conduziram carros de bois, criaram gado, estabeleceram comércios, formaram profissionais e participaram da construção de novas cidades.
A história dessa família, portanto, não se resume a uma árvore genealógica composta de nomes e datas. Ela ajuda a compreender a própria formação do interior brasileiro. Em suas ramificações aparecem o declínio da mineração, a expansão agrícola, a ocupação do Triângulo Mineiro, a migração para Goiás e o crescimento de Goiânia.
Mas existe uma imagem que parece reunir toda essa caminhada: a de Dona Ana diante dos homens que queriam obrigar seus filhos a confessar um crime inexistente. Ela não possuía poder político nem influência sobre as autoridades. Tinha apenas a convicção de que os filhos eram inocentes. E foi essa convicção que atravessou o tempo.
Talvez esteja justamente aí o maior legado da família Naves: a capacidade de continuar caminhando mesmo depois da injustiça, sem abandonar a memória. Porque preservar a história dos que vieram antes não significa apenas reverenciar o passado. Significa impedir que os mesmos erros voltem a acontecer.
Salatiel Soares Correia, escritor e crítico literário, é colaborador do Jornal Opção.


