Fernando Cupertino

Especial para o Jornal Opção

A chuva fina de finados nem precisava ter vindo, mas veio de jeito a ensopar roupa esquecida no varal e a encharcar de vez a terra vermelha do cemitério de Santa Rita do Bugre.

Na sala de jantar, o defunto — siô Tonho do Alambique, enrijecido num terno de casimira preta que usara apenas no próprio casamento e no batizado da afilhada rica, descansava soberano sobre quatro cadeiras de palha trançada.

Em volta do caixão, entre o cheiro forte de vela de cera de abelha, o vapor do café requentado e o aroma de cravo-da-índia, o cochicho corria solto e ligeiro como fumaça de cachimbo. Ajoelhadas num banco de madeira bem ao lado do altar improvisado, Comadre Ditinha e Comadre Gertrudes desfiavam as contas do terço… e a vida inteira do povoado.

Ditinha disse: “Gertrudes, minha filha… olhe lá o tamanho da coroa de flores que a finada Sebastiana mandou. Me diga: isso é tamanho de flor pra quem devia três quilos de feijão e um rolo de fumo no armazém dele?”

— Ave Maria, cheia de graça, o Senhor é convosco… — entoou Ditinha, baixinho, curvando a cabeça como quem chorava rios de lágrimas. Depois, pela brecha entre os dedos calejados e entrelaçados na reza, cutucou a outra com o cotovelo.

— Gertrudes, minha filha… olhe lá o tamanho da coroa de flores que a finada Sebastiana mandou. Me diga: isso é tamanho de flor pra quem devia três quilos de feijão e um rolo de fumo no armazém dele?

Gertrudes cobriu o rosto com o lenço de renda amarelado pelo tempo, fingindo enxugar uma lágrima que nunca existiu, e respondeu de canto de boca, sem mexer um músculo da face:

— Santa Maria, Mãe de Deus, rogai por nós…

— Que nada, Ditinha! Aquilo não é pesar não, aquilo é alívio dos grandes. Sebastiana tá é dando graças ao Divino que o Tonho se foi antes de cobrar as promissórias da venda daquela junta de bois doente. E olha lá a viúva, a Donana… Reparou no pano do véu dela?

— O que tem o véu, mulher? É preto como pede a dor…

— É tule francês, trazido de comboio direto da capital! Dizem que encomendou no mês passado, quando o homem deu o primeiro pigarro mais forte do peito. Ela já tava no preparo do luto faz tempo!

Ditinha deu uma engolida em seco, ajeitando o xale nos ombros enquanto corria o olho pela sala.

— Credo em cruz, Gertrudes! Não fale uma arte dessa no pé do morto, que a alma dele ainda tá rondando o vão do telhado e escuta tudo! Mas… me diga uma coisa: tu viu quem entrou agora meio escondida pela porta dos fundos?

Gertrudes virou o olho compridamente, sem mexer o pescoço um centímetro sequer.

A comadre disse: “Pois o povo fala demais, mas quem sabe da verdade da casa é o mofo da parede. E o padre? Que demora é essa que não chega pra encomendar essa alma?” O padre estava comendo broa de brulho quente

— Quem? A nega Zulmira?

— A própria! De vestido azul-Pavão! Onde já se viu vir pra velório de defunto de respeito vestida de passarinho do mato?

— Ah, mas aquilo tem explicação e das antigas… — Gertrudes se curvou mais um tanto, quase encostando a ponta do nariz na orelha de Ditinha, baixando o tom ao nível de um ganido de cachorro acuado.

Velório e as mulheres fuxiqueiras ok45
A conversa de duas comadres em velório | Foto gerada por IA

— O Tonho, coitado, Deus o tenha num bom lugar… tinha um xodó antigo com ela desde o tempo da colheita do feijão das águas. Donana fingia que não sabia pra não perder a pose de senhora, mas hoje nem deixou a coitada chegar perto do caixão. Mandou o filho colocar a bacia de servir café bem longe, lá perto do paiol de milho!

— Nossa Senhora da Guia! — murmurou Ditinha, benzendo-se com tanta fúria que a mão quase acertou a ponta do nariz do defunto.

— Pois o povo fala demais, mas quem sabe da verdade da casa é o mofo da parede. E o padre? Que demora é essa que não chega pra encomendar essa alma?

— Tá lá no alpendre do fundo, comendo broa de milho quente com queijo curado que a cozinha da casa  acabou de assar. Disse que rezar a encomendação com a barriga vazia faz a oração pesar e subir sem força pro céu. E olha que a comilança no fundo tá brava: até a filha do delegado já passou três vezes na mesa dos biscoitos de polvilho!

— Essa aí nem disfarça… veio pra comer e pra ver se o filho do tabelião reparava nas fitas do cabelo dela — alfinetou Ditinha.

As duas assentiram com a cabeça, soltando um suspiro profundo e sincronizado de contrição religiosa que ecoou pela sala toda. Quem olhava de longe achava que era o mais puro lamento pela perda do ilustre cidadão da vila.

Nisso, um estalo seco e alto veio de dentro do caixão. Uma das velas de cera deu um estalo no pavio e a tábua de palha de uma das cadeiras de sustentação rangeu sob o peso do morto.

As duas deram um pulo juntas no banco de madeira, de tal modo que o terço quase voou longe. Ditinha prendeu a respiração e Gertrudes apertou as contas do rosário com tanta força que os nós dos dedos ficaram brancos.

— Virgem Santíssima… — sussurrou Ditinha, com os olhos regalados e a voz entalada na garganta.

— Tu acha que ele ouviu, Gertrudes? Tu acha que ele vai levantar?

Gertrudes ajeitou a saia de chita com mãos trêmulas, respirou fundo e engoliu o susto, recompondo a postura de velório com a velocidade de um raio.

— Ouvir não ouviu não, Ditinha… defunto depois que esfria não guarda rancor. Mas se ouviu, não nega nada do que eu disse. Tonho sempre foi homem de gostar de uma boa conversa fiada no balcão. Agora, é rezar: Dai-lhe, Senhor, o eterno descanso… e passa pra cá aquele prato de rosquinha de canela que a noite é longa e a vida dos outros não se conta sozinha!

Fernando Cupertino, médico, compositor e escritor, é colaborador do Jornal Opção.